Negócio de criança

A ascensão do cenário empreendedor não influencia só os adultos

Marina Raissa

Quem disse que para criar o próprio negócio é preciso ser adulto? Basta ser destemido em meio ao contexto econômico e ter ideias criativas e eficientes. Daí para frente é tentar executar e ver os resultados. Para seguir adiante com os sonhos e planos, basta coragem e vontade de tirar do papel o que foi programado. 

Perguntar a uma criança o que ela quer ser quando crescer é estar disposto a ouvir um punhado de ideias – bombeiro, astronauta, médico, artista ou atleta, afinal a imaginação da criançada flui. Mas não é raro encontrar casos em que o sonho vira realidade.

O estudante Pedro Henrique Melato, 21 anos, é fascinado por carros desde criança. Nem se lembra quando começou a admiração, mas coleciona miniaturas e, desde muito cedo, gostava de desenhar o dia inteiro. Também insistia para a mãe que comprasse as revistas com carros na capa – revistas que, muitas vezes, não entendia o conteúdo, mas só os veículos já o atraíam.

Atualmente, Melato faz o sexto semestre de Engenharia Automotiva na Universidade de Brasília (UnB) e se diz animado ao perceber que está cada vez mais perto de realizar o sonho de infância. “Conheci a graduação em automotiva e me apaixonei. Agora, pretendo seguir o sonho de trabalhar em uma montadora grande, de preferência fora do país. Quem sabe, no futuro, terei meu próprio negócio”, relatou o estudante.

Comprovação dos dados

De acordo com dados da pesquisa mais recente feita pela Global Entrepreneurship Monitor (GEM), realizada em 2015 em parceria com o Sebrae, a taxa de empreendedorismo no Brasil foi de 39,9%, o maior número em quase duas décadas. O cenário empreendedor está em alta e a conjuntura está a favor daqueles que têm uma ideia e se dispõem a alcançá-la sem olhar para trás, gerando incentivo dentro do mercado. E esses corajosos empresários nem sempre são só gente grande.

É comum que muitas mães, ao saberem das ideias empreendedoras dos filhos, se preocupem com a possível interferência do novo “negócio” na vida social da criança. Mas nem sempre essa intercessão é um mau sinal.  A psicóloga Suelen Souza defende o viés otimista em relação às iniciativas infantis. “A habilidade de empreendedorismo, quando estimulada desde cedo, treina comportamentos sociais importantes na criança, aumentando a capacidade de criar soluções, lidar com problemas e incentivar habilidades como criatividade, iniciativa, responsabilidade e liderança”, disse.

Souza também defendeu a inserção desse tema na esfera escolar, que é uma preocupação constante dos pais. “A iniciativa do empreendedorismo infantil pode ser um bom caminho para inserir de forma lúdica os assuntos das matérias escolares.  Uma dica é iniciar as habilidades empreendedoras através de atividades sem valores monetários, como trocar gibis e figurinhas”.

O pequeno João Gonçalves, 8 anos, é um exemplo de quem conta com o apoio da família. Só este ano, ele fabricou pulseiras de elástico, aprendeu a fazer doces de leite ninho e insistiu com os pais “que tinha de vender” os itens na escola. Por conta própria, resolveu fazer uma parceria com uma amiguinha. Por iniciativa dele, a amiga Ana Luiza Carvalho faria as pulseiras e ele, os doces.

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O pequeno João resolveu vender doces para ganhar dinheiro

João e Ana Luiza chegaram a vender os produtos, mas desistiram de tocar o negócio. O garoto acabou desanimando: “A gente não ganhou muito dinheiro”. A mãe Célia Maria Gonçalves aprovou a ideia. “Foi algo que surgiu dele”, afirmou. Embora tenha ficado triste pelo garoto não ter ido adiante com seu projeto, ela disse que não quis interferir ou pedir que ele continuasse já que o esquema poderia desviar a atenção nos estudos.

Foto: Renata Nagashima.