A população trans quer garantias de seus direitos

O SUS assegura o atendimento e cirurgias para resignação de sexo

Hudson Portella

 O Brasil é o país onde morreram mais transgêneros no mundo, entre 2008 a 2016. Foram 938 assassinatos de transexuais, segundo dados da organização não governamental (ONG) TransgenderEurope.          Pelo levantamento feito em dezembro de 2016, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da União Nacional LGBT, uma pessoa trans no país tem tempo de vida média de 35 anos, expectativa de vida baixo do esperado, que é de 75,5 anos. A situação se agrava ainda mais pelas dificuldades de atendimento à saúde pública, por exemplo.

No Brasil, a população trans comemora o fato de desde 2008, o Sistema Único de Saúde realizar cirurgias de resignação de gênero – quando pessoas se submetem a operações para readequação sexual. De 2008 a 2014, os números para esse tipo de cirurgia têm aumentado 3.000%, crescendo de 101 para 3.157 – em 2014. Já foram realizadas 9.867 cirurgias em todo país, segundo dados do Ministério da Saúde.

Apenas cinco hospitais e ambulatórios realizam o processo transexualizador pelo SUS no país: Hospital de Clinicas de Porto Alegre, da Universidade Federal de Rio Grande do Sul; Hospital de Clinicas de Goiânia, da Universidade Federal de Goiás; Hospital de Clinicas de Recife, da Universidade Federal de Pernambuco; Hospital de Clinicas de Medicina da Universidade de São Paulo e no Hospital Universitário Pedro Ernesto, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

Para que a pessoa possa fazer a cirurgia de mudança de sexo, várias etapas são exigidas durante o tratamento, passando desde um acompanhamento rigoroso ambulatorial com equipe multiprofissional até consultas com psicólogos e psiquiatras. Para procedimentos ambulatoriais, o usuário precisa ter no mínimo 18 anos, já para contemplação de cirurgia, somente a partir de 21 anos. Logo após a cirurgia o paciente realiza um ano de acompanhamento pelas equipes médicas especializadas no assunto, para que assim não ocorra nenhuma restrição ou problemas futuros.

Agonia

Moradora de Joinville (SC), a transexual piauiense Valesca de Oliveira conta que o maior sofrimento é com a falta de respeito e atenção, pois na maioria das vezes a determinação para que sejam tratados pelo nome social – aquele que a pessoa se reconhece e não o que consta nos documentos oficiais – não é seguida pelos funcionários do SUS.

“Sempre que vou, peço para ser chamada pelo meu nome social, se não eles acabam chamando pelo meu nome de batismo e isso é muito constrangedor. Pois me considero uma mulher e já conquistei meu nome social por lei. Exijo que me chame de Valesca”, afirmou ela.

Para a transexual Gloria Crystal, de Porto Alegre (RS), é fundamental respeitar travestis e transexuais em seus direitos e deveres. “Eu sempre falo que estou nesse mundo e não é a passeio. Escrevo minha história todos dos dias e respeito as pessoas independente de raça, orientação sexual e sempre digo que não preciso que me aceite, eu exijo que me respeite”, disse Glória Cristal.

Felicidade

A cirurgia de readequação sexual foi uma realização pessoal da goiana Cristyane Beatriz. Segundo ela, após a operação o difícil foi seguir, atentamente, os procedimentos. Antes, porém, ela recomenda paciência para enfrentar uma longa fila de espera, além de preparo psicológico. Mesmo com todas essas exigências, ela defende o período estabelecido para a resignação de sexo, pois se trata de uma cirurgia muito delicada.

“Depois da cirurgia, passaram alguns dias e tive meu primeiro banho. Eu lembro que água foi escorrendo pelo meu corpo… eu fui passando a mão e naquele momento eu senti de fato a Cristyane. Hoje me sinto realizada”, disse ela, demonstrando uma alegria contagiante.

Para Marcele Malta que faz parte de uma ONG de Transexual e Travestis, em Porto Alegre (RS), disse que é necessário fazer uma “verdadeira revolução” para melhorar a qualidade de vida da população discriminada, que sofre para estudar, pelas dificuldades mais simples do cotidiano, como usar um banheiro. Ela elogia o “belíssimo trabalho” do Ministério da Saúde em colocar em pautas que viabilizam a vida das travestis e transexuais, principalmente em se tratando de saúde.