Água que ninguém quer

Em pleno racionamento, o paradoxo: ruas alagadas e o desperdício da substância rara

Letícia Viana

Basta a chuva dar o ar da graça que as ruas de Brasília sofrem com os alagamentos. Inúmeros são os transtornos pela impossibilidade de ir e vir: os pedestres não conseguem circular, os ciclistas têm de fazer acrobacias e os motoristas têm prejuízos com os carros que ficam submersos. O paradoxo é que essa agonia ocorre no momento em que o Distrito Federal passa por um racionamento de água. Por que tantos alagamentos em uma cidade planejada? E por que toda essa água não é revertida para amenizar a situação da falta do recurso?

Apesar de a cidade conter mais de 4 mil quilômetros de redes de águas pluviais e mais de 170 mil bocas de lobo na temporada de chuva, a cidade alaga. Independentemente da causa do problema, a população sempre é afetada. Oscar Neto, professor de Engenharia Civil da Universidade de Brasília (UnB), busca respostas para esses questionamentos. “Várias áreas da região foram pavimentadas, asfaltadas e urbanizadas e esses processos fazem com que tenha o aumento da água que escoa. A água, que antes infiltrava no terreno, hoje escoa rapidamente provocando os alagamentos”, explicou.

Já a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap), responsável pelas bocas de lobo da cidade, informa que diariamente os funcionários limpam e fazem os cuidados necessários com os bueiros para evitar alagamentos. Porém, o problema persiste. O Diretor Presidente da autarquia, Júlio Menegotto, afirmou que o excesso de sujeira é um dos motivos. “Cada vez que um funcionário da Novacap entra numa boca de lobo para fazer a limpeza, nós ficamos surpresos com a quantidade de lixo”, disse. “Nós temos uma grande quantidade de alagamentos na cidade justamente por entupimento de lixo doméstico: acham-se bolsas, bolas, tudo o que você pensar, dentro de uma boca de lobo.”

As histórias envolvendo alagamentos são muitas. O motorista Osvaldo Júnior lembra de um episódio recente que viveu:  “Acabei desistindo de enfrentar a W3 Sul porque a via parecia mais com um rio do que com um local de passagem de carros”. A queixa se estende aos pedestres. “Um dia eu precisei ir até um comércio perto da minha casa, do outro lado da rua, e assim que eu pisei na rua, tinha uma enxurrada que molhou até o meu joelho e ainda me fez perder o dinheiro que ia usar”, disse a pedestre Letícia Medeiros.

Há regiões em que a situação se agrava, como Vicente Pires, Ceilândia, Planaltina, Guará e Plano Piloto. Os alagamentos nas tesourinhas do Plano Piloto, por exemplo, viralizaram na internet depois que um motorista registrou uma verdadeira “cachoeira” formada em uma delas, após a chuva.

Para o professor Oscar Neto, o governo do Distrito Federal deve adotar mecanismos para reaproveitar essa água parada para reduzir os riscos de racionamento. “É importante desenvolver sistemas como trincheira de infiltração ou fazer no próprio lote algum tipo de infiltração forçada, que facilitem esse processo de captação da água, sem que o local fique inundado e nem afete outras regiões”, indica.

Em nota, a Companhia de Água e Esgoto de Brasília (Caesb) informou que não há projeto para captação da água da chuva. A Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento do Distrito Federal (Adasa) não se pronunciou sobre o assunto.

Foto de Capa: Procurar outra? Achei essa ruim