Qualquer estrada que eu possa levar a fé

Paróquia celebra missa para motociclistas

Gilvanete Costa e André Baioff

A Paróquia São José, no setor residencial Lúcio Costa, no Guará, é uma típica Igreja Católica: da entrada é possível ver o altar com santos, velas e castiçais e ainda há a presença constante de “senhorinhas” que acompanham assiduamente as missas. Mas nas últimas segundas-feiras do mês tudo muda: a igreja é “invadida” por motocicletas que com o ronco de seus escapamentos quebram a rotina suave e pacífica do local. A celebração é chamada “Moto Missa” que reúne moto clubes e motociclistas do Distrito Federal.

Os adeptos do motociclismo mantêm o estilo mesmo durante a missa. Homens e mulheres participam da celebração usando coletes e levam a mão os capacetes. A comunidade da igreja não estranha a presença dessas pessoas por lá.

Durante a “Moto Missa”, em um determinado momento, o padre Olmer Garcia pede para que os presentes levem os capacetes para o altar para a bênção. De acordo com os motociclistas, o gesto dá uma segurança espiritual a essas pessoas. “A celebração da missa é comum. A não ser quando eles tiram os capacetes e colocam na parte do presbitério, e depois eles trazem alimentos não perecíveis que são doados para a paróquia que os doa para famílias necessitadas”, disse o padre.

Sônia Maria Sousa, a presidente do moto clube Centuriões da Paz MC, disse que é a oportunidade dos moto clubes e motociclistas se encontrarem pelo menos uma vez ao mês. Nesse encontro, há pelo menos 50 motociclistas que participam da missa.

“É uma forma de louvar, agradecer e pedir. Também de unir os motociclistas porque a proposta do moto clube Centuriões da Paz, por ter essa palavra ‘paz’ é justamente para unir as pessoas, não se importando o tipo de moto, o brasão do colete e muito menos a sua condição social”, disse Sônia Maria.

A presidente do moto clube elogiou a recepção da paróquia aos motociclistas. “Sempre fomos muito bem recebidos. Na Paróquia São José, o padre Olmer nos recebe sempre de braços abertos. Eles são muito cordiais conosco, mesmo muitas pessoas nos vendo como bagunceiros, as pessoas daqui sabem que não é verdade”, ponderou.

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Foto: Paula Carvalho.

Gênesis

Sônia Maria Sousa é quem organiza o “Moto Missa” e ela contou que, após algumas viagens viu que havia esse tipo de celebração em outros locais e trouxe há um ano essa ideia para a capital federal. “Eu venho trabalhando essa ideia há muito tempo. Como a gente está nas estradas, a gente viu que tem esse tipo de missa em outros estados, aí eu resolvi trazer para Brasília. E há um ano trouxemos para cá”, disse.

Na busca por uma paróquia que aceitasse o grupo, Sônia disse terem encontrado a Imaculada Conceição, em Vicente Pires, mas o local não era favorável para todos. “Estávamos na paróquia Imaculada Conceição, em Vicente Pires. O padre era muito amável, éramos muito bem recebido, mas, era muito complicado o endereço. O horário da missa também complicava que era às 19h, dificultando para as pessoas que saem do serviço às 18h chegar até lá”, relembrou ela.

Em decorrência desses empecilhos, os motociclistas procuraram outra comunidade. Foi aí que encontraram a São José. O padre Olmer García disse que gosta da presença do grupo. “Quando eles vêm para cá, eles vêm com o espírito de oração. O comportamento é muito tranquilo com muito respeito e até vejo que eles ficam em fé e oração. Sempre muito comportados e com muito respeito com a igreja e, por sua vez, a igreja com eles. A acolhida foi 100%”, observou o religioso.

Vida e fé

Os motociclistas contam que a paixão pelo ronco dos motores vem desde cedo. Segundo eles, é como uma mágica que hipnotiza. “A paixão já tem um tempo, surgiu quando fiz uma viagem para Campos do Jordão. Lá, eu vi uma porção de motos com aqueles roncos e aqueles barulhos, aquilo me enlouqueceu e me fez apaixonar por aquilo”, contou ela, que disse em seguida comprou uma moto para o filho e depois para ela.

Ana Paula Araújo é dona de casa e casada com o Henrique Araújo. Juntos, eles fundaram o moto clube Lobo Negro MC. “A partir do momento que saímos de casa e que colocamos a moto para fora, a gente precisa levar Deus conosco na garupa nos protegendo sempre”, afirmou.

pca_6840Foto: Paula Carvalho.

Foto destaque: Paula Carvalho.