Mulheres tatuadoras: um desafio no universo dos homens

A arte feminina com sensibilidade e criatividade

 André Baioff e Gilvanete Costa

Dominar um mercado majoritariamente masculino, como o da tatuagem, nem sempre é tarefa fácil. Entretanto, a mulher vem se destacando nesse nicho e provando que pode navegar pelos mais distintos setores profissionais com maestria. A busca por tatuadoras mulheres vem aumentando. A resposta estaria na sensibilidade, delicadeza e no cuidado que a mulher tem ao tatuar. Há três anos, 59% dos tatuadores brasileiros eram mulheres, segundo o Censo de Tatuagens, realizado no Brasil, pela revista Superinteressante.

Mariana Aparecida da Silva, 25 anos, é dona de um estúdio de tatuagens em São Paulo, o Geek Ink. Nele, trabalham cinco mulheres e três homens. Ela define seu estilo uma mistura entre o stretchs e aquarela, já trabalhou com semirrealíssimo, mas hoje foca no colorido da arte e traços finos.  Ela conta que sua paixão pelo mundo da tatuagem vem desde a infância.

“Minha infância inteira foi ligada à arte, passei pelas faculdades de Artes Plásticas e arquitetura embora não tenha concluído nenhuma”, contou Mariana Silva.  Na adolescência, a tatuadora se encantou pela arte “body modification, expressão que em tradução livre significa mudanças ou alterações corporais. “Adquirindo segurança, comecei a tatuar profissionalmente e a me mobilizar para abrir meu próprio espaço”, completou ela.

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Foto: Arquivo Pessoal.

Preconceito

Mesmo o serviço prestado por Mariana sendo de alta qualidade e o estúdio ter um movimento grande de clientes, a artista fala sobre os episódios diários de preconceitos que enfrenta.  As atitudes discriminatórias envolvem questões de gênero, profissão e raça.  “A gente recebe olhares tortos e ouve as risadinhas. Sem falar da quantidade de pessoas que entram na minha loja procurando meu parceiro para falar sobre tatuagem e fazem cara de espanto quando apontam para mim como tatuadora”, contou.

A profissional disse ainda que perdeu diversos fregueses quando eles descobriram que ela é  que faria a tatuagem. “Já houve situação de pessoas que desistiram de fazer orçamento ou conversar ao saber que eu era a tatuadora. É triste”, lamentou Mariana Silva.

Formada em educação física Camila Corrêa, 31 anos, chegou a trabalhar na área por quatro anos e assim que seu contrato de trabalho acabou, decidiu investir na sua paixão antiga e montou um estúdio de tatuagem. A habilidade de Camila para esse tipo de arte vem desde os tempos de escola. “Sempre tive paixão por desenhar, isso começou quando eu ainda era criança, desenhava em qualquer papel, e quando não tinha, desenhava com canetinha no meu próprio corpo e no corpo dos meus coleguinhas”.

Lembrando dos tempos de criança, Camila contou que sua mãe  foi chamada na escola onde estudava algumas vezes.  “Segundo a professora, eu estava apresentando comportamentos estranhos [risos] e minha mãe disse que eu gostava de desenhar, que fazia isso o tempo todo em casa e cheguei a dizer nessa época que queria ser tatuadora”, lembrou a artista.

img_6338-1Foto: Gilvanete Costa.

Segundo Camila Corrêa, a procura pelos seus serviços é bem dividido entre homens e mulheres embora o público feminino seja maioria quando a tatuagem escolhida exige delicadeza e rapidez. Mesmo com todo profissionalismo, a artista enfrenta desafios diários para se manter firme nesse espaço, antes, dito masculino. “Até hoje ainda sofro por parte dos clientes, na maioria homens, como eles gostam de tatuagens grandes, aí me perguntam se consigo fazer determinado desenho ou estilo, e mesmo eu mostrando tatuagens semelhantes que já fiz, existe esse questionamento”, relatou ela.

img_Foto: André Baioff.

A paulista Fernanda Dias Rangel tem 22 anos e é formada em artes, porém  antes de tornar-se tatuadora, trabalhava em uma área totalmente diferente, era supervisora de atendimento. Mas confessa  que “ na  verdade, sempre quis ser tatuadora , desde adolescente”.  Mas, seu desejo só se realizou aos 18. “Foi quando criei coragem para entrar na área”.  Apesar de garantir nunca ter sido tratada mal pelos clientes, Fernanda reconhece que o mercado é difícil e surpreendente. “As pessoas estranham uma mulher ser tatuadora e muitas vezes perguntam se tem um homem que faça o trabalho”. Questionada sobre a relação e receptividade dos fregueses, ela é enfática. “Apenas estranham pela  profissão ter mulheres, mas depois aceitam e sempre voltam, uns até falam que somos mais delicadas e que os trabalhos ficam mais perfeitos”.

