Sou gay… E sou cristão!

Uma igreja que abre as portas para comunidade LGBT

André Baioff

Na entrada da igreja evangélica Vivo Por Ti, em Samambaia, há grafites, fotografias e desenhos nas paredes pintadas de preto. Com as luzes apagadas, uma banda de música anuncia o início do culto. É assim que o pastor Anderson Silva ,35 anos, atrai um público que até então era marginalizado: gays, lésbicas, bissexuais travestis, transexuais e transgêneros.

“Encontrar-se consigo mesmo ao ter um encontro com o Arquiteto Criador. Com Deus, somos quem deveríamos ser. Objetivamente é o que penso ser o motivo essencial da religião”, pondera o pastor Anderson. Assim o fundador Vivo Por Ti aumenta seu rebanho a cada semana. Pelos cálculos dele, já são 320 fieis. Pessoas vindas das mais diferentes áreas do Distrito Federal e que encontraram na igreja Vivo Por Ti um lugar de apoio e refúgio espiritual. O público majoritariamente jovem que participa dos cultos celebrados em um galpão adaptado e capaz de receber um grande número de pessoas.

pca_6698Foto: Paula Carvalho

Fundação

O pastor Anderson Silva foge do padrão tradicional e convencional dos líderes religiosos: tem tatuagens pelo corpo (inclusive no rosto) e não se veste de maneira conservadora. Anderson nasceu em Maceió e veio para Brasília há 18 anos. É casado com Keila Silva e juntos são pais de três filhos, um deles com autismo. Há 16 anos, tornou-se cristão e há 12 iniciou um ministério evangelístico chamado MUC – Missões Urbanas e Contracultura. Esse ministério realizou grandes eventos entre as tribos urbanas do DF.

Em 2009, após decidir sair de uma igreja para poder formar outros conceitos da MUC,  deu início a Igreja Vivo por Ti, nas escadarias do Conic, ficando por lá durante três anos. Nesse começo, a igreja tinha um apelo tribal, cultural e alternativo, porém, após transferi-la para o centro de Taguatinga, a Vivo Por Ti deixou de ter esse apelo e seguiu com um conceito mais familiar, para que unissem os mais diversos estilos e pessoas.

A igreja continuou como nos princípios da MUC com a intenção de permitir que as pessoas se sintam livres para se expressarem como queiram e não queriam, sem censuras. E, há um ano e meio, a Vivo Por Ti decidiu inserir a comunidade LGBT nas atividades da igreja, após um amigo próximo e discípulo do pastor assumir sua homossexualidade, mesmo tendo que enfrentar as complexidades do tema. “Há 6 anos descobrimos que um amigo e discípulo nosso era homossexual. Ele é uma pessoa extraordinária. A partir de então, começamos a perceber que haviam muitas pessoas de nosso círculo íntimo que eram. Minha casa sempre foi um refúgio amigo e religioso para esses irmãos, mas devido à complexidade religiosa que envolve o tema, apenas há um ano e meio preparamos teológica/emocionalmente a congregação para recebe-los sem censura”, afirmou o pastor Anderson.

Nesse período, Anderson realizou um culto e convidou os homossexuais para que se sentisse confortáveis e participassem da tradicional cerimônia de lava-pés. O fato espantou alguns frequentadores que resolveram sair. “Perdemos relacionamento com cerca de 50 irmãos, dentre eles muitos líderes de nossa comunidade de fé. Hoje, somos felizes por nossos irmãos viverem sem distinção em nossa congregação. Foi um trabalho árduo.”, relatou o pastor.

O esforço do pastor nem sempre recebeu retorno de outros evangélicos, ele contou que houve hostilidade e resistência. “Perdi muitos amigos pastores, muitas igrejas romperam relacionamento conosco. Por outro lado, passamos a incentivar muitas outras igrejas a saírem da zona de conforto e amar a própria reputação. Acredito que para amar, você precisa estar disposto a não ser amado por todos”, explicou.

pastor-anderson-silva-1Foto: arquivo pessoal.

Projeto Nouwen

O jornalista Ícaro Andrade, 25 anos, conta que ficou sabendo da Vivo Por Ti no mesmo momento que conheceu seu namorado, o Everson Mariano, 20 anos, em reunião de bar com amigos e logo ficou curioso em conhecer. “Eu fiquei sabendo da igreja no dia que conheci meu atual namorado. Estávamos em um bar e ele (Everson) me disse que tanto ele como os amigos lá presentes eram da mesma Igreja. Logo, fiquei curioso em conhecer o lugar, pois achei estranho eles estarem em um lugar não muito comum para cristãos, no caso o bar. Após isso, descobri que na Igreja havia um trabalho (encontro), voltado para os homossexuais, chamado Nouwen, fiquei mais curioso ainda”, apontou Ícaro.

