Resquícios históricos

Dos tempos da escravidão até os dias de hoje: o trabalho doméstico

Marina Braúna e Mylena Tiodósio

O assédio moral contra as trabalhadoras domésticas é recorrente, vez ou outra abusos vêm à tona: agressões verbais, morais ou mesmo físicas são frequentes. Mas há outras formas de violência contra essas mulheres, que nem sequer são reconhecidas como profissionais. Para esta segunda edição da série sobre empregadas domésticas, conversamos com especialistas para compreender como o passado reflete nos dias atuais por meio da história.  

Foi necessário ir ao período do Brasil colônia, compreender o processo gradual de libertação dos escravos, momento em que principalmente as mulheres foram obrigadas a exercer  o trabalho doméstico, para chegar ao século 21. Os resquícios desse período se perpetuam, por exemplo, com a manutenção do estilo da arquitetura colonial até os dias de hoje: casas projetadas, a pedido dos patrões, nas quais existem cômodos com proporções reduzidas ou ambientes separados para os domésticos – sempre em segundo plano.

Cercada por abusos e violações de direitos básicos, essa classe de trabalhadores formada por 5,9 milhões de mulheres, em sua maioria negras, passou a buscar sua estruturação formal apenas no final do século 21. A primeira grande mudança é de mentalidade ao expor as violências escondidas e os abusos sofridos nas “casas de família”.

image
Segundo a reportagem da série Domésticas trata das questões históricas que ainda prendem essas profissionais ao tempo da escravidão

 

Foto: Mylena Tiodósio

FALAS:

Desvalorização do trabalho, por Lorena Telles:

“Esse tipo de serviço é visto como de menor prestígio social por ser manual e majoritariamente feminino. Na verdade, o emprego doméstico deve ser valorizado porque é  necessário, exige muitos conhecimentos e tem a ver com o bem estar e a saúde dos empregadores. A valorização desse trabalho só pode vir junto com uma transformação social e cultural do machismo e do racismo”.

Lorena é doutoranda e mestre em História Social e graduada em História pela Universidade de São Paulo. Escreveu o livro “Libertas entre Sobrados: Mulheres negras e o trabalho doméstico em São Paulo (1880-1920)”

Escravidão perpetuada, por Ramatis Jacino:

“O trabalho doméstico foi uma das poucas opções de trabalho para mulheres negras ao final do período legal da escravidão. Essa função foi, ainda, utilizada como forma disfarçada de perpetuar a escravidão, uma vez que algumas famílias brancas tinham por hábito “adotar” meninas negras que, na verdade, viviam na condição de trabalhadoras domésticas escravizadas”.

Ramatis é doutor em história econômica e pesquisador da Universidade de São Paulo. Escreveu a tese “O negro no mercado de trabalho em São Paulo pós-abolição(1912-1920)

Arquitetura e preconceito, por Stephanie Ribeiro:

“A minha vivência como estudante me levou a querer saber onde estavam os negros na arquitetura.  O meu grande alento veio com “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus, que discute o direito à cidade na sua narrativa. Precisamos de pessoas discutindo cidade, estética, urbanismo e espaço sendo negras. A arquitetura e o urbanismo ainda são muito racistas e a cidades e suas construções refletem isso.

Stephanie é estudante de Arquitetura e Urbanismo na PUC Campinas, escritora e ativista feminista negra.