Um silencioso apagar das luzes

Assintomática, a doença do glaucoma afeta cerca de 65 milhões de pessoas no mundo

Alan Rios

Dona de casa, Maria Ivone Gomes se recupera de cirurgia tendo cuidado ao levantar da cama e começar seu dia, pois não consegue ver bem a ponta dos móveis ao seu redor nem o copo em cima da cabeceira e o porta-retratos com a foto do filho. Com seus 48 anos, seria normal enxergar embaçado, mas isso se corrigiria facilmente com a prescrição de óculos, o que a doença que não permite. O glaucoma, diagnóstico que Maria Ivone recebeu há seis anos, não tem correção ou cura. Dado preocupante que atinge cerca de 2,4 milhões pessoas por ano no Brasil, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Assim, a principal causa de cegueira irreversível no mundo segue cercada pelas obscuridades, como a falta de informação, que pode levar a progressões graduais da doença.

O glaucoma é uma doença que atinge o nervo óptico causando perda da visão periférica, geralmente associada ao aumento da pressão intraocular, mas sem apresentar sintomas. A doença possui diferentes tipos, os mais comuns são o glaucoma primário de ângulo aberto e o glaucoma de ângulo fechado, que podem ser diagnosticados em exames oftalmológicos completos. Apesar de não ter cura, os pacientes devem manter um tratamento de controle indicado pelo médico, com colírios ou opções cirúrgicas, como a trabeculectomia, cirurgia que diminui a pressão intraocular, dependendo do caso.

No imaginário popular não sentir nada significa estar bem e não precisar da recomendada visita periódica ao médico. Comportamento que, segundo a Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG), faz com cerca de 70% das pessoas com essa doença no país sequer saibam do diagnóstico que possuem. A falta de informação também é um dos motivos para o aumento relevante de casos, segundo especialistas.

Além do desconhecimento, outra dificuldade é o atendimento com optometrista – o profissional que prescreve receitas de correção de grau sem realizar um exame do globo ocular. A oftalmologista Hanna Flávia Gomes, especialista em glaucoma do Hospital de Olhos Santa Lúcia e do Hospital de Olhos do Gama, esclarece que é preciso procurar um oftalmologista para realizar um exame minucioso. “Hoje existem profissionais que não são médicos, eles não medem a pressão do paciente nem verificam o fundo de olho, então a pessoa passa por esse tipo de consulta e não é diagnosticada de nada. Há casos de pacientes que chegam aqui com glaucoma em fase avançada”, relatou.

Após o diagnóstico

Maria Ivone Gomes atualmente enfrenta o glaucoma com superações diárias, sem cansar nem relaxar. “É uma doença que exige paciência e muita informação, a gente precisa de um tratamento com alguém capacitado que se importe com o paciente”, avaliou ela, antes de buscar um de seus seis frascos de colírio, parte do pós-operatório, depois da cirurgia de trabeculectomia.

Já com a assistente de vendas Viviana Luzia Aparecida, 36 anos, o glaucoma apareceu no nascimento, necessitando uma operação com sete dias de vida. A falta de informação depois do procedimento fez com que o diagnóstico se desenvolvesse, causando perda silenciosa da visão. Ao consultar um especialista, era tarde para possibilidades de cura. Viviana convive hoje com 10% da visão no olho esquerdo e enxerga somente luzes no direito.

Ainda não se prevê cura para o glaucoma, mas aqueles que têm a doença e seguem acompanhamento médico vivem normalmente, fazendo com que, na maioria dos casos, a vida antes e depois de descobrir a doença só mude em decorrência dos exames semestrais específicos e as medicações. Esse é o tratamento mais utilizado, em que os pacientes usam colírios diariamente para diminuir a pressão intraocular.

Depoimento

A rotina de pingar os colírios pontualmente todo dia começou aos 18 anos, quando ouvi da médica especialista que eu tinha glaucoma. Na hora, desejei muito não ter conhecido essa doença, mas hoje consigo ver a sorte de descobrir isso sem ter perdido nenhum ponto da visão.

Chego em casa cansado da rotina, mas não posso me jogar na cama e dormir depois de um dia cheio, tenho que lembrar da gota da medicação das 22 horas. Periodicamente, faço exames, que não provocam dor física, mas perturba psicologicamente ficar uma manhã inteira no hospital, ouvindo histórias de pacientes com glaucoma que perderam a visão.

Mas tenho tido boas notícias ao receber os resultados. Já as ruins aparecem como fantasmas, quando penso nos três filhos que quero ter e podem herdar grandes chances de desenvolverem a doença. Isso me leva ao desânimo.

Foto de Capa: Thiago Soares