A falta que você faz

A incerteza e a angústia de parentes e amigos que buscam desparecidos no DF e entorno

Alinne Castelo Branco & Evelin Mendes

O que fazer quando alguém some? Parece uma pergunta óbvia, mas não para aqueles que possuem parentes e amigos queridos desaparecidos. No ranking nacional de desaparecimentos, o Distrito Federal ocupa o quarto lugar. De janeiro a dezembro de 2016, houve 2.910 ocorrências informando sobre 3.157 pessoas desaparecidas no DF, segundo a Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social (SSP-DF).

A Cartilha de Enfrentamento ao Desaparecimento (São Paulo, 2016, p.7), conceitua desaparecimento como o “sumiço repentino de alguém, sem aviso prévio a familiares ou a terceiros”. Uma pessoa é considerada desaparecida quando não pode ser localizada nos lugares que costuma frequentar, nem encontrada de qualquer outra forma. Nos casos de desaparecimento involuntário – vítimas de crimes com restrição da liberdade, acidentes ou doenças mentais -, foram registradas 37 ocorrências no ano de 2016.

Não há um dia sequer que a técnica de enfermagem Jussara Ferreira, 40 anos, não pense na filha que sumiu no dia 16 de fevereiro deste ano, por volta das 14h na cidade de Valparaíso (GO). A estudante Thayná Ferreira Alves, de 21 anos, desapareceu após o padrasto deixá-la em um ponto de ônibus da cidade. Desde então, parentes e amigos continuam as buscas diárias pela jovem. “Já fui em bocas de fumo, prostíbulos, fazendas, lixão, em todos os matagais da região e até a cidade de João Pinheiro, em Minas Gerais”, contou Jussara.

Para a família, predomina a certeza de que a estudante não fugiu de casa. “A gente fica preocupado porque ela não é assim. Sempre que saía, avisava. Estamos na torcida e ela vai aparecer se Deus quiser”, disse Felipe Ferreira, 17 anos, irmão da jovem. Aflita sobre o andamento das investigações, e pela história contada do sumiço da filha, Jussara desabafa. “Minha cabeça dá um nó quando eu penso nos detalhes”. Por 90 dias, Thayná esteve desaparecida.

No último dia 26 de maio, o empresário Waldezar Correiro de Matos, de 65 anos, padrasto de Thayná, teve a prisão temporária decretada. Ele é o principal suspeito por assassinar e ocultar o cadáver da jovem. O corpo ainda não foi localizado. A polícia procura. O delegado do caso, Rodrigo Mendes, afirmou que há laudos que indicam sangue nas roupas e em uma faca do empresário. Há, ainda, contradições nos depoimentos do empresário, que nega envolvimento com o desaparecimento de Thayná.

Nos três primeiros deste ano, na região do entorno da capital – que reúne 48 cidades de Goiás e Minas Gerais – houve 253 ocorrências de desaparecimentos: 148 são adultos e 105 com menos de 18 anos. As cidades de Águas Lindas de Goiás, Luziânia e Valparaíso concentram o maior número de casos. No Distrito Federal, lideram os números Ceilândia, Samambaia e Planaltina. Mas os números mudam a cada momento.

A Polícia Civil do Distrito Federal estima que, diariamente, desapareçam pelo menos seis pessoas. A estatística é assustadora e dá a dimensão do drama sofrido por inúmeras famílias que aqui vivem. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública do DF (SSP-DF), a maioria dos casos de desaparecimento de crianças e adolescentes é por causa de conflitos familiares, violência doméstica, uso de drogas, perda por descuido e desorientação. A Secretaria de Segurança Pública e Administração Penitenciária do Estado de Goiás (SSPAP-GO) informou que é preciso considerar ainda outros crimes, como a sedução ou a exploração de jovens tanto homens como mulheres – situações que encobrem diversas formas de vulnerabilidade.

Essa foi uma situação vivida em fevereiro deste ano pela família de Bianca*, de 12 anos. A adolescente, que mora em Taguatinga Norte, era assídua nas redes sociais e por meio do Facebook conheceu um rapaz morador da Samambaia. Na madrugada de 2 de fevereiro, a adolescente fugiu pela janela de casa, levando uma bolsa com alguns pertences. Vizinhos da família contaram ter ouvido conversas e barulho de carro naquela madrugada. A menina foi encontrada horas depois, com ajuda do compartilhamento de fotos na mesma rede social, com muitos arranhões e machucados. Entretanto, Bianca não se sente preparada para relatar o que aconteceu naquele dia, desde o ocorrido a jovem mudou de humor, afastou-se das redes sociais e faz acompanhamento psicológico. O caso segue em investigação na II Delegacia da Criança e Adolescente, em Taguatinga Norte.

A cada ano, em média, desaparecem no Brasil 240 mil pessoas sem deixar rastros, sendo 40 mil crianças, segundo a International Centre for Missingand Exploited Children (ICMEC). A Organização atua na proteção de crianças contra a exploração trabalhista e abuso sexual.

Outro agravante é a ausência de um cadastro único no país contendo os dados necessários para a localização das pessoas. O Ministério da Justiça e Cidadania, afirma que “não temos estatísticas nacionais (oficiais) acerca da ocorrência”.  Porém em fevereiro de 2010, o órgão em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos (SDH), criou o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, a priori pretendia-se ampliar em âmbito nacional as buscas e localização de crianças, adolescentes e adultos desaparecidos. Entretanto, o portal encontra-se abandonado, contando com menos de 400 cadastros. A pasta defende que “cada Unidade Federativa, autonomamente, cadastra as ocorrências registradas sobre desaparecidos, de acordo com os sistemas existentes nas Secretarias de Estado de Segurança Pública, Polícias Civis, Militares ou congêneres”, por isso a desatualização.

O aplicativo criado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP) ainda está em fase de testes e só atende a três estados: Espírito Santo, Santa Catarina e Sergipe.

Até lá, parentes e amigos dos desaparecidos contam com os instrumentos existentes, a boa vontade de informantes e a sorte.

Memória que dói

Oito anos após terem enterrado seus filhos, as mães de Luziânia levam uma vida sombria e cheia de limitações. Ainda assim, há aquelas que conseguiram dar continuidade à rotina, trabalhando e dedicando tempo aos afazeres domésticos e aos outros filhos. Outras amargam problemas de saúde, como depressão.

O desaparecimento de sete jovens de Luziânia começou em dezembro de 2009. Diego Alves Rodrigues, 13 anos, Márcio Luiz de Souza Lopes, 19, George Rabelo dos Santos, 17, Fábio Augusto dos Santos, 14, Divino Luiz Lopes da Silva, 16, Paulo Victor Vieira de Azevedo Lima, 16 e Eric dos Santos, 15, sumiram.

Depois de o caso chegar à imprensa e com o apoio da Polícia Federal, as investigações apontaram para o pedreiro Ademar de Jesus Silva, que confessou o assassinato de seis dos sete jovens mortos. Condenado por atentado violento ao pudor, ele foi encontrado morto na delegacia, em Goiânia, em 2010, sob a suspeita de suicídio.

Foto de Capa: Alexandra Cameron