O patrão e a empregada

 

A relação nas “casas de família” e o reconhecimento da profissão  

Marina Braúna e Mylena Tiodósio

Em vigor há três anos e meio, a PEC das Domésticas, que estabelece jornada máxima de 44 horas semanais e 8 horas diárias com o pagamento de hora extra, adicional noturno, seguro-desemprego e Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), ainda é um universo à parte para 20% das empregadas que trabalham informalmente no país. Como contrapartida, muitas vezes o que surge é uma “relação familiar” entre as profissionais e as casas para as quais trabalham. Relação que mistura afeto e abusos. 

Mas os vínculos entre empregadas domésticas e patrões se sustentam em uma linha tênue e, em alguns casos passa de “laço familiar” à situações de conflito intenso – de abusos e agressões. As histórias são as mais variadas com relatos de ofensas e também de dramas que perpassam gerações. Nesta última reportagem da série sobre a vida das domésticas, este é o tema: a relação entre elas e as famílias para as quais trabalham.

Por que será que muitas vezes são tratadas como “pessoa da família” sob o argumento do respeito e carinho, enquanto em outras casas a violência – seja moral ou psicológica – é recorrente? Nas duas matérias anteriores desta série, tratamos dos abusos cometidos contra as empregadas domésticas brasileiras e da relação que há entre essa profissão e o período colonial brasileiro.

Relatos

Maria Luisa Ferreira, 48 anos, é um exemplo clássico do drama de quem vive em dois universos opostos. Ela trabalha na mesma casa há 17 anos e sente-se como uma “profissional apenas” diferentemente do que viveu no passado, quando era tratada como filha pelos patrões. “Na família que eu trabalhava antes, considerava meus patrões como pais. A patroa era muito simples e até se preocupava comigo quando eu saía aos finais de semana”, disse.

Já na casa da família onde está atualmente, sente-se totalmente diferente. “Na casa onde estou agora a relação é mais profissional. Não temos tanta intimidade, mas os patrões me permitem fazer certos acordos, como chegar mais tarde e sair mais cedo”, afirmou.

Há 30 anos trabalhando na mesma casa, Maria de Fátima Souza, 50 anos, começou como faxineira e babá da filha da patroa e, depois passou a ajudar a cuidar dos netos da patroa, de 7 e 2 anos. De tão presente na criação das crianças, é comum que ela leve as duas crianças para casa em feriados prolongados para passar mais tempo com as meninas.

Após trabalhar por 28 anos para uma mesma família, a terceira das Marias, Maria José Juvêncio, 57 anos, saiu desta casa, mas ainda mantém uma relação de amizade com seus ex-patrões. Ela conta que nem sempre foi assim. “Já brigamos muito. Fiquei seis anos sem falar com eles. Fizemos as pazes e hoje somos amigos. Eles me ajudam em tudo o que eu preciso”.

Mudanças

Segundo Maria José, foram os patrões que a ajudaram a ter a casa própria, a localizar a mãe e encontrá-la em outra cidade. “São coisas que eu não esqueço”, falou ela, emocionada. “Eles são padrinhos da minha filha mais velha. Eu fui babá de um dos filhos deles, que é meu dentista e não cobra nada pelos serviços.”

Uma das alternativas para sanar a tal “relação familiar” nem sempre harmoniosa são as empresas nacionais Domésticas Brasil e Casa e Café, que também atendem o DF. Os portais das empresas na internet funcionam como mediadores entre quem procura emprego e quem quer contratar. Os cadastros são gratuitos para empregadas e têm custos diferenciados para domicílios e empresas. Eles oferecem qualificação por treinamento, cálculos trabalhistas, orientações para cumprimento da lei e até dicas para as entrevistas.

Assim encerramos a nossa série que tentou mostrar parte da realidade das trabalhadoras domésticas do país. Nesta terceira reportagem, detalhamos os melindres que ainda contornam essa profissão. Mostramos que a complexidade do trabalho doméstico rende discussões que não se esgotam.

Foto de capa:  Mabel Félix

Serviço:

Agências de trabalho

Domésticas Brasil – https://domesticasbrasil.com.br

Casa e Café – https://www.casaecafe.com/vagas

Direitos e deveres

E-Social – http://www.esocial.gov.br/Conheca.aspx

Doméstica Legal

https://www.domesticalegal.com.br/

Tabela do INSS

https://www.domesticalegal.com.br/utilidades/tabela-de-inss/