Desculpem, estou doente

Médicos, enfermeiros e técnicos sofrem com a falta de estrutura e pressão

Virgínia Barbosa

Só no Distrito Federal, 48% dos profissionais de saúde – entre médicos, enfermeiros e técnicos – estão afastados do trabalho. A maior parte dos pedidos de licença está ligada a transtornos mentais. O levantamento é da Secretaria de Administração do Distrito Federal, realizado entre 2011 a 2012. É a segunda maior demanda de pedidos de afastamento, perdendo apenas para a Secretaria de Educação, que têm 58% dos profissionais afastados.

Com 20 anos de profissão, a médica Cláudia Silva*, 42 anos, que atua na cirurgia geral do Hospital Regional do Gama (HRG), teve de se afastar do trabalho por 10 dias. O diagnóstico para licença médica: por ansiedade.  A cirurgiã disse não suportar a pressão diária e a falta de materiais na unidade. Segundo ela, houve momentos que pensou em desistir da profissão. A gota d’água foi o dia em que não havia seringas no hospital.

“O tempo que eu perdi indo a uma drogaria, daria para ter atendido mais dois pacientes. No HRG, não podemos perder tempo nem para tomar água”, contou a médica, que pediu para não identificar e relatou que não sabia que estava ansiosa, mesmo tendo alguns dos sintomas: aperto no peito, medo e insônia por causa da preocupação.

“Quem me alertou foi uma colega de profissão. No primeiro momento achei que fosse apenas cansaço, depois percebi que os sintomas estavam ficando cada vez mais frequentes, o medo que eu sentia estava mais intenso a ponto de eu ir para o hospital chorando, como uma criança que não quer ir para a escola, por medo do que eu pudesse encontrar”, afirmou Cláudia Silva*.

O excesso de trabalho e as más condições do hospital levaram Ricardo Lopes*, 50 anos, clínico geral de um hospital da rede pública do DF, a pensar em tirar a própria vida. “As autoridades sabem que o sistema é precário e não funciona, mas não tem coragem de assumir e tentar mudar porque a mudança prejudica muita gente”, disse ele. “A população sofre e nós médicos também, eles [os pacientes] não entendem que nós não temos condições de trabalhar sem os equipamentos necessários.”

Para a médica do trabalho, preceptora de Residência Médica e plantonista do HBDF, Irna Kaden, 42 anos, diversas profissões podem causar doenças e expor o trabalhador ao estresse, mas na medicina o problema é agravado pelo binômio: Vida-Morte – presentes diariamente. Irna acredita que é preciso dar mais atenção à saúde. “Os médicos precisam dar mais atenção a si próprios. Quem cuida precisa ser cuidado. Esta afirmação resume tudo”, afirmou ela.

A sensação dos profissionais é de limitação, segundo Irna Kaden. “Muitas decisões e condutas tomadas não são as ideais, mas sim, as possíveis naquele momento, que venham a auxiliar no tratamento dos pacientes e seus cuidados”, afirmou a preceptora de residentes do HBDF.

Adriano Martins*, 38 anos, trabalha há mais de 15 anos como técnico de enfermagem e há nove, presta serviços no Hospital Regional de Samambaia (HRSam). Para ele, somado ao estresse há problemas técnicos do hospital, dificultando o exercício da profissão. “Nós trabalhamos com limitações de materiais e de profissionais. Para dar conta dos plantões, sempre tomei café, mas já não surtia efeito, então, passei a tomar anfetamina. A droga me deixava acordado além do que eu precisava”, revelou ele.

Com a insônia mais presente no dia a dia e a notícia da gravidez da esposa, o técnico de enfermagem, que tomou o estimulante por dois meses, decidiu parar de consumir a pílula e da mais atenção a sua saúde. ” A ideia de ser pai e a ajuda de um amigo, psicólogo, estão me dando força para seguir em frente”.

A enfermeira, Caroline Ribeiro*, 48 anos, lotada no Hospital de Base (HBDF), teve o diagnóstico de ansiedade, depois de ouvir pacientes pedirem para morrer porque não aguentavam mais sentir dor. “Um dos pacientes estava há três meses esperando por uma cirurgia para colocar seis pinos na coluna. Como não tem leito suficiente, ele ficou no corredor da emergência suplicando por atendimento. Eu não podia fazer nada, além de medicá-lo”, disse ela, emocionando-se.

Caroline, que toma remédio para a ansiedade, relatou que já comprou remédios para seus pacientes e pediu que ficassem se tratando em casa, evitando o hospital. “É horrível para mim, uma profissional da saúde, não poder fazer nada para ajudar esses pacientes. Eu me formei para curar e cuidar das pessoas, mas, infelizmente, eu só estou conseguindo cuidar, como uma mãe, porque curar está difícil”, afirmou.

Para o vice-presidente do Sindicato do Auxiliares e Técnicos em Enfermagem do Distrito Federal, Sindate, e Presidente da Federação Brasileira de Profissionais de Enfermagem, Febrapem, Jorge Vianna, elenca uma série de fatores que influenciam na saúde psicológicas dos profissionais, como a queda financeira, questões políticas e até  assédio moral.

Para Vianna, os problemas financeiros aliados à falta de estrutura no trabalho e mais a pressão levam muitas pessoas à doença, daí a cobrança do sindicato para uma política pública destinada especificamente a área de saúde.

A Secretaria de Saúde do DF informou que não detalha os tipos de transtornos mentais e psicológicos que provocam o afastamento por doença dos servidores. A alegação é o sigilo médico. “Para o governo, é mais fácil falar que a gente está dando atestado. O servidor público não quer trabalhar, não. E a população, nossa esse pessoal é folgado. Só que eles [os funcionários do governo] não falam o porquê”, explicou Jorge Vianna.

Em seguida, Vianna enfatizou: “Toda pauta de reivindicação a gente coloca em um dos itens a saúde do trabalhador. A gente sabe da deficiência que nós temos. O problema é que o governo não se preocupa com isso porque para o governo, nós somos apenas números.”

* Os nomes foram alterados para preservar a identidade dos entrevistados.

Foto: Procurar em algum site de fotos públicas