Um favor para o Planeta

Aleitamento materno reúne vantagens para o desenvolvimento sustentável

Bárbara Xavier

Há 16 anos, líderes mundiais em parceria com a Organização Nações Unidas (ONU) definiram oito metas que visam reduzir a pobreza extrema. O prazo final acabou em 31 de dezembro de 2015, deixando ainda vários desses objetivos sem cumprimento. O aleitamento materno não está entre eles, mas pode ser relacionado a todos. A Rede Internacional em Defesa do Direito de Amamentar (IBFAN) considera a prática como indispensável para a realização dessas metas. 

Na reformulação dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio, foram traçados os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e 169 metas para o período de 2016 -2030. Os ODS deverão orientar as políticas internas de cada país nos próximos quinze anos, sucedendo e atualizando os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.

Implicitamente, amamentar está presente em vários deles: enfrentar a pobreza; acabar com a fome; boa saúde e bem estar para todos; educação de qualidade; igualdade de gênero; água potável e saneamento; energia limpa; trabalho descente e crescimento econômico; indústria, inovação e infraestrutura; redução das desigualdades; cidades e comunidades seguras e sustentáveis; consumo e produção responsável; ação contra as mudanças climáticas; proteção da vida das águas; proteção dos ecossistemas terrestres; paz e justiça para todos; alianças para atingir os objetivos.

Ainda de acordo com a IBFAN, o aleitamento materno é a chave para o desenvolvimento sustentável por ser acessível, de qualidade, seguro e oportuno. O leite humano não tem custo, está próximo e disponível no tempo e quantidade adequados para bebês e crianças em qualquer situação socioeconômica.

A coordenadora-geral de Saúde da Mulher e Aleitamento Materno do Ministério da Saúde, Thereza de Lamare, relatou ao ARTEFATO que a amamentação é ambientalmente sustentável comparada a outras alternativas de alimentação. “É diferente dos leites artificiais que passam pelo processo de industrialização. O leite materno não precisa de nenhum preparo prévio, não utiliza energia, materiais para embalagem, combustível para distribuição, água e nem requer uso de produtos tóxicos para a limpeza diária de mamadeiras e afins”, disse ela.

Thereza de Lamare ainda reforçou que outras alternativas só devem ser adotadas em casos realmente necessários e sob orientação médica. “O aleitamento materno é exclusivo durante os primeiros seis meses de vida e só deve ser substituído por outras opções de alimentação quando a mulher estiver verdadeiramente impedida de amamentar”, afirmou.

aline-brito

Foto: Aline Brito.

Benefícios

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o aleitamento materno é capaz de assegurar a saúde e a sobrevivência da criança. Rico em nutrientes e responsável por fornecer toda substância necessária para o bebê, o leite da mãe é a forma mais econômica e ecológica de alimentar uma criança, além de prevenir doenças e fortalecer vínculos.

A OMS estabeleceu uma meta global para que os países consigam alcançar pelo menos 50% do aleitamento exclusivo nos primeiros seis meses até 2025 já que, atualmente, somente 35,7% dos indivíduos no mundo alcançam esse patamar.

Ao ARTEFATO, a pediatra Aline Esmeraldo Andrade afirmou que amamentar contribui ainda para evitar a desnutrição infantil e a obesidade. “O aleitamento materno é um fator de proteção tanto para desnutrição quanto para prevenção de obesidade, hipertensão arterial e desenvolvimento de doenças como a diabetes. A obesidade, em especial, é um dos grandes desafios da saúde pública, inclusive na pediatria desde os lactantes até a adolescência”, relatou.

Para Aline Andrade, que atua na área há 22 anos, a introdução precoce de alimentos sólidos, particularmente antes dos quatro meses de vida, associa-se ao aumento do ganho de peso e gordura corpórea durante a infância e esses fatores são considerados predisponentes a obesidade futura.

“A amamentação é uma forma natural e adequada de alimentar uma criança em seus primeiros meses de vida porque proporciona o crescimento e desenvolvimento fundamental do bebê. É necessário que o aleitamento seja exclusivo até o sexto mês de vida e posteriormente complementado com outros alimentos, podendo se estender até mais de dois anos”, explicou Aline Andrade.

Prolongar o período

Mãe de Helena, de dois anos e meio, e Laura, de quatro meses, Luciana Rodovalho é servidora pública, que defende a amamentação prolongada, pratica amamentação em “tandem” – quando a mãe amamenta duas crianças ao mesmo tempo – e espera que o desmame ocorra de forma natural.

“Eu escolhi não fazer o desmame. Há muita pressão, as pessoas falam que o meu leite ficou fraco e já virou água. Mas, nós somos mamíferos e é normal que todas as crias mamem e desmamem naturalmente. Não escolhi amamentação prolongada, nem em tandem, aconteceu. Se a minha filha de dois anos e meio tem essa necessidade de mamar, vai continuar”, disse.

Para a servidora, amamentar é mais do que apenas alimentar um bebê. “Nos primeiros seis meses é questão de sobrevivência, mas a amamentação vai muito além disso. Amamentar é carinho, aconchego e proximidade com a mãe. O bebê sente o calor da mãe e se sente protegido. Eu me sinto quase uma super mulher em pensar que o meu corpo está produzindo o alimento perfeito para as minhas filhas”, analisou.

Luciana Rodovalho defende a necessidade de as mães terem apoio durante a amamentação prolongada. Segundo ela, falta de apoio e informação podem prejudicar a prática e fazer com que optem pelo desmame precoce.

“Não julgue uma mãe, faça ela as escolhas que for. Dê suporte, apoio, não repreenda de amamentar em público. Tem muita mãe que quer amamentar, mas que deixa de fazê-lo não por falta de vontade, mas por não ter apoio e informação”, concluiu.

Amamentar é uma prática natural que, apesar de individual, resulta em contribuições coletivas fundamentais para o desenvolvimento sustentável da sociedade e por isso é essencial o apoio, proteção e incentivo ao aleitamento materno.