Mulher com muito orgulho

Raphaella Torres

Nome: Ana, Maria, Jéssica, Luiza, Bruna, Camila, Laura, Antônia. Mães, irmãs, tias, primas, esposas, namoradas, colegas da faculdade, colegas do trabalho, MULHERES. Elas já foram cultuadas como deusas da beleza, virgens, puras e também já foram escravizadas, mutiladas e desvalorizadas por padrões patriarcais que favoreciam o sexo masculino e desrespeitavam seu direito a vida e a liberdade. 

Quando nos deparamos com essas situações da mulher ao longo da história, logo pensamos que é algo totalmente perverso e antiquado, algo que não condiz com a nossa realidade – digo nossa porque somos todxs nós, seja você de qualquer orientação sexual, essa crônica é para você, para todxs nós. Infelizmente nós costumamos imaginar que esses estereótipos de submissão e fraqueza nas imagens femininas são coisas do passado, mas quem dera conhecer a fundo a sociedade como ela realmente é. 

Pesquisa do Instituto Datafolha, divulgada em setembro, mostra que 30% dos homens brasileiros acreditam que mulheres que usam roupas que mostram seu corpo não podem reclamar de violências sexuais como o estupro. Ou seja: um em cada três homens pensam que você, mulher, pode ser estuprada por usar uma roupa curta demais.

Quem são essas pessoas? São nossos pais, irmãos, amigos, filhos, namorados, tios, professores, médicos, políticos. São pessoas que estão do meu lado nesse exato momento e que, de algum modo, pensam que uma violência tão forte como o estupro é culpa da vítima.

Eu, mulher, não vou me amedrontar quando sei que um homem me olha apenas como uma peça de carne enquanto uso uma roupa que quero? Não vou sentir medo de andar na rua sabendo disso? Não vou me julgar por andar com roupas mais curtas? É claro que vou. É um instinto de sobrevivência ficar com medo quando tem uma força maior te pressionando a agir de um modo que você não quer.

Mas também existe a resistência. Sim, existe a possibilidade de não seguir os padrões estabelecidos pela sociedade. E, enquanto sigo com vigor na minha resistência, sou chamada de puta, revoltada, mulher que não se dá ao valor, ingênua, esquerdista – sim, existe isso até aqui -, entre outros adjetivos que buscam valor pejorativo para classificar, ou melhor, desclassificar o que é a minha verdadeira busca: a liberdade.

Cara – homem, você mesmo – imagina que chato você andar na rua e não poder usar as roupas que deseja. Ficar com medo do escuro e de algum homem, um outro ser humano, que possa surgir atrás de você em um beco escuro. Imagina sua vida sem você conseguir ser o que quer, fazer o que quer, usar o que quer, trabalhar com o que quer, sonhar com o que quer.

É por isso que lutamos, é pela liberdade. Está certo que muitas mulheres atualmente conseguem o que querem, mas existe mesmo essa liberdade quando ainda nos deparamos com resultados como esses? Onde a visão do homem sobre a mulher ainda é pensar que ela é “apenas um corpo”? Quando quase um terço dos brasileiros desmerece o outro gênero e não enxerga sua dor?

A luta feminina pela liberdade vai muito além de salários melhores e direitos iguais. A nossa luta está na busca por ser encarada como ser humano, como uma pessoa normal, que pode usar o que quer sem se importar e se amedrontar diante da sociedade. Esteja eu de vestido curto, batom vermelho, terno, lingerie, tênis, camisa, o que importa não são minhas roupas e sim a liberdade que luto para fazer o que quero, para ser o que quero.

Cara – homem, você mesmo – é por isso que sigo na minha resistência, pois é no valor da minha luta que consigo andar na rua e tento viver a minha liberdade.

Foto de capa: Brenda Santos e Paula Carvalho.