Raízes do Brasil: um ‘senhor’ de 80 anos

O clássico é tão atual que se mantém como referência

Fernanda Sá

Nas artes, é comum determinado produto cultural levar o selo de ‘clássico’, seja no cinema, no teatro e na literatura. Os clássicos sobrevivem ao tempo, marcam épocas e são relembrados com admiração ou são alvos de duras críticas. O filósofo alemão Theodor Adorno dizia que não era por acaso que os nazistas tentavam substituir o termo “crítica” por “contemplação da arte”, como uma forma alienável de apreciar uma obra. Nesse contexto, de contemplações e críticas que o clássico livro Raízes do Brasil, do historiador Sérgio Buarque de Holanda, completa 80 anos do seu lançamento e ainda se mantém como referência pelas gerações, sem perder seu valor.

Publicada em 1936, a obra foi o grande trabalho da carreira do historiador, que durante a vida se debruçou no tema da colonização da América, principalmente a portuguesa. Raízes do Brasil aborda aspectos primordiais e característicos da formação generalizada do povo brasileiro, levando em consideração todo legado subjetivo deixado pela colonização portuguesa e busca descortinar valores sociais pré-estabelecidos.

Para o historiador e pesquisador AdrianoYamaoka, a obra é importante no campo literário e acadêmico. “Recorro a um conceito amplo do termo ‘obra’, sendo acadêmica, literária ou artística, ela decorre em boa medida de sua relação com seu tempo, o contexto. Raízes do Brasil leva em consideração as particularidades da nossa colonização e da forma de organização da sociedade naquele tempo, desviando de interpretações raciais e eugênicas, muito presentes nesse período”, afirmou. Para ele, a importância desta obra se dá por fazer parte da primeira geração de acadêmicos brasileiros que pensaram o Brasil no pós-revolução de 30 e por guardar influências históricas, acadêmicas e conceituais na produção de intelectual brasileira.

Homem cordial

Com riqueza de detalhes, o autor retrata desde a exploração africana, já antes conhecida pelos portugueses até os elementos constituintes de uma democracia, no qual ele dizia que com as características passíveis do povo brasileiro, jamais chegaria numa revolução para transformação do país. No capítulo de maior relevância de sua obra “O Homem Cordial”, Sérgio Buarque de Holanda sintetiza uma das grandes características do povo brasileiro, a herança cultural ‘cordial’. Nela, o pesquisador justifica a dificuldade da distinção entre público e privado, uma vez que faz parte do brasileiro o estilo paternalista e afetuoso. Esse termo acarretou diferentes interpretações entre historiadores e acadêmicos, que fez o autor, ainda em vida, alterar e justificar melhor a característica dada.

Para o pesquisador Yamaoka, o conceito de ‘homem cordial’ foi mal interpretado durante muitos anos devido à acepção positiva da palavra “Cordial neste sentido se referia ao domínio das paixões do que do racional. No contexto da obra, o ‘homem cordial’ se caracteriza por uma maior valoração dos laços familiares e do comportamento de caráter afetivo nas relações interpessoais em detrimento da individualidade”, analisou ele.

Para Yamaoka, o termo aplicado pelo autor reflete os momentos políticos atuais, “Na política isso se manifesta num patrimonialismo onde o limite do público e do privado fica comprometido e o chamado ‘jeitinho brasileiro e a nossa política patrimonialista seriam uma consequência da ação do homem cordial na esfera pública” afirmou.

Edição crítica

Para ampliar o debate e comemorar os 80 anos da obra, o pesquisador Pedro Meira Monteiro e a historiadora Lilian Moritz Schwarcz, da Universidade de São Paulo, organizaram o livro “Raízes do Brasil – Edição Crítica” pela editora Companhia das Letras. O volume traz a última versão escrita por Sérgio Buarque de Holanda com nova introdução e posfácios especiais, com a participação de nove especialistas.

Foto destaque: Camila Sousa.