Uma cidade debaixo d’água

Fundada em 1959, Vila Amaury foi engolida pelo Lago Paranoá

Leticia Viana e Virgínia Barbosa

Imagine uma cidade inteira de baixo d’água. É exatamente o que existe há cerca de 30 quilômetros de Sobradinho. Com 40 km² de extensão e profundidade de 48 metros, o Lago Paranoá esconde a história da Vila Amaury, o acampamento criado para abrigar os trabalhadores que vieram de vários locais do país com um único objetivo: construir Brasília. O bairro chegou a reunir cerca de quatro mil famílias, a partir da fundação em 1959, quando se chamava Vila Bananal e depois Vila Sacolândia – por causa dos barracos improvisados serem feitos com sacos vazios de cimento. Mas acabou conhecida como Vila Amaury.

Amaury de Almeida, funcionário da Novacap, liderava os movimentos pró-moradia e ganhou simpatia e respeito pelos novos brasilienses, tanto que o seu nome foi dado à Vila. As reivindicações tiveram respostas do governo e trouxeram benefícios, como a criação da segunda cidade, Sobradinho. Mais tarde, os moradores foram transferidos para a Vila Planalto e outras satélites em construção.

O acampamento era formado por trabalhadores que usavam o local como cidade dormitório – apenas para dormir e descansar. “Esse acampamento tem uma história que, em parte, é romântica. Todos os acampamentos eram de operários e, majoritariamente, feitos de homens solteiros. Mas havia de ter mulheres. Mulheres que eram trazidas para a diversão dos homens. Isso pode parecer muito machista, mas foi real”, afirmou o professor Frederico Flósculo, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB).

“Houve várias casas de diversão e muitas moças que foram atraídas pela possibilidade de ganhar dinheiro dessa maneira, então a Vila Amaury, em especial, teve uma fama de boemia muito forte. E fazia parte da rotina daqueles operários terem a música, os bares e a cachaça, sempre que voltavam de suas jornadas de trabalho”, completou o professor.

Nivalda Pereira, 66 anos, veio para Brasília em janeiro de 1960, aos 10 anos de idade. Depois de passar pelo Núcleo Bandeirante, chegou à Vila Amaury e conta como era a vida no acampamento. “Eu amei morar lá porque estava morando dentro de um parque de diversões”. Meu tio fez um sobrado de dois quartos. Minha mãe trabalhava no restaurante do seu César, que ficava em volta do parque. Eu brincava e ajudava algumas pessoas desse parque”, diz.

Antes mesmo de considerarem a Vila Amaury como um lar, os trabalhadores foram informados de que o Lago Paranoá atingiria o vilarejo. Seria a “morte” de uma cidade para dar vida ao

lago, segundo disseram os engenheiros. A previsão se concretizou e a história da cidade que um dia abrigou aqueles que ajudaram a erguer Brasília está submersa no fundo do Lago.

“Há uma lenda romântica da Vila Amaury no sentido de que alguns pioneiros teimaram em permanecer lá, mas verdadeiramente ninguém, em registro histórico, foi afogado ou foi ferido, durante a inundação da Vila Amaury”, afirmou Flósculo.

Depois que a barragem do Paranoá foi aberta, o lago começou a encher aos poucos, ao longo de dois anos, e a Vila foi sendo inundada lentamente. “O lago foi chegando perto das casas, aí foram tirando as famílias. Meus tios resolveram mudar para a Vila Dimas. Tinha também a Vila Rabelo, onde as famílias dos empregados que vinham de fora moravam lá. Os outros já tinham seus barracos”, recorda Nivalda.

Hoje em dia, a cidade submersa atrai a curiosidade de mergulhadores, para saber o que restou da Vila Amaury. “O que tem ali é muito resto das casas. Tem pisos, tubulações enormes de esgoto, estrutura de alvenaria, que devia ser algum vestiário na época, tem vaso sanitário intacto. Além dos restos das estruturas, você acha alguns utensílios usados pelos moradores como prato, filtro de barro, garrafas de alvejante, xícaras, vidro de perfume, sapatos”, relatou o fotógrafo e mergulhador, Beto Barata.

“Pelo que eu mergulhei, eu suponho que os moradores reaproveitaram as estruturas de madeiras e levaram para montar suas novas casas nas cidades em que foram transferidos” completou Barata.

Quando questionado sobre os problemas ambientais que a cidade submersa poderia ter causado ao Lago Paranoá, o Professor Frederico afirmou que, atualmente, seria um gravíssimo impacto ambiental, mas que ao longo dos 57 anos da cidade, praticamente não restou nada da Vila Amaury, o que não prejudicou tanto o Lago. “Como era um acampamento pioneiro, imagina só a higiene dessa turma? Você tinha que ter água para o pessoal banhar, latrinas para as necessidades. Todas essas latrinas foram deixadas para trás. O Lago, quando encheu, ocupou também as fossas, os excrementos foram eliminados com a renovação da água do lago. Muito material foi deixado e cumpriu o ciclo de degradação no interior do próprio lago”, ponderou Frederico.


Por um ano, em 2009, o repórter fotográfico Beto Barata, que atualmente está na Presidência da República, mergulhou nas águas do Lago Paranoá, e fez imagens inacreditáveis das profundezas. Ele conseguiu registrar vestígios da antiga Vila Amaury: vasos sanitários, um ônibus, garrafas, além de animais que vivem nas águas mais profundas do lago. O trabalho dele virou um livro “Brasília Submersa” e várias fotografias, que ilustram a obra, foram expostas no Museu Nacional da República.


Para aqueles que desejam conhecer um pouco mais da história da Vila Amaury, podem adquirir o livro Brasília Submersa, de Beto Barata. Na obra, o autor traz outras imagens de objetos da Vila, que estão submersos.

E ainda podem ter acesso a uma história fantasiosa da Vila Amaury, produzida pelo professor da UnB, Frederico Flósculo, com o título Thalija. A história em quadrinhos fala de uma adolescente que queria conhecer Brasília e ser arquiteta e em um dos momentos ela vai à Vila Amaury.