Games, um hobby que virou profissão

Dota_2_jYMHZ4jA atividade é tão séria que há competição internacional e disputas que geram milhões

Germana Gabriella Brito e Layla Andrade

Quem nunca sonhou em ser um jogador profissional de videogame? O que parecia ser um desejo distante tornou-se realidade e tudo começou em 1970. A partida para o esporte eletrônico – o eSport – gerou as primeiras competições. Sem premiações, jogar era apenas pura diversão. De lá para cá, foram várias as mudanças: o mercado do esporte eletrônico movimenta milhões em receita. Só em 2016, foram contabilizados US$ 493 milhões com crescimento anual de 40%, segundo a Newzoo, líder global em pesquisa da indústria dos games.

O eSport se tornou uma promissora área profissional para os gamers, que antes apenas se divertiam no mundo virtual, e agora participam de campeonatos e ligas que são transmitidas ao vivo em todo o mundo. Jogos como Counter-Strike: Global Offensive, DotA 2, League of Legends e Starcraft são games antigos, mas que tem seu crescimento em ascensão nos últimos anos.

A previsão é que a audiência mundial de pessoas que assistem tanto as transmissões onlines como as que comparecem aos campeonatos chegará a 385 milhões de pessoas até o fim deste ano, de acordo com a Newzoo. A América do Norte é o continente que registra o maior faturamento no esporte eletrônico: US$ 257 milhões anuais. Lá, estão as maiores ligas e os principais torneios do mundo, o que atrai patrocínios, investimentos de desenvolvedores de jogos e de organizações que promovem os eventos.

O pernambucano Epitácio Pessoa de Melo Filho, o ‘Taco’, de 22 anos, é bicampeão mundial do jogo Counter Strike: Global Offensive pela SK Gaming. “Comecei jogando pela internet e fui me destacando, depois de um tempo me chamaram para jogar profissionalmente”, contou Taco, que mora em uma Gaming House (casa onde os jogadores de esportes eletrônicos moram e treinam seus respectivos jogos) na Califórnia, Estados Unidos, com outros 5 integrantes da equipe.

Onde tudo começou…

Há quase 45 anos, foi realizada a primeira competição oficial. Em 19 de outubro de 1972, na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, alunos disputaram o jogo Space War Logo, depois a competição foi nomeada de Intergalatic Spacewar Olympics (Olimpíadas Intergaláticas de SpaceWar), o marco do novo esporte que surgia.

Depois, em 1980, a Atari, uma das principais responsáveis pela popularização de videogames no mundo, organizou o Space Invaders Championship, que foi a primeira competição de esporte eletrônico em grande quantidade e contou com a presença de 10 mil participantes. Em 2000, a modalidade passou por um grande crescimento – eram dez torneios por ano e, em 2010, foram 160 disputas – as principais competições eram World Cyber Games, Intel Extreme Masters e Major League Gaming.  

A partir de 2010, com a popularização do streaming (transmissão online de áudio e vídeo através de redes), o eSport cresceu em larga escala, tendo como fonte principal a Twitch.tv, um site especializado em transmissões de jogos eletrônicos que recebe cerca de 8 milhões de visualizações mensais. Com o aumento de espectadores em larga escala o nível de investimento também aumentou e as competições passaram a ter premiações cada vez mais altas. O prêmio mais alto registrado foi no campeonato mundial de Dota 2, em 2016, sendo o primeiro a ultrapassar US$ 20 milhões.

O eSport conquistou seu espaço no Brasil sendo reconhecido como uma modalidade esportiva com peso social e financeiro, e alcança crescimento significativo, como terceiro maior público da modalidade no mundo. Há, inclusive, a Associação Brasileira de Clubes de eSport (ABCDE), organizada por times brasileiros com a intenção de impulsionar e profissionalizar o esporte eletrônico, negociando patrocínios e regulamentando os campeonatos e torneios.

