Sinuca: do hobbie à profissionalização

O esporte com diferentes regras vai além de diversão

Charles Jacobina

Uma mesa de bilhar ali, outra aqui. Não é difícil ver a “sinuquinha” em vários dos bares espalhados pelo Distrito Federal. Amigos pagam a ficha e se divertem. Os mais ousados apostam R$ 5,00, R$ 10,00 e R$ 50,00 ou uma cervejinha. Mas essa negociação é válida apenas para quem quer brincar. Já no “sinucão”, a competição, segue regras rígidas com direito a campeonatos internacionais, organizações específicas e atletas que se preparam por anos. 

A “sinuquinha” é o jogo tradicional das 15 bolas ímpares e pares – coloridas e uma branca, que é a chamada “tacadeira”. Essa mesa é a mais popular, encontrada nos botecos e bares da cidade, o público não passa de amadores ou iniciantes no esporte. A regra principal é: o jogador fica com uma série par ou ímpar e vence o jogo aquele que encaçapar – fazer com que a bola entre na caçapa – todas de uma só vez.

Já o “sinucão”, snooker (do inglês) ou sinuca brasileira é jogado com sete, 13, 16 ou 22 bolas de cores diferentes – vermelha, amarela, verde, marrom, azul, rosa, preta e branca –, cada cor equivale a uma pontuação – valendo de um a sete pontos. Essa modalidade tem uma característica reservada em nível de competição mais formal. No Brasil, é consagrado vitorioso aquele que fizer mais pontos a partir de uma ordem.

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Foto: Thiago Suares.

Pelo histórico da Federação de Sinuca do Distrito Federal, a prática dos jogos chegou ao Brasil muito antes da fundação de Brasília e rapidamente se espalhou pela cidade. Nesta época, o jogo era marginalizado. A partir dos anos de 1980, o esporte chegou a ter uma visibilidade maior com modalidades diferenciadas e campeonatos regionais, nacionais e até internacionais.

Para o presidente da federação, Fernando José Ferreira da Silva, 73 anos, o preconceito em torno do esporte envolve aspectos que não tem relação direta com a prática da sinuca em si. “Não apoiamos as práticas que envolvem apostas e bebidas. Essas ações que carregam uma visibilidade negativa. Apoiamos o esporte que é jogado com regras reconhecidas pelo Conselho Nacional de Desportos”, disse ele.

O vice-presidente da FSDF, Daniel Furtado de Morais, 63 anos, acrescentou que houve mudança na forma como a sinuca é vista atualmente no país em comparação aos anos 60. “Hoje temos jogadores brasileiros nos rankings mundiais. O Brasil vem crescendo na modalidade, levando jogadores a jogarem no exterior com a regra inglesa (Snooker)”, relatou ele.

Competidores

O ARTEFATO conversou com dois dos principais competidores do país. Robson Alves, 49 anos, que tem orgulho da conquista dos dois vice-campeonatos nacionais, 10 títulos brasilienses e vários títulos paralelos nas competições menos reconhecidas no Brasil. A prática do esporte começou logo na infância, quando observava os tios jogarem.

“Comecei com 15 anos, parei por um tempo e voltei. Faz 15 anos que participo das mais variadas competições do DF e de outros estados do Brasil e venho me destacando”, contou Robson Alves, que treina seis horas por semana na mesa inglesa. Com todos esses títulos conquistados, ele calcula ter recebido cerca de 20 mil reais somente no “sinucão”. “Não é possível viver (economicamente) apenas deste esporte, por isso o tenho como um hobbie”, ressaltou o atleta que é dono de óticas em Brasília.

Nivaldo José da Silva, 50 anos, é um concorrente forte de Robson Alves e famoso no cenário do sinucão brasiliense. Conhecido pelo apelido “Sobradinho”, dado por jogadores de sinuca de Brasília, conta com dezenas de títulos em seu currículo: uma Copa do Brasil de Sinucão, um vice-campeonato nacional, 17 Campeonatos de Brasília e um paulista.  Mesmo com tantos títulos, Sobradinho contou que a carreira foi marcada por muitas dificuldades.

“Posso dizer que a quantidade de dinheiro que eu ganhei em todos esses anos, não foi suficiente para pagar o tanto de despesas que tive com o jogo. Não temos quase nenhuma ajuda de custos da federação”, reagiu Sobradinho. Crítica que é rebatida pelo presidente da federação, Fernando José Silva. Segundo ele, é difícil levantar recursos para o esporte a começar pelos valores pagos nas competições: “O principal campeonato do Brasil paga para o primeiro colocado cerca de R$ 5 mil. No Reino Unido, os campeonatos chegam a pagar cerca de R$ 2 milhões para os campeões”.

Fernando José Silva afirmou que no Reino Unido onde a sinuca é respeitada, há interesse comercial por parte das emissoras de televisão que transmitem as disputas e audiência garantida, gerando receita e comparou com um outro esporte que atrai público no Brasil. “É o que acontece com o futebol aqui. Mas no Brasil não recebemos nenhuma ajuda de custo do governo e também não temos o interesse comercial. Fazemos nossos campeonatos nos clubes, que cedem de forma gratuita o local para a prática da sinuca”, concluiu.

Foto de capa: Thiago Suares.