Dor no corpo e na alma

O sofrimento dos que não conseguem parar de comer

Hellen Resende e Karine Santos

Ingerir quantidades anormais de alimentos e não manter controle sobre a comida caracterizam um comedor compulsivo, segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, da Associação Americana de Psiquiatria. Estudo feito pelo Instituto de Métrica e Avaliação para a Saúde (IHME), da Universidade de Washington, constatou que quase 30% da população mundial é obesa ou está com sobrepeso. Mas, diferentemente do que se possa imaginar nem todo obeso é um comedor compulsivo. O comportamento compulsivo inclui comer rapidamente, sem fome, até se sentir desconfortável, alimentar-se sozinho por vergonha e sentir-se deprimido ou muito culpado após as refeições. Da população mundial obesa, cerca de 6% das pessoas sofrem de Transtorno da Compulsão Alimentar (TCA), termo descrito há 58 anos pelo psiquiatra Albert Stunkard.

Marle Alvarenga, pós-doutora em Nutrição pela Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Grupo Especializado em Nutrição, Transtornos Alimentares e Obesidade (Genta), esclarece que os fatores que podem desencadear o transtorno são variados, como genética, aspectos psicológicos, familiares e socioculturais. No que se refere aos fatores socioculturais, Marle ressalta que a oferta em demasia de alimentos rápidos associada aos ideais inalcançáveis de beleza e ao padrão de magreza agravam o comportamento doentio. Segundo ela, em geral, os adultos sofrem de transtorno compulsivo, sendo que mais mulheres procuram tratamento. Entre os jovens, o diagnóstico, geralmente, é de bulimia e/ou anorexia.

Compartilhamento

Com grupos em vários países, os Comedores Compulsivos Anônimos (CCA), entidade criada nos Estados Unidos se define como uma espécie de irmandade. Baseando-se em tratamentos de livros de auto-ajuda e também nas orientações dos Alcoólicos Anônimos, o grupo recomenda 12 passos e 12 tradições. O CCA faz reuniões presenciais em diversos países e em cidades brasileiras. Há, ainda, encontros virtuais, opção para integrantes que vivem em locais onde não existem grupos físicos.

A médica Dora Silva*, de 50 anos, frequenta o CCA há quase sete e conta que o maior desafio é dar esperança às pessoas para que saibam que a compulsão alimentar é uma doença, que ela julga “humilhante, degradante e fatal”: “Antes do CCA, eu pesava 115 quilos e tenho 1,68 metro, a minha saúde era péssima e sentia um medo grande de comer.”

Além do CCA, nas redes sociais há grupos (sempre fechados) que reúnem quem sofre de transtorno alimentar. Em sua maioria compostos por mulheres, que dividem as dores físicas e emocionais, compartilham os tratamentos e unem-se pelo codinome que os identifica: compulsivos. Márcia Moraes faz parte de um desses grupos. Em 5 de fevereiro, ela publicou uma mensagem em que agradece por ter sido aceita no espaço virtual e contando a sua história: “Estou muita assustada. Deprimida. Com medo. Medo porque estou sem força alguma para me cuidar. Medo de disparar de peso. Medo de numa comilança dessas, meu fígado passar por nova crise e desta vez ser fatal.”

Para a pós-doutora em Nutrição Marle Alvarenga,  as estratégias do tratamento clínico devem envolver orientações sobre o consumo de alimentos e o comportamento social em relação aos hábitos alimentares. Segundo ela, quem sofre de transtornos de ordem alimentar, deve procurar especialistas – nutricionistas, psiquiatras e psicólogos. No caso dos alcoólatras, a recomendação é “evitar o primeiro gole”. Para os compulsivos alimentares, como evitar a primeira mordida? Para além da “dor de barriga”, típica de quem eventualmente come exagerado, a dor dos comedores compulsivos ultrapassa o físico, dói na alma.

*O nome da pessoa foi substituído por um fictício para preservá-la.

Marlucia de Oliveira, Caldas Novas (GO)

“Descobri, recentemente, que estou com gordura no fígado e colesterol alto. Eu preciso me cuidar. Participei de uma reunião dos Narcóticos Anônimos e pude perceber que a minha dependência e sofrimento era o mesmo do deles. Sempre deixo de ir às festas, à igreja porque sei que vou passar vergonha quando comer.”

Nilza Avelino, Machado (MG)

“Sou compulsiva desde a infância: pegava alimentos escondido na geladeira e comia no banheiro. Acho que a sociedade não tem ideia do quanto sofre um comedor compulsivo.”

Alicia Sanchez, Los Angeles (EUA)

“Para mim foi muito duro reconhecer que eu era uma comedora compulsiva. Sempre pensei que fosse falta de vontade, de caráter ou preguiça. Um comedor compulsivo se afasta para comer só, a vergonha nos invade.”

Foto de Capa: Procurar em algum lugar de fotos públicas