Hoje, Fernanda Rangel está bem colocada no mercado, tem  trabalho fixo, mas relembra que não foi fácil conquistar esse espaço. “Tem estúdios que já fiz entrevista, que falaram que não era coisa pra mim, que era pra eu procurar outra coisa ou simplesmente preferiram contratar um homem que tinha um trabalho inferior, porém, era homem. Eu lido com isso lutando, mostrando em cada trabalho que posso ser melhor e sempre buscando evoluir, independente dos outros, acho que todas deveríamos fazer isso”, complementou a jovem.

O caso de Thais da Silva Anastácio ou simplesmente Candylust, 31, foi bem diferente dos anteriores. Ela trabalhava com produção de moda num multibazar e numa loja de skate. Thais conta que nunca teve vontade de ser tatuadora e que a mudança de profissão e de campo de atuação se deu por acaso. “Não pensava em ser tatuadora e apenas trabalhar com arte, mas de repente tava tatuando”.

Entretanto, Candylust revela que o que a levou pelos caminhos da arte sobre a pele humana foi o fato de sempre estar ligada a arte, desenhos e pinturas. “Na adolescência buscava meu eu, absurdamente descobri a tattoo e a paixão foi só aumentando, quando comecei a tatuar já tinha muitas tattoos na minha pele, já tinha virado paixão, só não pensava em tatuar por questão de capacitação, mas ainda bem q tive um mestre que acreditou muito em mim, como ninguém na vida tinha feito antes”.  Sobre os casos de preconceitos, Thais fala que a questão racial fala mais alto do que  o gênero. “As vezes sofro mais preconceito por tatuar pele preta e ser preta do que de ser mulher”, afirmou.

img_6226Foto: Gilvanete Costa.

Prestes a se formar em enfermagem, Luciany Pavani de Sousa,22, é uma multiprofissional, e a apenas um mês que ela começou a exercer a profissão de tatuadora. Antes disso, a estudante era bodypiercing em um estúdio de tatuagens. Percebendo que havia muita procura de clientes por tatuadoras, a jovem viu uma oportunidade para investir nesse ramo, decidiu se qualificar e unir o útil ao agradável. “O Gringo (tatuador e dono do estúdio), me ofereceu o curso de tatuador e me passou tudo o que sei como tatuadora. Hoje sou Bodypiercer e tatuadora”. Luciany Pavani não parou por aí, ela pretende se especializar e criar um estilo próprio para atender um público específico. “Estou me especializando em traços finos e delicados para o público feminino”, disse a jovem tatuadora.

 Amor e Sensibilidade 

Para a analista Contábil Patrícia da Silva Batista, a Patti Green, de 25 anos, uma mulher tatuadora faz a diferença. Ela tem oito tatuagens, das quais duas foram feitas por mulheres. “Hoje faço questão de inicialmente procurar por uma mulher para me tatuar”, confessou Patti, que já tatuou com homem. Para ela, a diferença está no tratamento dispensando pelas mulheres tatuadoras. “A mulher tem uma atenção diferente, um cuidado diferente, e realmente se preocupa se você está gostando. Uma sensibilidade a mais. Até hoje só conheci mulheres que fazem as coisas com amor. E o amor deixa tudo infinita vez melhor”, concluiu.

img_6210Foto: Gilvanete Costa.

Suelen Gonçalves, estudante de 22 anos, já fez três tatuagens, todas com homens. Mas, a jovem  não parou por aí. Ela pretende fazer a quarta marca no corpo e para esta escolheu uma tatuadora. A decisão, segundo ela, é porque a mulher tem uma maneira particular de trabalhar. “A tatuagem que eu quero é bem meiga e detalhada. Uma mulher tem uma pegada assim, que deixa a tattoo bem fofinha”, destacou a jovem.

Contexto histórico

A tatuagem surgiu há mais de três mil anos. A pintura corporal era usada para identificar pessoas que faziam parte do mesmo grupo ou tribo. Mas, com a modernidade essa forma de expressão artística exposta no próprio corpo foi marginalizada.  Já no Brasil, a arte demorou a chegar, só ocorreu na década de 60.

Foto destaque: Gilvanete Costa.