 

Brasileiro, bicampeão mundial, brilha no exterior

Bicampeão mundial do jogo Counter Strike: Global Offensive pela SK Gaming, Epitácio Pessoa de Melo Filho, o Taco, de 22 anos, trocou o Brasil pelos Estados Unidos para aperfeiçoar ainda mais. Ao Artefato, Taco contou que se sustenta com um salário fixo, além de extras que obtém, exclusivamente da dedicação aos jogos. Mas traçou um cenário sombrio para o futuro brasileiro: as denúncias de corrupção e irregularidades na política influenciam até o mundo das disputas nos eletrônicos. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por ele.

ARTEFATO – Como foi sua trajetória até conseguir o bicampeonato mundial?

Taco – Eu Jogava CS e conciliava isso com universidade e treinos, mesmo assim, consegui algum destaque e comecei a jogar campeonatos nacionais online e presenciais. Acabei indo bem nesses campeonatos até ser convidado para equipes melhores e ter melhores resultados. Em 2015, venci um torneio no Brasil que deu uma vaga para o meu time jogar uma temporada nos Estados Unidos. Daí, não parei mais.

ARTEFATO – Como é a sua rotina de preparação para cada campeonato?

Taco – Costumamos treinar de 6 a 8 horas por dia entre treinos individuais, tático e prático. Dependendo da importância do campeonato, viajamos a Alemanha onde fazemos um intensivo de uma a duas semanas até o campeonato: com até 12 horas diárias de treinos.

ARTEFATO – Qual foi a reação da sua família quando você decidiu seguir essa carreira?

Taco – O que me ajudou é que vinha indo bem na universidade e conseguia conciliar minha vida com o jogo, com o passar do tempo, complicou, minha mãe e irmãos verem que eu ficava bastante tempo no computador em troca de nada, na cabeça deles. Ninguém imaginava que iria chegar nessa proporção…Hoje eles me apoiam 100% e assistem a todos os jogos.

ARTEFATO – Você tem um salário fixo? Recebe por campeonato, parte da premiação ou todo dinheiro vai para a organização?

Taco – Temos um salário fixo da organização. Nossos extras vêm com a premiação dos campeonatos – a organização fica com uma pequena porcentagem para o marketing, transmissões ao vivo na twitch e patrocínios individuais.

ARTEFATO – Como você observa o cenário brasileiro em relação ao eSports?

Taco – Os melhores times do Brasil de CS: GO estão fora competindo, patrocinados por organizações internacionais, por causa do amadorismo das organizações do país e da falta de investimentos e visão das grandes marcas. Um dos nossos objetivos é crescer o cenário do nosso país e quem sabe um dia poder voltar para competir lá com boas condições. A crise política, corrupção e o coronelismo são fatores que prejudicam e atrasam nosso país e acaba refletindo nos esportes eletrônicos também.

ARTEFATO – Como você imagina no futuro o cenário brasileiro de CS:GO?

Taco – Ainda atrasado em relação aos outros países, porém, com bem melhores condições que as atuais. Talvez, claro, em bem menor proporção, igual ao futebol.

Idealizador do Midas Club, fala do futuro do Dota2BR

Conversamos com Filipe Astini, de 26 anos, que foi o primeiro representante do Garena na América Latina – plataforma utilizada para jogar Dota 1, uma Startup avaliada em US$ 8,8 bilhões. Foi também o idealizador do projeto Midas Club. Hoje mora em Frankfurt, Alemanha. Ele conversou com o Artefato sobre o Midas Club e o crescimento do Dota. Abaixo, os principais trechos da entrevista.

ARTEFATO – O que é o Midas Club?

Filipe – Midas Club é um projeto que visa fomentar o cenário nacional de dota 2 no Brasil. Ele envolve todo o 360 graus que uma comunidade precisa para crescer, incluindo desde aulas para iniciantes, campeonatos para jogadores experientes, canal de transmissões até um time profissional. Decidi criar o projeto Midas Club porque o modelo de negócios da Valve deixa muito aberto para o próprio desenvolvimento das comunidades e eu sentia que faltava alguém puxando o dota 2 no Brasil.

ARTEFATO – Que retorno você obteve desde o começo do Midas até agora?

