A ficção que transcende à realidade

 

A série “13 Reasons Why”, o jogo Baleia Azul e a vida cotidiana

Natália Martins

Os estudantes Francisco Fernandes Mendes, de 16 anos; Hanna Baker, 17; e Gabriel Xavier, 19, não se conhecem, mas tiveram suas vidas marcadas pelo bullying. Os três sofreram agressões – em alguns casos verbais, em outras físicas e psicológicas na escola. O colégio, que deveria ser um ambiente de aprendizado e integração, tornou-se um lugar de exclusão e preconceitos para Francisco Fernandes, aluno de uma escola particular de Brasília. Após ser alvo de bullying, ele acabou tirando a própria vida aos 16 anos. Situação semelhante foi vivida pela personagem Hanna Baker, protagonista da série “13 Reasons Why”, (“Os 13 porquês”, em português) lançada no dia 31 de março, pela Netflix.  A trama conta a história da adolescente, de 17 anos, que se suicida depois de ser rejeitada no colégio, alvo de ironias e insinuações sobre sua conduta, assim como abuso sexual. Para se justificar, ela deixa 13 fitas cassetes em que conta os motivos que a levaram à morte.

A série, baseada no livro de mesmo nome, do norte-americano Jay Asher, virou tema de discussões na internet e fora dela por envolver uma série de assuntos polêmicos: bullying, abuso sexual, e violência verbal. Para a psicóloga e especialista em crianças e adolescentes Tatiana Araújo, é necessário ter “muito cuidado” ao assistir à série. “É preciso ter o diálogo dentro de casa para que as crianças e adolescentes não se deixem influenciar pela história da personagem”, alertou a especialista.

A falta de tempo do dia a dia pode atrapalhar o diálogo, como admitiu Walesca Fernandes, de 47 anos, mãe de Gabriel Xavier, de 19. Segundo ela, foi um dos momentos mais delicados vividos no último ano, quando percebeu que o filho passava horas no quarto e muitas vezes não queria ir à aula. Em meio às atividades cotidianas e atribuições domésticas, Walesca Fernandes reconheceu que não observava o comportamento do filho. “A gente não pensava que poderia ser alguma coisa grave, eu achava que era comportamento normal de adolescente, que ficava no quarto jogando videogame e usando a internet”, contou a mãe.

Em junho de 2016, Gabriel tirou a própria vida. Após a fatalidade, a mãe procurou a escola em busca de respostas. “Eu fui à escola para tentar entender o que tinha acontecido. A coordenadora me contou, depois de conversar com alguns amigos do Gabriel, que ele tinha sofrido bullying por causa do seu sobrepeso”, disse Walesca, informando que o filho pesava 80 kg e 1,67 de altura.

Ajuda

Após a estreia da série que se tornou febre entre os jovens, os pedidos de ajuda por intermédio do e-mail do Centro de Valorização da Vida (CVV) dobraram. Dados da organização, que fornece apoio emocional e prevenção ao suicídio, mostram que, em uma semana, foram feitos 50 contatos que associam diretamente pedidos de ajuda à “13 Reasons Why”.

“O alto número de pedidos de ajuda após a estreia pode ser um fator muito bom, visto que a série pode ter chamado atenção para as pessoas procurarem ajuda, sem recorrerem a atitudes extremas. Porém, também podemos ficar preocupados com esses números. Talvez muitos dos que assistiram à série não pensassem em suicídio antes dos episódios e após o término, começaram a desenvolver a ideia, o que pode ser bastante preocupante”, analisou a psicóloga Tatiana Araújo.

Em 2016, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou pesquisa em que mostra que há um suicídio a cada 40 segundos no mundo. Essa é a segunda maior causa de morte de jovens entre 15 a 29 anos, ficando atrás somente de acidentes de carro. Além dos jovens, os vulneráveis estão entre as vítimas, como lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, imigrantes e refugiados.

Mesmo tratando de um assunto delicado, a série divide opiniões entre especialistas. A psicopedagoga Juliana Guimarães trabalha em escolas particulares de Brasília há 17 anos e lida com crianças e adolescentes no seu dia a dia. Sem descartar a importância da conscientização dos alunos, a psicopedagoga acredita que os efeitos que a série dos “13 porquês” vai além do que se imagina. “Precisamos olhar muito além a mensagem que a série traz para os jovens. É muito importante analisar os problemas que a jovem protagonista passou para que ninguém os repita. Nós podemos notar que muitos deram o enfoque na questão do não fazer, eles conseguiram ter a consciência de quem não devemos praticar o bulliyng e isso é muito importante para a formação desses jovens”, ressaltou.

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Eclosão

Paralelamente à explosão de “13 Reasons Why”, outro tema similar tem ganhado visibilidade nas redes sociais: o jogo “Baleia Azul”, que passou a circular entre as crianças e jovens brasileiros. A partir da divulgação do jogo, houve alertas policiais em oito estados do país, pois as disputas envolvem 50 desafios com distintos níveis de dificuldade. Em cada desafio, o jovem deve cumprir provas cujo grau de dificuldade vai aumentando. Nas provas, há testes de mutilação, votos secretos e, por último, o suicídio.

Especialistas advertem aos pais sobre os conteúdos que os filhos acessam na internet. A orientação e o diálogo são fundamentais para que casos como esses sejam resolvidos da melhor forma. O apoio de psicólogos também é crucial nesse tipo de situação na qual especialistas estão prontos para orientar famílias e jovens.

Para a psicopedagoga Juliana Guimarães, após o lançamento da série e a chegada do desafio da Baleia Azul, surgiu a oportunidade de criar o projeto “Não ao bullying, Sim à vida” na sua escola, com o intuito de orientar os alunos. Durante o projeto, os alunos participaram de palestras de conscientização e dinâmicas que fizeram com que as crianças aprendessem de forma lúdica.

Foto de Capa: Netflix

Ilustração: Paula Bonet