Combate e tratamento de câncer x realidade

Campanha é realizada no momento em que o DF vive caos na saúde pública

Bárbara Bernardes

Todos os anos, durante dois meses o governo do Distrito Federal realiza uma campanha de conscientização e mobilização contra o câncer. A iniciativa é positiva, mas a realidade não acompanha a intenção,  faltam condições nos hospitais e centros de saúde da rede pública para atender à demanda da população. No “Outubro Rosa”, mês dedicado à prevenção contra o câncer de mama, por exemplo, havia cerca de mil mulheres na fila de espera para fazer mamografia na rede pública. Paralelamente, no “Novembro Azul”, que se destina à prevenção e combate ao câncer de próstata, além do desafio para enfrentar as dificuldades práticas há a desconfiança e o preconceito dos homens para a realização dos exames. 

Pelos dados da Secretaria de Saúde do DF, durante o “Outubro Rosa” apenas quatro de doze aparelhos para exame de prevenção contra o câncer de mama funcionavam e os outros oito equipamentos não podem ser usados por falta de manutenção.

Ainda segundo a Secretaria, para a reconstrução da mama, no caso das mulheres que se submeteram à mastectomia (remoção parcial ou total da mama), estão preparados apenas os hospitais regionais da Asa Norte, Santa Maria e Sobradinho, que dispõem de equipes especializadas. No Hospital de Base, por sua vez, esse procedimento é realizado pela equipe de mastologia. De acordo com relatos, o tempo de espera para esse tipo de procedimento é, em média, de um ano. Em 2015, foram realizadas 77 cirurgias de reconstrução mamária.

A aposentada Idaltiva Barroso, 76 anos, teve câncer de mama em 2002 e fez todo o seu tratamento na rede pública de saúde. “Fiz todo meu tratamento no Hospital de Base. A maior dificuldade é que ultimamente tem faltado remédios para a quimioterapia, principalmente um que custa 500 reais”, conta. Na ocasião, ainda explica que o mês de conscientização serve como alerta: “Por comodidade mulheres não procuram médico, e quando se dão conta, já estão em perigo”.

Amanda Araújo, enfermeira da UTI Vida (rede privada), afirmou que novas alternativas têm sido buscadas para gerar impacto na população a fim de conscientizar. “O foco deveria ser buscar o sistema de saúde pública para acompanhamento regular. E claro, o GDF deve fornecer condições de trabalho ao servidor para realizar ações preventivas, diagnósticas e paliativas, pois muitos profissionais estão realizando atos de caridade na saúde pública, porque mesmo sem recursos, tiram às vezes dos próprios proventos para efetivar a campanha”, observou ela.

Múltiplas dificuldades

No caso dos homens, há dificuldades múltiplas: o desconhecimento e o preconceito somam-se à falta de estrutura para a realização de exames de prevenção contra o câncer de próstata a partir dos 50 anos. Após o diagnóstico, o acompanhamento ocorre nas unidades públicas: Hospital Regional de Taguatinga, Hospital de Base do Distrito Federal, Hospital Regional da Asa Norte, Hospital Regional de Sobradinho e Hospital Regional do Gama. O tratamento cirúrgico ocorre nas unidades citadas, porém o tratamento com oncologista ocorre no HRT e no HBDF.

A estimativa do Instituto Nacional do Câncer é de que irão surgir mais de 61 mil novos casos de câncer de próstata no Brasil em 2016. Os valores correspondem a um risco estimado de 61,82 casos a cada 100 mil homens.

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Foto: Felipe Menezes.

André Luiz Lima, autônomo, 58 anos, explicou que faz sua prevenção corretamente e que por isso, descobriu um problema de próstata chamado Hiperplasia Prostática Benigna (HPB) – doença que com falta de tratamento, acarreta no aumento da próstata, que pode vir a “estrangular” a uretra, impedindo a passagem da urina – doença que também precisa do exame tradicional de toque para ser descoberta, assim como o câncer. “Infelizmente a maioria dos homens tem preconceito em fazer esse exame, e precisa existir uma conscientização dessa população porque muitas vezes é questão de vida ou morte”. “Não é fácil conseguir na rede pública realizar esse procedimento. Querem que a gente se previna, mas não dão a mínima condição para isso”, André explica.

O urologista Glauco Almeida se disse confiante na eficácia de campanhas de prevenção, entretanto, afirmou que o problema está na demora dos homens em procurar os especialistas. “Há muito machismo, apesar de ter havido melhora nesses últimos anos em função de árduo trabalho realizado pela SBU (Sociedade Brasileira de Urologia) junto às mídias”, disse ele.

Para Amanda Araújo, a estrutura atual da rede pública não oferece condições para as ações preventivas nem em relação ao câncer nem às doenças crônicas. “A saúde pública do DF está em colapso total. Faltam pessoas capacitadas e recursos materiais para efetivação das campanhas”, desabafou.

Foto de capa: Rodrigo Neves.