O bê-a-bá do mundo virtual

Crianças dependentes da tecnologia deixam pais preocupados e especialistas em alerta

Anthony Machado

“Papai, você pode voltar com o carro só pra eu pegar um Pokémon ali atrás?”, disse Eduardo de Castro, 6 anos, com a certeza de quem pretendia capturar o bichinho virtual. O pedido foi feito quando a família retornava de um passeio ao shopping.  Segundo pesquisa da consultoria empresarial norte-americana, A.T. Kearney, o Brasil é o país onde mais pessoas passam tempo na internet: em mil entrevistados, 51% afirmaram que permanecem o dia todo conectadas, dado que não se restringe apenas aos adultos.

O uso exagerado de tecnologias entre crianças cresce cada vez mais, preocupando pais, que estão alarmados pelo tempo em que os pequenos passam conectados à internet, e especialistas, que alertam sobre os riscos em não variar as atividades das crianças para otimizar o tempo de forma criativa.

Em outra pesquisa, feita pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em 2016, os hábitos de 21 crianças, de 8 a 12 anos, foram avaliados levando à conclusão de que 14 delas não praticavam nenhum tipo de atividade física. Ana Lúcia Meneghel, autora do trabalho, afirmou que quando questionados sobre o que gostam de fazer nos finais de semana, a maioria dos pequenos respondeu: brincar com jogos eletrônicos.

A dona de casa Glaucimar de Castro, 42 anos, moradora de Goiânia, sente na pele os efeitos do contato constante das crianças com o mundo virtual. Ela conta que seus filhos Guilherme, 10, e Eduardo, 6, muitas vezes preferem ficar na internet a fazer outras atividades. “Após fazerem os deveres de casa, eles querem passar o resto do dia usando o videogame e a internet. Às vezes, preciso dar bronca para que eles desçam e brinquem com os amiguinhos do prédio. Tenho que ficar controlando isso, mas é muito difícil”, lamentou.

Como lidar?

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda que crianças com idade inferior a dois anos não tenham contato com celulares, computadores e tablets. Aquelas acima de 5 anos, não podem ficar mais de duas horas por dia fazendo uso desses aparelhos.

Profissionais da área da saúde acreditam que a melhor forma de lidar com a situação é colocar à disposição das crianças outros tipos de atividades, como brincadeiras ao ar livre. Para a pedagoga Katya do Vale, os pais precisam impor limites. “O uso dessas tecnologias deve ser fiscalizado e ponderado. É importante que os responsáveis estabeleçam um horário e determinem uma rotina, além de saber o tipo de conteúdo que o filho está acessando”, explicou.

As várias horas utilizando aparelhos eletrônicos podem trazer tanto problemas físicos, como complicações no aprendizado. Katya, alerta sobre os riscos. “Algumas crianças podem apresentar dificuldade em se concentrar principalmente na leitura e na interpretação. Além disso, o uso excessivo de eletrônicos diminui a capacidade de memorização e bloqueia alguns sentimentos impulsivos, como a raiva”, pontuou.

Para a psicóloga Alessandra Araújo, que tem especialização em orientação psicanalítica infantil, as crianças precisam de interação social e a moderação é o melhor jeito para se lidar com os possíveis problemas.

“Crianças que passam muito tempo à frente de aparelhos eletrônicos podem se privar de um desenvolvimento biopsicossocial. A infância consiste na elaboração da personalidade da criança, o juízo de valor ainda está em formação. As mídias sociais atuais apenas reproduzem jogos e filmes que nem sempre conseguem trazer a bagagem mais apropriada que elas precisam”, afirmou.

Eduardo, garoto que foi citado no início desta reportagem, não conseguiu o capturar o Pokémon que havia aparecido no caminho da família de volta para a casa. A mãe contou que ele ficou enfurecido com o episódio, mas a piscina do prédio em que mora curou as dores infantis pelo bichinho virtual que foi perdido.

Foto de Capa: Arquivo Pessoal