Histórias paralelas

A realidade dos haitianos que moram em Brasília e sonham na capital da esperança

Hellen Resende

De carona no avião da Força Aérea Brasileira (FAB), Auguste Fenel, 36 anos, desembarcou em Brasília em fevereiro de 2011. Diferentemente da maioria dos imigrantes do Haiti, não entrou no país pela concessão humanitária. Ele trabalhou na Missão de Paz da ONU em seu país e veio ao Brasil a convite de um coronel da FAB, que se tornou seu amigo. Contrariando a rota imigratória, na qual a maioria chegava pelo Norte e se dirigia a São Paulo, seguiu direito para a capital. Se no Brasil, a falta de acesso à educação superior é uma realidade – em 2014, apenas 58,5% dos estudantes de 18 a 24 anos frequentaram o ensino superior -, o imigrante está na contramão dos números. Estudante do curso de jornalismo da Universidade Católica de Brasília (UCB), Fenel dá aulas particulares de inglês e francês e está empenhado em um sonho: abrir uma escola de idiomas.

“As pessoas confundem muito, acham que todos os haitianos no Brasil são refugiados. Elas desconhecem as histórias que contrariam o que a TV fala do povo do Haiti”.

Com a promessa de que conseguiria estudar e trabalhar, Wood Shearer, 24 anos, saiu do Haiti em 2013. Após passar pela Venezuela, tomou um ônibus para o Amazonas. Na chegada ao Brasil, cobraram quase R$ 500,00 para tirar a carteira de identidade – atualmente há a isenção das taxas de registro e de emissão da identidade para refugiados, segundo a Polícia Federal. A identidade custou caro, assim como ter acreditado em um país de vida fácil. Shearer ainda não consegue estudar nem trabalhar na área que gostaria, Letras. Ele é empregado de um supermercado e tem entre as tarefas atender aos clientes estrangeiros. Poliglota, Shearer fala crioulo, francês, português, inglês e espanhol, mas não compreende como o estereótipo de um Brasil que só tem alegria, pode iludir tanta gente.

“A televisão só mostra lugares lindos, as belezas do Rio de Janeiro e o progresso de São Paulo. Ninguém sabe da miséria, do salário mínimo que é tão pouco”, desabafou Shearer, que alega que o que o mantém aqui é não querer voltar para o Haiti sem perspectivas de melhorias. Lá, ele trabalhava no negócio da família.

Fenel e Shearer têm em comum além da nacionalidade, o fato de ambos serem da classe média haitiana e a busca por uma vida melhor. Eles não deixaram o Haiti fugindo da fome, mas da falta de oportunidade. As suas histórias se encontram no Distrito Federal, pertinho de Brasília, conhecida pelo clichê de “capital da esperança” e pelo maior Índice do Desenvolvimento Humano por município (IDHM) do Brasil. Fenel mora em Taguatinga, a 24 quilômetros do centro da capital, enquanto Shearer vive a 30 quilômetros de Brasília, em Ceilândia. Eles estão separados por seis quilômetros e pela forma como enxergam o lugar onde vivem e suas realidades.

Shearer tem medo de andar na rua por causa da violência urbana, pois o DF está em 13º no número nacional de homicídios, superando Rio e São Paulo. Teme ficar doente e não conseguir atendimento no hospital, assim ele se esconde todos os dias, depois de sair do trabalho.

No barraco onde vive, dedica o tempo exclusivamente ao emprego no supermercado. Nas poucas horas vagas, visita alguns amigos haitianos e já namorou várias brasileiras, mas quer se casar mesmo é com uma haitiana.

Ao contrário do conterrâneo, Fenel não demonstra medo em sua fala. Ele se mostra corajoso e sonhador. O universitário conhece bem o DF, inclusive as áreas mais carentes, e quer trabalhar em projetos sociais. Segundo ele, sua primeira impressão ao desembarcar em Brasília é bem diferente de outras cidades: “A organização das cidades é bem diferente.

Brasília é muito fechada. Em Taguatinga, as pessoas são mais gentis e calorosas”. Intimamente, o haitiano confessou que o que o amedronta é o preconceito velado, que ele sente no lugar onde estuda.

Shearer, quando perguntado sobre o lugar preferido no DF, ele se diz: “Conhecedor da realidade de onde vive”. Já Fenel, se refugia em um mundo à parte dedicado a sobreviver. “Para te dizer meu ponto turístico favorito eu tinha que andar mais, só saio se precisar resolver alguma coisa”, afirmou ele, sem rodeios. Para o futuro, os dois desejam o mesmo – voltar ao Haiti. Eles sonham aqui, mas querem concretizar os planos no seu país e talvez lá suas histórias se encontrem.

Esperança

No Varjão foi criada a organização não governamental Instituto de Migrações e Direitos Humanos (IMDH). No IMDH, foram atendidos, em 2015, 2.069 imigrantes, dos quais 25% são haitianos, que, em sua maioria buscam um local para viver em Samambaia.

Com o objetivo de promover a integração dos imigrantes no DF, o instituto oferece ensino da língua portuguesa para os estrangeiros, a regularização de documentos e apoio na busca por emprego. “A acolhida [aos imigrantes] compreende ajudá-los com atitude fraterna, compreendê-los e dar-lhes esperança e a possibilidade de recuperar a auto-estima e a confiança”, afirmou Rosita Milesi, freira da Congregação Scalabriniana.

Questões econômicas e sociais

Doutora em Comunicação e Cultura, a professora de Comunicação da UCB Sofia Zanforlin é autora do livro “Etnopaisajes en las Metrópolis Brasileñas – migración, comunicación y sentimiento de pertenencia”.

A pesquisadora analisa o papel da mídia na cobertura dos fluxos migratórios no Brasil. Para ela, há uma distinção de tratamentos quanto às questões econômicas e sociais dos imigrantes. O que pode explicar as sensações distintas dos dois haitianos, que vivem modos de vida tão diferentes.

“Na verdade, há que se dividir os fluxos que vêm por condições econômicas e os refugiados que recebem um tratamento mais benevolente. Portanto, se complexificou também a maneira como os imigrantes em geral são retratados pela mídia”, afirmou a professora.