O Nouwen é um projeto criado pelo próprio pastor Anderson, voltado para a comunidade LGBT, a fim de trazer a conexão entre essas pessoas e a igreja. O projeto é coordenado pelo professor Guilherme Sousa, 28, que diz que em igrejas tradicionais não abrem possibilidades para os homossexuais viverem como irmãos da igreja. Para que ele pudesse viver a igreja, o homossexual teria que abdicar da prática. “A igreja tradicional diz que o gay tem que deixar a homossexualidade para se relacionar com Deus.”, acrescenta.

dsc_0016-1  Foto: Yasmin Cruz

O marco para que o projeto fosse concretizado foi a cerimônia de lava-pés. Guilherme diz que antes da cerimônia, a ideia do projeto já estava sendo fomentado pelo pastor Anderson e que quando aconteceu este marco deu espaço para que o Nouwen fosse estabelecido. “Antes da cerimônia, o projeto já estava sendo pensado. A cerimônia do lava-pés foi que deu espaço para fosse estabelecido e apresentado para a nossa comunidade de fé”, aponta.

Guilherme e Everson, antes de frequentarem a Vivo Por Ti passaram por outras igrejas, onde tentaram deixar de ser homossexuais. “Até os meus 25 anos, eu lutei contra a minha homossexualidade, porque nesse período eu aceitava esse pensamento de deixar essa minha condição”, enfatiza Guilherme. Ícaro diz que as igrejas a qual participava faziam orações de cura e libertação para que pudesse deixar a homossexualidade, porém, ele nunca sentiu necessidade de procurar isso porque não via problema na sua condição, decidindo afastar da igreja. “Um dos motivos de ter me afastado de outras Igrejas foi justamente pela cultura de ‘libertação’ e ‘cura’”, contou o jovem.

Segundo Ícaro, a percepção dele de Deus e de religião o fez procurar alternativas que permitissem viver a sexualidade sem culpa nem pressão. “Tenho uma concepção bem diferente do que Deus é ou do que ele aceita. Acredito que ele não julga e muito menos discrimina ninguém. Minha sexualidade não será um dos critérios avaliados por ele para dizer se vou ou não para o céu”, afirmou.

De acordo com Guilherme, coordenador do Nouwen, objetivo do projeto é trazer a possibilidade de o homossexual ter a convivência de viver com Deus, já que ele foi impedido disso em outras instituições e dizer para essas pessoas que há essa possibilidade se assim elas quiserem. “A ideia do projeto e dizer que sim, elas têm acesso e podem se relacionar com Deus. O mesmo sacrifício feito por Cristo, serve tanto para os héteros quanto para os gays. Esse sacrifício foi feito para o ser humano como um todo”, ressaltou.

O Nouwen é voltado especificamente para a comunidade LGBT, para que a pessoa que for frequentar possa se sentir confortáveis e tranquilas em participar das orações, já que, segundo Guilherme “elas já foram rejeitadas antes de estarem lá. E ficam cautelosas ao serem chamadas para uma igreja evangélica”. Os encontros acontecem sempre no último sábado do mês às 20h, na própria igreja.

guilherme-sousa-coordenador-do-projeto-nouwenFoto: André Baioff.

Repressão histórica

Em Levítico capítulo 18, versículo 22, está escrito: “Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é”. Passagens bíblicas como essa são usadas por certos religiosos para condenar os  pertencentes da comunidade LGBT. Há, ainda, nações que condenam os praticantes da sodomia (relação sexual por via anal). E existem também religiões, inclusive, no Brasil que rejeitam os homossexuais.

O avanço do conhecimento e o respeito pelo próximo tem mudado interpretações e costumes. Ao ser questionado sobre a passagem bíblica, o pastor Anderson Silva deu uma aula de teologia e amor ao próximo. “A verdade bíblica temporalmente contextualizada. Mas temos que levar em conta o ‘todo bíblico’ para que não fiquemos alienados em compressões extremas. A parte ‘B’ desse versículo ordena a morte e Jesus em João 3.17 disse “que não veio destruir o homem”. Penso eu que o que Bíblia fala sobre homossexualidade não procede de uma conclusão relacional, pois não existia uma realidade social tão forte como em nossos dias. Se Jesus e os Apóstolos viessem em  nossa época, ficaria mais nítido o que Deus tem a dizer sobre o assunto, eles produziriam o que chamo de “teologia do processo”. A Bíblia não é exaustiva sobre o tema”, concluiu o pastor.

Endereço: QI 416 Cj2-Samambaia Norte, setor industrial

Site: http\\vivoporti.com/

Facebook:https://www.facebook.com/igrejavivoporti/

Projeto Nouwen

Dia: todo último sábado do mês

Horário: 20h

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