Vigorexia – um transtorno desconhecido

Doença afeta mais homens que fazem exercícios físicos de alta intensidade

 Gilvanete Costa e André Baioff

O culto ao corpo perfeito vem desde a Grécia antiga, quando esculpiam estátuas em mármore e a imagem humana era encaixada em um padrão estético ideal de beleza. Essa busca se estende até os dias de hoje. O desejo de ter um o corpo dos sonhos pode esconder muitos problemas e desencadear doenças psicológicas, como a vigorexia, quando o indivíduo não se aceita por não conseguir alcançar a perfeição almejada – transtorno dismórfico corporal que afeta mais homens praticantes de musculação e fisiculturistas.   

Os sintomas desta patologia são cansaço, insônia, ritmo cardíaco alterado, mesmo que o indivíduo não esteja fazendo esforço físico, dores musculares, tremedeira e baixo desempenho sexual devido ao uso de anabolizantes. Vez por outra há ainda irritabilidade, depressão, ansiedade e desinteresse por outras atividades que não estejam ligadas a atividades físicas.

Um estudo publicado há três anos por pesquisadores da Universidade de Campo Grande (Unigran) revelou que os níveis da vigorexia aumentam conforme o grau de dependência por exercícios físicos.

Anorexia x Vigorexia

Ao contrário da anorexia em que o indivíduo busca emagrecer e 90% dos casos atingem mulheres, segundo dados do Índice Saúde, a vigorexia ou transtorno dismórfico corporal, afeta mais homens praticantes de musculação e  fisiculturistas. O paciente que possui a vigorexia, se vê cada vez mais magro, quando na realidade está  com músculos e veias saltitantes.

É o que  diz  a  psicóloga Juliana Muniz Sobrinho que afirma que o indivíduo desenvolve a vigorexia tem uma percepção errônea sobre o corpo. “Essa percepção distorcida traz sofrimento ao sujeito, pois ele se mostra constantemente insatisfeito com o seu corpo ou partes dele, fazendo de tudo para alcançar uma perfeição que pode colocar em risco a sua saúde”, alertou.

Juliana Muniz associa o transtorno a questões históricas: “Uma explicação plausível e que talvez possa explicar a alta incidência deste transtorno nos homens é que através dos tempos, reproduziram a ideia de que os homens devem ser sempre fortes e musculosos para proteger sua família, enquanto as mulheres tratadas como frágeis e delicadas.”

Briga com o espelho

O advogado José C. Neto, 30, há dez anos sofre de diversos transtornos como bulimia, anorexia e também a vigorexia. Ele conta que primeiro começou a malhar de forma intensa e, conforme os resultados surgiam, não tinha mais controle. “Passei a treinar intensamente e comecei a sentir diferenças em alguns meses, mas não foi o suficiente e passei a usar suplementos”, lembrou.

Não satisfeito com o que via no espelho, José Neto decidiu partir para outros métodos, como os esteróides, substância proibida para o uso humano. “Passei a usar anabolizantes, chegava a tomar de duas a três doses por semana”, confessou ele, que quando passou a fazer uso excessivo dos anabolizantes, alguns sintomas começaram a surgir: dormir, por exemplo, já não era tão simples. “Meu corpo fervia por dentro, mesmo no ar condicionado precisava jogar uma toalha com água e gelo no chão para melhorar um pouco.”

Após perceber que precisava de ajuda, o advogado abandonou os hormônios, afastou-se da academia e resolveu procurar profissionais capacitados para tratar do problema. “Deixei de tomar anabolizantes e entrei em um processo de aceitação com psicólogos, psiquiatras e com medicação que melhorasse um pouco meu ânimo”, contou ele.

Volta por cima

O advogado é enfático ao afirmar que a doença é uma briga constante  consigo mesmo, mas ele é positivo em relação aos tratamentos para controlar o distúrbio. “Na verdade, vejo a vigorexia como um transtorno sério interno e eterno de insatisfação e aceitação do corpo. Acho a busca incessante pelo corpo perfeito uma doença que possui tratamento, mas é demorado. Demorado para aceitar-se”, lamentou José.

Apesar das angústias, José Neto se reergueu e garante que hoje gosta do que vê no espelho. Ele mantém um grupo no Facebook com mais de seis mil seguidores. O espaço tem ajudado pessoas com transtornos alimentares e distorção de imagem. Lá, as pessoas relatam as suas vivências com distúrbios alimentares e de imagens e se ajudam com postagens motivacionais.

O especialista em Psicologia Clínica da Saúde e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), Alexandre Cavalcanti Galvão, afirma que “a pessoa com vigorexia perde a noção de si, ela se torna muito forte, porém não gosta do que tem”. O professor  ressalta que fisiculturistas têm uma tendência maior a desenvolver a vigorexia. “Eles, os fisiculturistas, têm uma preocupação grande pelo delineamento de seus músculos e boa parte deles acabam adquirindo o distúrbio”, disse o psicólogo.

No Brasil, a preocupação de tratar a vigorexia como saúde pública não está entre as prioridades. Há apenas um projeto de lei de nº 019, de 13 de setembro de 2013, que tramita na Câmara dos Vereadores de Venâncio Aires, no Rio Grande do Sul. A proposta institui a Política Municipal de Prevenção e Combate às Doenças Associadas aos Distúrbios Alimentares, incluindo a vigorexia. Nele, o parágrafo único diz que: “são objetos da lei as patologias associadas aos distúrbios alimentares, como a bulimia e a anorexia nervosa.”

Foto de capa: Free Great Picture.