Recordar é viver

 Alternativas para qualidade de vida de pacientes com Alzheimer

 

Luiza Barros

Percebido pela primeira vez pelo psiquiatra alemão Alois Alzheimer há 100 anos, o mal de Alzheimer atinge cerca de 1,2 milhão de brasileiros, geralmente, acima dos 70 anos, segundo relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS). A demência foi identificada pelo psiquiatra na Alemanha, através de uma paciente que passou a se comportar de forma incomum, a ter crises de nervosismo, mudanças de humor constantes e perda progressiva de memória.  

A doença de Alzheimer causa danos aos sistemas cognitivos, interfere na sociabilidade e interfere no condicionamento físico do paciente. A ciência, entretanto, estuda métodos de retardar o desenvolvimento da demência por meio da utilização de drogas que previnem ou interrompem a evolução do Alzheimer. Apesar das pesquisas sobre a demência serem de maioria farmacológica, algumas associações e hospitais aderiram a técnicas que estimulam e facilitam o cotidiano do paciente, dos cuidadores, familiares e amigos. Essas técnicas ajudam os pacientes a melhorar o desempenho em atividades do dia-a-dia além de, facilitar a interação dos idosos com outras pessoas.

Eternas lembranças

O aposentado Francisco Gonçalves da Nóbrega, 80 anos, é morador do Cruzeiro Velho, e às terças e sextas-feiras acompanha a mulher Blanca Lopez da Nóbrega, 78 anos, ao Hospital Universitário de Brasília, no Centro de Referência ao Idoso, para uma sessão de coral dos pacientes com demência. Nóbrega costuma ajudar a reger o coral junto com o maestro Sérgio Kolodziey e às vezes o substitui. “Agora eu preciso é saber tocar violão, quando ele falta a gente só canta, eles se divertem mas pode ficar melhor”, afirma o aposentado.

Com repertório diversificado de canções antigas, os pacientes que frequentam as reuniões conseguem aprender as letras que não conhecem, relembram as letras que já conheciam, cantam em coro harmônico e se divertirem com as lembranças que certas canções remetem a cada passado de cada idoso.

A maioria dos pacientes é formada por mulheres que dependem dos cuidadores ou parentes para participar do coral. “A sociabilidade é muito importante, o pessoal fica isolado em casa”, afirma Francisco Nóbrega.

Interação

É como se fosse uma festa: os idosos interagem a todo o momento durante o coral, no fim das sessões, eles dão as mãos, rezam o “Pai Nosso” e se abraçam. O repertório musical é adaptado às oportunidades e ocasiões: em junho, as músicas representavam o tema de festas juninas. Em dezembro, devido as festas de fim de ano e o natal, o coral se prepara para cantar músicas natalinas. O objetivo é que os pacientes associem as músicas às lembranças.

Geriatra criador do projeto, Renato Maia, afirmou que dessa maneira os pacientes passam a ter uma noção mais clara de datas comemorativas, e em que mês exatamente eles se encontram. “A simbologia das datas comemorativas, quando são lembradas, é importante para que o paciente consiga rever lembranças e se integrar melhor, entender o motivo das pessoas ao redor estarem comemorando”, afirmou o médico.

daiane-souza_unb-agenciaFoto: Daiane Souza / UnB.

Orgulho

O grupo de canto já se apresentou no encontro de corais da Universidade de Brasília (UnB), na Eletronorte no Distrito Federal e na Escola de Cuidadores de Brasília.

Os cuidadores, que acompanham os pacientes no coral, afirmam que antes de sair de casa eles ficam relutantes, colocam dificuldades para ir até o HUB e não gostam muito da ideia de cantar. Assim que eles chegam, o humor se transforma – de ranzinza para o prazer.

A cuidadora Marta Moreira, 35 anos, que acompanha Rita de Cássia, 88 anos, afirmou que ela não gosta de sair, fica em casa lendo todos os livros da estante quando não dorme por horas. “Quando é para vir para o coral, ela detesta, faz cara feia, diz que não quer. Assim como ir para o supermercado. Só que no coral, quando ela chega não quer mais ir embora, fica até o fim. No supermercado ela passa o tempo todo reclamando para voltar”, afirmou ela.

A realidade da maioria dos pacientes que frequentam as sessões de canto, é ficar em casa com o cuidador. A relação com o cuidador é muito difícil e eles ficam zangados facilmente afinal, o profissional precisa corrigi-los e monitorá-los. Os pacientes pouco se sentem confortáveis com essa situação. Quando os cuidadores se disponibilizam a levá-los as reuniões de canto, eles se sentem mais satisfeitos.

A doença que paralisa movimentos e atinge diretamente a memória, muda por completo o cotidiano dos pacientes e de suas famílias. Rosita Sherbabiskiy, 86 anos, não consegue se locomover e depende da filha para frequentar o coral e tem ido pouco. É que a filha Fernanda Sherbabiskiy, proprietária de uma loja de cosméticos, está assoberbada e, por vezes, não consegue levar a mãe às sessões.

Em estágio avançado do Alzheimer, Arnaldo Teodorak, de 69 anos, não consegue acompanhar as canções: ele mal compreende as letras e, assim nem reproduzi-las. Mas inquieto, ele é levado para o coral como forma de distração, conta a cuidadora.
Segundo o Dr. Norton Sayeg, editor do portal AlzheimerMed, as fases finais da doença consistem em Mutismo (ausência da fala), posição fetal, perda de peso, infecções urinárias e respiratórias, dependência e imobilidade. O paciente nesta fase pode perder a capacidade da fala e de compreensão.

Mente sã

Falhas na memória e confusão mental são os sinais mais aparentes dos avanços do Alzheimer, mas pesquisadores concluíram que uma série de atividades cotidianas pode contribuir para melhorar a qualidade de vida dos pacientes. São leituras de texto, a prática do crochê e jogos dos mais diversos tipos.

O crochê é uma prática que auxilia no raciocínio dos pacientes e os deixa menos estressados, segundo o Congresso Nacional de Alzheimer – CONAZ. Assim, a arte que vem desde os tempos mais antigos no Brasil é estimulada como parte do tratamento dos pacientes que já são portadores da doença é, também, uma forma de preveni-la.

Outra alternativa é a leitura para colaborar com a cognição dos pacientes. Os resultados obtidos por meio da leitura de livros, revistas, jornais e outros meios são do exercício para a memória da interpretação e reprodução oral das letras e palavras. Os especialistas relatam que o paciente com Alzheimer, dependendo do nível da doença, esquece-se de palavras facilmente em diálogos interpessoais. A leitura para os idosos é gradual e precisa, por parte dos cuidadores, ter paciência e acompanhar os avanços do paciente.

Nudec

A página oficial do NUDEC Instituto da Memória – Núcleo de Envelhecimento Cerebral http://www.doencadealzheimer.com.br/ oferece recursos que ajudam o portador da doença e o cuidador a se manterem informados sobre maneiras de se organizar, evitar acidentes e riscos para a saúde e a segurança do paciente e, como lidar com possíveis constrangimentos causados pela a interação de outras pessoas com os idosos portadores da demência.

A casa virtual do paciente com Alzheimer é uma das plataformas desenvolvidas pelo site que ajuda o cuidador a ter mais atenção com objetos de risco aos pacientes. Além de, ajudar os pacientes a explorar locais em casa, que possa ser útil para realizar tarefas e melhorar o condicionamento físico dos idosos.