HPV, um mal silencioso

Como identificar, prevenir e tratar a doença que atinge homens e mulheres

Letícia Ziemann

Não importa se você é homem ou mulher e orientação sexual, o HPV não faz distinção. A doença conhecida pela sigla que vem do inglês para Human Papiloma Virus, é sexualmente transmissível e manifesta-se na pele e nas mucosas do corpo humano. É responsável pelo surgimento de diversos tipos de câncer, ataca o sistema imunológico e não tem cura. Segundo estudo publicado na revista científica Lancet, cerca de 50% dos homens têm o vírus do papiloma humano e muitos não sabem. Especialistas estimam que pelo menos 25% das mulheres já estão infectadas no Brasil, nos países desenvolvidos, o número gira em torno de 30% a 40%.

O HPV é transmitido principalmente pelo ato sexual com ou sem penetração, pois por meio do sexo oral também há contaminação. O que poucos sabem é que o preservativo – a camisinha – não protege de forma plena, pois varia de acordo com o tamanho e muitas vezes não cobre toda a área sexual. É importante estar alerta a alguns dos sinais da presença do HPV no organismo: verrugas não dolorosas, isoladas ou agrupadas, que aparecem nos órgãos genitais e que causam irritação ou coceira. Elas podem aparecer no ânus, na vagina, no pênis, na vulva (genitália feminina), na garganta, na boca ou no colo do útero.  A verruga não é permanente, mas mesmo que ela desapareça, o vírus não é eliminado do corpo.

No caso das mulheres, a identificação do vírus é feita por intermédio de exames como o do Papanicolau, o PCR, que é mais apurado e indicado para situações mais especificas e, principalmente, por exame clínico. Na maioria dos casos, o HPV não se manifesta. Ele está presente, mas os sintomas não aparecem. Muitas pessoas o possuem e sequer têm conhecimento disso, o que torna mais perigoso o contágio. Uma vez que não há manifestação, o indivíduo imagina que não precisa prevenir-se. O que não aconteceu com Juliana.

A estudante de Direito contaminou-se com o HPV durante uma “ficada” sem compromisso. Numa noite, ao tomar banho, sentiu a presença de protuberâncias na área genital e no dia seguinte procurou uma ginecologista. Com um simples exame clínico, foi diagnosticada com um Condiloma, uma das formas como é conhecido o HPV. “Tive contato sexual sem camisinha apenas com um parceiro durante toda a minha vida, mas ele tinha relações com muitas outras garotas por aí e não se prevenia. Ele se recusou a fazer o exame para confirmar se era ou não portador de HPV, disse que não tinha nenhum sintoma”, contou a universitária.

Sem sinais

O que houve com Juliana é tão frequente que assusta, como observa a infectologista do Hospital Universitário de Brasília (HUB) Valéria Paes. “As pessoas têm muita vergonha da presença do vírus, isso acaba atrasando o tratamento, que deve ser feito o mais rápido possível”, afirmou.

Segundo a médica, no caso do tratamento destinado aos homens, a rede básica de saúde é bem preparada, pois um profissional aplica a medicação diretamente no local da lesão. Porém, quando a paciente é mulher, o tratamento é mais complexo: ela deve se dirigir ao ginecologista, fazer uma avaliação, realizar a aplicação da medicação e seguir uma espécie de monitoramento da doença. “Não existe tratamento oral ou sistêmico. Bons hábitos de saúde contribuem com a melhora da imunidade e colaboram com a inativação do HPV”, esclareceu a infectologista.

Para Elisa, outra jovem infectada pelo vírus do HPV, é difícil conviver com a verdade da doença. “É difícil aceitar que vou passar a vida toda com uma doença por negligência minha. Isso não tem cura, não tem volta”, lamenta. Em todos os casos, a vítima tem medo do julgamento das pessoas, que pouco sabem a respeito do assunto. Existe receio de nunca encontrar um companheiro que aceite a exposição à doença, que em muitos casos fica adormecida no organismo.

Mas é preciso entender que o portador de HPV pode ter uma vida normal, embora com cuidados e atenção ao tratamento. “Doeu muito saber que eu tenho HPV, imaginar os riscos e o que o vírus podia tirar de mim. Mas decidi encarar isso com leveza e hoje eu brinco com a presença dele. Eu fiz amizade com meus demônios”, concluiu Elisa.

Prevenção

O principal método de prevenção é a vacina, que protege contra os sorotipos 6 e 11, causadores das verrugas, e os tipos 16 e 18, que podem desencadear diversos tipos de câncer. A vacina já é introduzida no SUS para meninas de 9 a 13 anos e, desde janeiro deste ano, é ofertada a meninos de 12 a 13 anos.

Existem, ainda, diversas modalidades de HPV que não são cobertas pela vacina e o ideal é que ela seja tomada antes do início da vida sexual. Não há contraindicação para quem já teve contato com o HPV anteriormente. A vacina desencadeia uma resposta imunológica no corpo, que torna o organismo capaz de combater o vírus, caso ocorra a exposição.

*Os nomes dos personagens dessa reportagem foram modificados a pedido dos entrevistados.

Foto: Colocar mais tarde, Patrícia Moura vai enviar por e-mail