Rejeitados, animais superam limitações e despertam carinho e amor

Esquecidos nos abrigos, bichos vencem o preconceito e ganham um novo lar

Germana Gabriella Brito e Layla Andrade

Rejeitados na adoção, por terem problemas físicos e de saúde, muitos animais são abandonados nas portas de abrigo, na rua ou encaminhados para a eutanásia. Aí entram em ação os protetores de animais, organizações não governamentais (ONGs) e abrigos, como o Flora e Fauna, ProAnima e a Sociedade Humanitária Brasileira – SHB, que resgatam esses bichos. Nos lares temporários, passam por consultas, são vacinados, vermifugados, castrados e tratados quando doentes e, só depois, seguem para adoção. O que parecia impossível acontece em muitos casos: pessoas se apaixonam pelos animais, antes, indesejados e até destinados à morte.

Fundadora do Abrigo Flora e Fauna, que funciona há 12 anos e tem um total de 500 animais, entre gatos e cachorros, dos quais 100 são idosos, deficientes ou doentes que são resgatados das ruas ou abandonados no abrigo, Orcilene Arruda reúne incontáveis histórias de amor.  “Qualquer cuidado é retribuído pelos bichinhos em forma de amor”, derrete-se a ativista.

Voluntária do Abrigo Flora e Fauna, Ana Correa disse que há vários casos de animais idosos e que precisam de medicação diária. “Temos o ‘abriguinho’: um lar temporário onde ficam mais ou menos 20 animais com necessidades especiais de cuidados”, afirmou. A voluntária se refere aos animais como se fossem pessoas próximas. “Temos o Pedro que não tem as patas traseiras e é cadeirante, mas muito esperto e ativo. O Aquiles que teve cinomose e ficou com uma sequela na perna, apesar disso ele corre, brinca e tem muita energia”, descreveu ela, lembrando que o cachorro chegou a ser adotado, mas foi devolvido por não ser um ‘cão normal’.

Vanessa Savatin, que também é voluntária no local, levou quatro cachorros especiais, que moravam no abrigo, para casa. “Uma é idosa e cega, outro só tem um olho e enxerga pouco, o terceiro é totalmente cego e tenho ainda uma cadelinha que foi atropelada e ficou com o quadril atrofiado como sequela. Mas todos vivem bem, são felizes e os cães que são cegos já estão bem adaptados na minha casa”, disse ela.

A história do gato Athos é a prova de que as restrições não atrapalham o bem-estar do animal. Há 10 meses, o felino foi resgatado pela protetora de animais Alda Arrais, 51 anos, com uma grave lesão na coluna, que acabou deixando-o paraplégico. Mesmo com a limitação, o animal não encontra nenhuma dificuldade para se locomover livremente pela casa da servidora pública.

A ativista acredita que o amor com que ela trata o bichano é essencial para que ele viva bem, porém, lembra que Athos precisa de cuidados, como troca de fraldas diárias, fisioterapia e acupuntura duas vezes por semana. Alda ainda está à procura de um adotante para ele. “É necessário que a pessoa tenha tempo, paciência e amor para cuidar de um animal assim”, lembra.

A dona de casa Nara Sousa, 28 anos, resgatou uma cachorra que se encontrava em condições desumanas em Samambaia Sul. “Quando encontrei a Mel ela estava passando fome, com uma pata deslocada e grávida. A levei ao veterinário e descobrimos que ela tinha a doença do carrapato, mas eu a amei desde o momento em que a resgatei”, frisa.

Hellen Andrade, 35 anos, e a cadela Docinha, também têm uma bela história de amor. A biomédica resgatou o animal que estava abandonado em um matagal e com problemas de saúde. “Ela era apenas um bebê frágil, que mal se mantinha em pé e vomitava muito. Quando a levei ao veterinário foi confirmado um quadro de parvovirose”, lembra. “A Docinha lutou muito para sobreviver. Não sei como seria a minha vida sem ela. Hoje tenho três filhas caninas, duas delas resgatadas, uma filha humana e mais um bebê a caminho, são todos a alegria da minha casa”, completa.

O veterinário Vitor Benigno atende animais deficientes e doentes que são resgatados por ativistas. Já passaram por seus cuidados, animais com FeLV (Vírus da Leucemia Felina), uma doença contagiosa que não tem cura e que dificulta a adoção de animais que possuem o vírus. Porém, o profissional, que presta serviços na Casa do Gato, na Asa Norte, diz que, se tratados corretamente, os animais levam uma vida normal. “Com os devidos cuidados, eles podem ter uma expectativa de vida maior, e viver bem como qualquer gato”, assegura.

Monalisa, uma gatinha, também passou por momentos difíceis: foi abandonada aos quatro meses e bastante mutilada – as patas traseiras e seu rabo foram arrancados e estava abaixo do peso, desidratada e com ferimentos em carne viva. A estudante de medicina veterinária Isabela Simas, de 22 anos, achou a bichana dentro de um bueiro na rua. “Ela foi tratada em uma clínica maravilhosa, especializada em felinos, e que a recebeu com todo carinho e cuidados necessários”, afirmou a universitária.

Agora com 1 ano e 1 mês, Monalisa vive em seu novo lar com Isabela, que conta, com alegria, a experiência de ter dado esperança a um animal, que antes “ninguém daria nada”. “Tenho a sorte grande de tê-la. Todo mundo merece saber a sorte e o privilégio que é receber um animal que precisa de ajuda”, concluiu Isabela Simas, demonstrando que o amor e a dedicação superam diferenças e preconceitos.

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Ilustração: Enoque Aguiar

Foto de Capa: Layla Andrade