A noite do Dulcina

Um lugar onde o subsolo do teatro se transforma em palco de festas

Tarcila Rezende

Desde março deste ano, o subsolo do teatro da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes atrai os brasilienses ao Conic, no Setor de Diversões Sul, para festas que geralmente tem entrada gratuita. Intitulado de “Sub Dulcina”, o local abriga diversas festas undergrounds da capital, em um ambiente peculiar para os que estão acostumados com lounges e globos de luz. 

O “Sub Dulcina” chama atenção por sua decoração: paredes pichadas, bancos de madeirite, pouca luz e vários ambientes integram o local. Tudo isso no subsolo do Teatro da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, um legado da atriz, diretora e produtora de teatro Dulcina de Moraes, considerada uma das maiores intérpretes da dramaturgia brasileira.

O idealizador do projeto Sub Dulcina, Carlos Eduardo Guimarães – Kaká Guimarães – contou que o ponto fundamental da revitalização do subsolo é trabalhar para que a Fundação Dulcina possa pagar suas dívidas e retomar o projeto de ser indicada para o patrimônio imaterial de Brasília. “É um descaso muito grande o abandono que o local sofreu, não só o Dulcina, mas o centro [Setor de Diversões Sul] como um todo”, disse Kaká.

No ano passado, a Fundação Brasileira de Teatro (FTB) convidou a produtora de Kaká para projetar a revitalização dos espaços abandonados dos prédios da fundação, entre eles o Teatro Dulcina, a Galeria de Arte e o subsolo do prédio onde fica a sala Conchita de Moraes.

“Após pensarmos em toda a parte de adequação do local as normas e legislações vigentes, decidimos por limpar e pintar o lugar, e criar um conceito com a cara do Conic e da cultura alternativa da cidade”, afirmou o idealizador do projeto.

Com o dinheiro arrecadado nas festas os organizadores firmaram o compromisso de contribuir com a conta de luz, pagar todas as taxas e alvarás. Além disso, eles recuperaram e ampliaram os banheiros do complexo para dar mais conforto ao público.

Uma das festas mais tradicionais do projeto, é a Traxx. Segundo o DJ e produtor da festa, Gustavo Ribeiro, o Foka, desde o início a produção fez a Traxx no subsolo do Teatro. “Estávamos com um projeto de fazer um evento com uma proposta mais real e underground, que fosse acessível e satisfatória. Sem ser festa copo na mão sabe? “ disse Foka.

“O lugar é alternativo e tem similaridades com clubes de Berlin e outros países que têm uma cultura underground muito forte. Acho que não existe lugar melhor para se realizar eventos desse tipo”, afirmou o DJ.

Quem frequenta o local afirma que o espaço é diferente dos outros de Brasília, o que não deixa de ser mais democrático, abrigando todos os estilos e pessoas. A estudante Natasha Magalhães mora em Taguatinga e começou a frequentar o Conic por causas das festas que acontecem no Dulcina, “A estrutura não é o que consideramos comum, o que torna mais atrativo para mim. É um lugar que comporta estilos diferentes e de fácil acesso para todos os gostos”, afirmou Natasha.

Além de recuperar o complexo cultural e as instalações do prédio, os cultivadores do subsolo dizem que também desejam atrair mais gente para o Dulcina e o Conic. “O local é acessível à todas as cidades do Distrito Federal, pois fica ao lado da rodoviária, o que contempla pela afinidade cultural e não por segmentação econômica”, concluiu o idealizador do projeto do Sub Dulcina.

Depois da revitalização do local, Natasha Magalhães reconhece a importância de tornar o local mais atrativo para que a cultura do local seja preservada e ampliada. “Brasília é uma cidade silenciosa à noite, e muitas vezes faltam opções de entretenimento, é importante para que ao invés de silenciarmos mais a cidade, espaços assim sejam reconhecidos e prestigiados culturalmente, e assim crescendo e tomando espaço para o maior desenvolvimento do Setor de Diversões”, disse ela.

História

Nos anos 70, com projeto de Oscar Niemeyer, Dulcina de Moraes (1908-1996) inaugurou o teatro e uma das primeiras faculdades de artes do país. Teatro e faculdade foram inaugurados com o nome da atriz.

A Fundação Brasileira de Teatro (FTB) é responsável pela manutenção e funcionamento da faculdade, que passou por diversas dificuldades financeiras, como poucas verbas para investimento, o que resultou o não pagamento dos salários dos professores, má conservação dos espaços e teve até a energia cortada pela CEB.

Foto destaque: Divulgação.