Futebol em terra de politicagem

Karine Santos

Janeiro de 2017 começa mais uma edição do campeonato brasiliense. “Brasiliense”, entre aspas, além dos times do Distrito Federal, há equipes de Minas,  como o Paracatu, e de Goiás, o Luziânia. E quem diria que em um lugar em que menos de 3% dos torcedores torcem para uma equipe local ainda tenha espaço para um torneio estadual. Engana-se quem pensa que essa história é nova. As primeiras bolas em solo brasiliense rolaram antes mesmo da inauguração da capital. Em meio à poeira, no ano de 1956, enquanto construíam Brasília, os operários deram os primeiros passos de um campeonato que é pouco reconhecido Brasil afora, mas que mantém viva a paixão pelo futebol de quem respira política.

Lá na década de 50, quando houve pela primeira vez, nove clubes fizeram parte. Quase todos não existem mais, assim como o primeiro campeão, o Grêmio Brasiliense. O único que sobrevive desde essa época é o Clube de Regatas Guará. Atualmente 12 times compõem a elite do estadual. Após uma primeira fase em que todos se enfrentam, oito se classificam para as quartas de final e os dois últimos caem para a segunda divisão. Para o campeão e segundo colocado,ainda rende vaga na Copa do Brasil e espaço garantido na série D do Campeonato Brasileiro.

Um campeonato de futebol é feito de várias peculiaridades, como a rivalidade entre os clubes. Há quem diga que – sem rivalidade – não existe futebol, o que talvez leve Brasília a não ser reconhecida como referência no futebol. Mas se lá em Minas, Atlético e Cruzeiro, e no Rio Grande do Sul, Internacional e Grêmio destacam-se nos clássicos regionais, aqui quem faz a festa do torcedor são o Gama e o Brasiliense com o verde-amarelo ou clássico-caçula…Esse é o clássico de futebol mais recente nos gramados do Brasil.

Talvez essa rivalidade se dê porque o Gama é o que tem mais títulos ou pelo Brasiliense, que mesmo 25 anos mais jovem que o time gamense, seja um dos clubes que mais se sobressaíram em esfera nacional. Chegou à final da Copa do Brasil, também conquistou a série B do Campeonato Brasileiro, além de ganhar o estadual nove vezes. Mas só mesmo o torcedor sabe o motivo.

Uma distinção peculiar do Candangão é ter o Paracatu, time mineiro e o Formosa e Luziânia, de Goiás, clubes de cidades do entorno que também participam do torneio brasiliense. Os três foram campeões da segunda divisão. Atual campeão estadual, o time de Luziânia, criado em 1926, conquistou em 2014, o primeiro título do estado. É bicampeão invicto, após vencer a final contra o Ceilândia, no ano passado.

O Ceilândia também é um dos clubes que chegaram às competições nacionais: jogou a série B do brasileiro em 1989. Dos times que protagonizam o campeonato deste ano, está o Sobradinho que, no passado, era Botafogo Sobradinho Esporte Clube, quando fez uma parceria com o time carioca em 1996. O Real, time do Núcleo Bandeirante, jogou a série C do campeonato nacional. O Santa Maria e o Paranoá, criados na década de 2000, há, ainda, o Atlético Taguatinga que é o mais novo clube profissional do Distrito Federal, fundado em 2015.

Do que é feito um campeonato de futebol? De jogadores, de torcida, de campo, de bola, de gente que acredita no esporte. Há quem diga que Brasília é uma cidade nova demais para ter espaço para futebol ou jamais vá existir. Na verdade, ele existe! Sempre existiu. Desde que a capital viu seus primeiros tijolos, teve bola rolando no chão. Se a pouca torcida, pouca estrutura e valorização fazem o futebol do DF não ser levado a sério. Esses 12 clubes e os operários que lá em 1956 criaram um campeonato estadual em uma cidade ainda inexistente fizeram e fazem o futebol brasiliense ser realidade.