Ciclovia da EPTG: dívida ou necessidade?

Sem cumprir o plano original, Rollemberg autoriza ciclovia que ligará Taguatinga ao Sudoeste

Guilherme Costa

Em meio a uma grave crise no orçamento no Distrito Federal, o governador Rodrigo Rollemberg (PSB) atendeu a uma antiga demanda brasiliense e autorizou a construção de uma ciclovia que ligará o centro de Taguatinga à Octogonal. O processo de licitação ainda está em andamento, mas a previsão do Departamento de Estradas e Rodagens do Distrito Federal (DER-DF) é de que a obra seja entregue até o final do ano.

De acordo com a Secretaria de Mobilidade do Distrito Federal (SEMOB-DF), a obra custará aproximadamente R$ 12 milhões e terá 25,7 quilômetros de extensão nas duas margens da Estrada Parque Taguatinga (EPTG). O planejamento do DER era encerrar a licitação para execução da obra até fevereiro, mês no qual estava previsto o início da construção. Contudo, as obras ainda não se iniciaram.

O vendedor João Paulo Araújo, de 27 anos, adepto da bike e atleta federado de ciclismo de estrada, é um dos defensores da ciclovia. Ele relata ter passado por vários perigos em seus deslocamentos diários na via.

“Todo dia a gente passa por vários sustos. Nós que compartilhamos a via com os carros diariamente ainda vemos que muitos motoristas acham que estamos ali só para atrapalhar, que não deveríamos estar ali. Muita gente ainda pensa assim”, lamentou João Paulo Araújo.

O Governo do Distrito Federal (GDF) informou que a conclusão da obra ocorrerá em oito meses. Um período tão adequado quanto o orçamento, de acordo com Paulo César da Silva, mestre em Engenharia de Transportes e professor da Universidade de Brasília (UnB).

O engenheiro acredita que, mesmo não sendo feita no melhor momento, a execução da obra tem um viés positivo e é, acima do tudo, o pagamento de uma dívida. “A existência da ciclovia na EPTG era parte do projeto quando foi contratado o empréstimo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BIDE). Quando se aportou recursos para a criação da EPTG, existia um projeto chamado de Linha Verde, um projeto de um corredor que ia priorizar o transporte não motorizado”, disse o mestre.

IMG_2613Foto: Guilherme Costa

O outro lado

O fluxo intenso de ônibus que trafegam na via, além de engarrafamentos quilométricos nos horários de pico, também jogam um alerta sobre a ciclovia. Felipe Melo Marques, 22 anos, é dependente do transporte público para ir e voltar do trabalho. Para descer perto de sua casa, pega um ônibus que trafega pela marginal da EPTG.  O jovem conta que já enfrentou mais de duas horas de engarrafamento para chegar em Taguatinga.

Para o estudante, uma ciclovia no local só aumentará os congestionamentos e até o risco de acidentes. “O governo deveria, primeiro, concentrar-se em aumentar a frota de ônibus e atender uma demanda mais antiga ainda, que é o problema do transporte público no DF”, disse ele.

Apesar das divergências, um aspecto todos concordam: o momento escolhido pelo governo para realizar esta obra não é o adequado, pois o Distrito Federal  vive uma crise econômica desde 2014 acentuada por problemas políticos. Rollemberg enfrenta restrições de  deputados distritais, servidores públicos e moradores. Há críticas sobre o racionamento de distribuição de água, reajuste das tarifas das passagens do transporte público e mais cobranças por aumentos salariais.

Na campanha política, Rollemberg defendeu uma série de propostas para aperfeiçoar o sistema de mobilidade urbana, como o aumento da frota viária, a expansão do metrô e compra de novos trens e a implementação do Trem Leve Urbano da Ceilândia, medidas que até o momento não saíram do papel.  Procurada pela reportagem do Artefato, a Secretaria de Mobilidade do Distrito Federal (SEMOB-DF) não se pronunciou.

Foto de Capa: Guilherme Costa