Sonhos rimados

Um artista de Ceilândia em defesa da arte popular

Flávia Pacheco e Maiza Santos

Um sorriso tímido esconde a força das cordas vocais de um jovem sonhador que se define como rapper, mas que também canta MPB. “São sinônimos”, brincou. No palco, a timidez some e o garoto franzino se revela um artista com rimas ousadas. Marquinhos Caduco, de 23 anos, é um espírito aventureiro que experimenta e se permite viver todas as facetas da arte.

É em Ceilândia que o artista Marquinhos Caduco atua como agente cultural no P Sul e movimenta a cena da cidade. Um artista completo a seu modo: não tem CD com milhares de cópias vendidas, a música dele não toca nas rádios e seu curta-metragem não lotou salas de cinema. O estrelato não é uma realidade no presente, o início da caminhada é trilhado na rua do anonimato e ele sonha com a valorização de sua arte e o dia em que ela seja seu único sustento.

Compositor desde muito jovem, sua inspiração vem de tudo que vê de forma espontânea. Segundo ele, quando tenta procurar em lugares específicos, não encontra, “às vezes, estou no ônibus e, casualmente, a inspiração vem. As minhas melhores letras eu perdi, porque não tinha onde escrever”, disse.

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Foto:  Fernanda Soraggi.

Como agente cultural, Caduco organiza e participa de vários eventos na cidade. Mas, pelo menos, dois entraves são constantes na vida dele: faltam recursos e há preconceito. Após ser rotulado de “doido e vagabundo”, o artista desabafou: “A maior dificuldade é fazer com que as pessoas aceitem quem você é e lutar pelo o que quer”.

Um dos eventos organizados por Caduco é o Consciência Ritmada. “Tem sarau, batalha de rima, b-boy, skate. É a consciência em um ritmo, colocar o que você pensa em qualquer tipo de arte. Na verdade, é a junção de todos os tipos de artes, em um evento só”, afirmou.

O trabalho que faz é um sonho de infância e ele procurou especialização para desenvolvê-lo. “Queria juntar uma galera, cada um com sua arte. Mas só consegui entrar fundo nessa ideia em outubro de 2014. Eu estava trabalhando e apareceu um curso de produção de eventos, em ocupação de espaço público. Aprendi a ocupar espaço público, sem ter problema com polícia e vara da infância”, disse.

No P Norte, um outro espaço de expressão une as diferentes tribos urbanas cujo elo são o apreço pela arte e a necessidade de expressão e representatividade. Às terças-feiras, sempre às 19h00, na Praça da Bíblia, o local vira palco para poetas que protestam em forma de versos, no “Sarau-Va”.

Ao definir o trabalho que faz, Caduco reagiu: “Muita gente pensa que as ‘batalhas’ são xingamentos e que as pessoas vão lá para ofender uma à outra. Mas, não, essas batalhas existem para todos trocarem conhecimento. É uma reunião de ideologia”.

Assim, determinado, em 2015, Caduco foi protagonista do curta-metragem Faz seu corre, produzido em Ceilândia e exibido no Festival de Cinema de Brasília. A produção é um de seus maiores orgulhos. O filme narra o dilema de um jovem que precisa ajudar a mãe a pagar a dívida do aluguel para não ser despejada. 

Foto de capa: Fernanda Soraggi