Façam as pazes, amigos!

Thiago dos Santos Siqueira

Quem nunca brigou com um amigo ou parente por política? Nos últimos anos, os debates têm tomado uma proporção agressiva. Se nas cidades do interior as pessoas já brigavam pelas disputas eleitorais a ponto de não comprarem no mercado “x” por que é da família “inimiga”, nas grandes metrópoles essa realidade tem se tornado presente.

As últimas movimentações da política nacional geram sentimentos de odeio e vingança. Com a crise econômica acirrada pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff que deixou o poder no ano passado -, várias famílias se dividiram. Nem os encontros de domingo foram mais os mesmos… E qualquer ocasião – aniversário, batizado e encontro informal – acaba virando uma articulação política digna de uma disputa presidencial da Câmara: “Se fulano for, eu não vou”.

No fim das contas, o clima chato fica para todo mundo. Mas na família até dá para relativizar, alternar as idas nos encontros, os parentes colocarem panos quentes e por aí vai. Mas e no trabalho? Se fulano for, eu não vou?  Na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) não há referência a artigos ou normas que aliviam rixas por questões políticas ou ideológicas para ninguém.

Então imagine: um coxinha e um mortadela dividindo o mesmo espaço no trabalho? Vizinhos de baia ou mesa? Não dá para brigar. Afinal de contas, se foi impeachment ou golpe, a discussão não tem que virar uma preparação para um confronto armado. Mas é preciso ter tranquilidade em saber que é um debate, não uma rixa ideológica. Muito menos dar a ela um desfecho troiano.

Toda essa agressividade toma proporções gigantescas na sociedade, basta olhar os “justiçamentos” e linchamentos.  Do homem que invade um casamento para matar o assassino do pai, de populares que prendem um assaltante de celulares em uma parada de ônibus e o espanca. Embora seja totalmente diferente das brigas entre parentes e colegas de trabalho, seguem a mesma linha de raciocínio: incredulidade com o Estado e com a Justiça.

Sim, nas discussões que de maneira simplista se resumem o “foi golpex “foi impeachment”. Ou colocando de maneira mais escancarada, direita contra esquerda. Algo meio ultrapassado há quase três décadas – desde a queda do Muro de Berlim, em 1989, quando a rivalidade do socialismo e o capitalismo passou a ruir – ou se retomamos o contexto da Guerra Fria: os americanos contra os russos, ou melhor, Deus, pátria e família contra o “demônio”. O contexto histórico nos mostra apenas uma coisa: o pacifismo é a melhor escolha. E toda essa disputa só leva às disputas desnecessárias e que não nada solucionam.

Saúde, educação e segurança pública são básicas, mas o leque de questões fundamentais é muito maior. É preciso ir além do debate simples e sem conteúdo sobre questões ideológicas que sustentam a concepção de Estado e buscar discussões que gerem soluções que garantam à população – parentes,  colegas de trabalho e até para as pessoas que não conhecemos nos vários cantos do país – as necessidades que merecem e precisam, das metrópoles aos rincões. Divergir, incomodar, concordar e buscar consenso são essenciais para o engrandecimento da sociedade como um todo e do indivíduo como ser que colabora e faz para um país que visa o melhor para os seus.

Ilustração: Enoque Aguiar