Pela vida com amor

Na tentativa de impedir o suicídio, esclarecer e acolher são alternativas 

Stella Fernanda Soares

Questão de saúde pública, o suicídio é um problema que afeta um número elevado de pessoas. O primeiro relatório sobre prevenção do suicídio, divulgado em 2014 pela Organização Mundial de Saúde (OMS), relata que no mundo mais de 800 mil pessoas tiram a própria vida por ano. É o equivalente a um suicídio a cada 40 segundos.  Em relação aos jovens de 15 a 29 anos, a situação é ainda mais preocupante: o suicídio é a segunda principal causa de morte nessa faixa etária. 

No Brasil, o índice de suicídio de jovens é baixo se comparado a outros países, mas o aumento desses números chama atenção.  O relatório de pesquisa “Violência Letal Contra as Crianças e Adolescentes do Brasil”, de 2015, elaborado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), constatou que de 2003 a 2013, o índice de suicídio na faixa de 9 a 19 anos aumentou de 1,9 a cada 100 mil habitantes, para 2,1.

Para a psicóloga Jullyannie de Sousa Amorim, é necessário analisar essa margem etária de acordo com o momento atual. “A gente vive em um movimento social de muito individualismo e  isolamento com consequências na saúde do indivíduo que vive e se sente cada vez mais só”, disse.

A estudante L.S, de 22 anos, que prefere não ser identificada, passou por depressão e chegou a tentar o suicídio. “No ano de 2012 foi quando eu comecei. Eu tive duas perdas importantes: da minha irmã, que morreu em 2011 e do meu irmão que saiu de casa, então eu nunca pensei que isso me influenciaria nesse momento”, contou ela.

Para L.S, buscar a compreensão ajuda no tratamento. “A partir do momento que você tem consciência daquilo, sabe a gravidade, sabe tratar o problema e abordar o assunto, faz toda diferença. Mas eu acredito que a maior força vem de você mesmo”.

Compreensão

A campanha “Setembro Amarelo”, realizada no mês passado, promoveu ações preventivas e de conscientização para alertar as pessoas sobre o suicídio. Mas, mesmo com a iniciativa, o assunto ainda é considerado como um tabu. O psicopedagogo Gilson Moura de Aguiar, voluntário do Centro de Valorização da Vida (CVV) de  Brasília e membro da  coordenação de divulgação e coordenação nacional do   Programa de Seleção de Voluntários, tem uma explicação.

“A morte é um tabu. A morte autoinfligida é um tabu ainda maior. Depois, temos dificuldades de falar sobre nossos sentimentos, pois pode parecer sinal de fraqueza. Se começarmos a falar abertamente sobre isso, esse tabu cai um dia”, observou Aguiar.

De acordo com dados da OMS, de cada dez casos suicidas, nove poderiam ser evitados.  Segundo as análises, é necessário estar em alerta, pois quem tem a intenção de tirar a própria vida pode dar sinais.

O psicopedagogo Gilson Aguiar esclareceu que na lista de sinais indicados estão as mudanças comportamentais: deixar de fazer o que dá prazer, o afastamento dos amigos, perda no rendimento escolar e profissional. Segundo ele, também são comuns o uso de expressão do tipo: “queria estar morto”, “talvez eu nem esteja mais aqui na semana que vem” e “não vou dar conta”.

A psicóloga Jullyannie Amorim explicou que é fundamental a família e os amigos fazerem o acolhimento de uma pessoa que está passando por problemas e precisa de ajuda. “É preciso ouvir e levar em consideração o que a pessoa fala. Se você conhece e tem afinidade com a pessoa, sabe quando ela está com uma tristeza que é comum e saudável do nosso cotidiano, e quando ela está com uma tristeza excessiva.”

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Foto: Paula Carvalho.

Apoio

L.S. contou que teve muito apoio do irmão nos momentos mais delicados. “Eu relatei com meu irmão o que eu estava passando e meu irmão foi uma pessoa primordial nessa melhora, nessa fase. Ele conversou com minha mãe, e eles procuraram um especialista”, disse.

Para ela, a família e os amigos são essenciais na recuperação de quem está passando por um momento difícil e tem ideias suicidas. “A família é a base de tudo e meu irmão e meus amigos foram de extrema importância, ajudaram muito”, revelou.

A psicóloga Jullyannie Amorim orientou que no momento de ajudar todos devem levar em consideração o sofrimento de quem vive momentos de aflição. “Os amigos e familiares podem ajudar no sentido de não minimizar o sofrimento da pessoa.”

Segundo a psiquiatra Daniele Oliveira, há alguns transtornos psiquiátricos que podem levar à concretização do ato. “Os transtornos mentais que mais levam ao suicídio são: a depressão e esquizofrenia, quando não tratados”, explicou.

Foto destaque: Paula Carvalho.