E aí, vai sossegar?

Namoro e casamento são os fantasmas do século, expondo a nova geração a dilemas

Leticia Ziemann

A regra que parece guiar a vida dos solteiros é de que o tempo é curto demais para não ser aproveitado. O que vale para jovens, independentemente, da idade, do sexo e da orientação sexual. É a sensação que vivem os universitários Wesley Chiaramonte, de 21 anos, e Murilo Aguiar, da mesma idade, e Ericka Sousa, de 20. Todos eles falam da liberdade, da busca pelo prazer e dos receios da decepção com o outro.

“Muitas vezes, quando estava com alguém, achei que o sentimento era recíproco, mas não era”, disse Ericka Sousa, estudante de nutrição. “Não namoro porque nunca encontrei a pessoa certa e a vida de solteiro é boa demais”, completou Chiaramonte, que faz curso de agronomia. “Opto por ser solteiro principalmente pela liberdade”, acrescentou Aguiar, que está no curso de direito.

As diferenças entre homens e mulheres estão nos mínimos detalhes, segundo obra recente de John Gray, em “Homens são de marte, mulheres são de Vênus”. Para o escritor, homens são de Marte e um dia encontram as belas venusianas e se apaixonam. Cientes de que são diferentes, as venusianas e os marcianos vivem em paz até que decidem vir à Terra e acabam sofrendo uma perda de memória seletiva: não se lembram de que não pertencem ao mesmo planeta e nem agem e pensam da mesma forma. O conflito então começa.

No momento em que uns parecem viver dando virote com Wesley Safadão, que confessa em uma das suas canções que quer aproveitar sem compromisso, outros preferem a tranqüilidade de um relacionamento sério, como cantam Jorge e Mateus, em “Eu sosseguei”. É o caso do estudante de engenharia civil William Junior, 20 anos, e do maquiador Mateus Caldeira, de 25.

“Eu não sinto falta de balada, de ficar com outras pessoas, ter alguém ao meu lado e me divertir com ele é muito melhor”, comentou William Junior. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no censo realizado em 2014, a união entre casais homoafetivos aumentou em 31,3% nos números dos registros civis. Entre os heterossexuais, aumentou…caiu…

Aproximadamente 400 quilômetros de distância entre as cidades de Formosa e Goiânia separam o casal de universitários Naize Motta, de 20 anos, e Samuel Desconzi, da mesma idade. Eles namoram há cinco anos, período que enfrentaram muito mais do que apenas o desafio de manter um relacionamento, pois tiveram de superar a distância e as inseguranças que vêm no pacote.

“A distância dificulta bastante. Ao mesmo tempo em que abre mais espaço para que cada um mantenha sua liberdade, isso também pode nos afastar muito. Surge um certo medo de viver uma vida longe dele”, desabafou Naize, que faz biotecnologia. “Manter um relacionamento sério para mim é tranquilo. Penso que é melhor levar a vida dividindo e construindo ela com a ajuda de quem tem os mesmos objetivos.”

Há um ano namorando sério, o estudante Lucas Santos, de 23 anos, reúne mil “conselhos” sobre os aspectos negativos da opção que fez. “[Os meus amigos] me dizem que ir para festa acompanhado não tem graça, com o tanto de mulher que você pode ‘pegar’ para que ficar só com uma? ”, contou ele.

Em “Amor líquido”, Zygmund Bauman fala do mosquito do desapego que parece ter picado essa geração: “Vivemos tempos líquidos, nada é feito para durar. Os relacionamentos escorrem das nossas mãos por entre os dedos feito água”.

Namorar ou ficar?

Natural de Três de Maio, no interior do Rio Grande do Sul (RS), professora Lusiane Tolomini, de 40 anos, casou-se aos 27, e diverte-se ao contar que sua geração desconhecia a prática do famoso “ficar” e que tem a sensação que os jovens parecem fugir de compromissos. “Na minha época não tinha isso”, exclamou ela. “O que me impressiona é que ninguém busca mais criar vínculos. Tudo gira em torno do prazer. As pessoas estão se tornando descartáveis: uma noite já basta.”

No século XXI, o conceito de namoro como relacionamento sério tem sido ignorado por muitos homens e mulheres. Para o psicoterapeuta Flávio Gikovate, o individualismo, resultante do avanço da tecnologia dentro das relações humanas e afetivas, marcou o fim do amor romântico e da eterna procura por sua metade da laranja.

“Essa mudança não é negativa, não significa que estamos fadados a viver sozinhos. Ao nos conscientizarmos de que somos inteiros e não metades, ampliamos muito a liberdade individual”, afirmou Gikovate.

Arly Cravo, coach relacional, destaca que o ser humano se preocupa demais em atingir os parâmetros sociais em busca da perfeição, ou seja, quer agradar a todos e não causar decepções ou frustrações. “Fugimos do amor por medo de não ter a aprovação dos outros”, observou ele. “Queremos ser amados, mas com recursos para sermos desejados. A geração vive entre o amor e o desejo.”