Filipe – O feedback em geral é muito positivo, o Midas só existe hoje porque a comunidade abraçou o projeto no início. Mas tivemos muitos feedbacks de melhorias, acredito que o principal culminou na criação de nossa plataforma própria para aulas e ligas, que deve entrar no ar no início do próximo mês. Evito falar em expansão no momento. Eu evito falar disso porque temos ainda muito trabalho para fazer no dota 2 antes de pensarmos em outros mercados. Porém é realista imaginar que no futuro iremos migrar para outros jogos, um exemplo disso é a comunidade do Paladins que me contacta constantemente solicitando irmos para lá.

ARTEFATO – O que falta na comunidade do Dota2BR para que ela cresça ainda mais?

Filipe – Tempo, simplesmente tempo. Poderia citar que falta amadurecimento e profissionalismo, mas isso seria focar no problema. A solução é tempo. Já temos tudo o que o cenário precisa para crescer, temos jogadores competentes, um público fiel, narradores competentes, staff competente e investidores interessados. É só dar um tempo que os resultados irão aparecer [já estão aparecendo]. Nós temos muitos “ex-jogadores” de dota 2 por aí que já se interessaram a voltar para o jogo. Os entusiastas da comunidade de eSports em geral tendem a acompanhar os outros eSports nos quais os Brasileiros têm um bom desempenho, então acredito que teremos um grande aumento de público. De agora em diante recordes e mais recordes de público serão batidos. Quanto a outros times Brasileiros, acredito que a própria iniciativa do Midas (nossa liga) deve ajudar a surgir, devemos ter mais campeonatos em geral e com isso mais interesse em formar times. As organizações de outros jogos devem querer entrar no DOTA, mas tem de ter muita cautela, porque já tentaram fazer isso às pressas na última XLG e acabaram todas falhando e deixando uma má impressão.

 ‘Feliz e orgulhoso’, diz campeão

 A SG gaming DOTA 2 fez história ao conseguir vaga inédita: é o primeiro time de DOTA 2 do Brasil a conseguir classificação para The Kiev Major 2017. O destaque do time é Danylo Nascimento, conhecido como “GRD”, que se dedica até oito horas por dia a treinos para obter os resultados. Ele disse que não sabe se está mais “feliz ou orgulhoso” com o título, o primeiro do Brasil na categoria. A seguir, trechos da entrevista de GRD ao Artefato.

ARTEFATO – Foi difícil chegar ao Major em Kiev?

GRD – No início foi muito difícil e cansativo, eram poucos campeonatos para a gente participar por aqui, então não foi possível a gente crescer tão rápido. A oportunidade de jogar com times Tier 1 realmente foi essencial em nosso aprimoramento. Não posso deixar de falar também do investimento da nossa organização em gaming house e em tudo que precisamos para melhorar nossa performance.

ARTEFATO – Como se prepara os campeonatos?

GRD – Depende da fase que estamos. Mas, em geral, é acordar muito cedo: 3 ou 4 horas da manhã, dependendo do horário dos jogos e aquecer bem. A vantagem da gaming house é que estamos sempre juntos e podemos discutir. Como time treinamos de 6 a 8 horas por dia – cinco vezes por semana. Fora os treinos, analisamos os replays em grupo para identificar nossas falhas e oportunidades de melhora.

ARTEFATO – Com a classificação, o que espera da comunidade de DotaBR?

GRD – A partir do momento que temos um time do cenário brasileiro disputando um campeonato mundial, outras organizações e investidores podem passar a olhar para nós como um mercado com força e potencial, além de uma comunidade grande que nos apoia sempre a crescer.

ARTEFATO – Depois de anos mordiscando a classificação, como é para garantir essa vaga e ser parte do primeiro time brasileiro para uma Major do Dota 2?

GRD – Pela primeira vez, a Valve deu uma oportunidade para uma qualificação exclusiva na América do Sul, e não podíamos deixar passar essa chance. Não sei dizer se eu tenho mais alegria ou orgulho de representar o Brasil lá fora e nossa equipe ser uma das primeiras a começar a escrever a história do Dota 2 brasileiro.