Paralimpíadas – uma lição a cada modalidade

A maior delegação brasileira faz história: 278 atletas 

Flávia Alves

Pela primeira vez, o Brasil está inscrito nas 23 modalidades dos Jogos Paralímpicos, que ocorreu de 7 a 18 de setembro, no Rio de Janeiro. A delegação brasileira participou com número recorde de participantes: são 287 atletas, 24 acompanhantes e 205 profissionais entre técnicos, responsáveis por atividades administrativas e da área de saúde. Só do Distrito Federal, são 21 representantes, 15 homens e seis mulheres disputando em nove esportes. 

A cada edição, os paratletas rompem preconceitos e mostram o esporte de alto rendimento para pessoas com deficiência. Com a equipe maior e o bom desempenho nas últimas competições, a aposta é de alcançar o 5º lugar no quadro geral de medalhas dos Jogos desse ano.

Nos Jogos Paralímpicos Rio 2016, o objetivo é conquistar mais do que o alcançado em Londres 2012 – quando o Brasil ficou na sétima colocação geral com 21 medalhas de ouro, 14 de prata e 8 de bronze, foi a melhor campanha brasileira na história. A meta é ousada, mas não foge da realidade desses talentosos esportistas, que já enfrentaram desafios muito maiores na vida.

img_2333Foto: Cristian Lisboa.


História e desafios

Os Jogos Paralímpicos foram criados em 1948, como forma de reabilitação de militares lesionados na Segunda Guerra Mundial e atualmente é o maior evento paradesportivo do mundo. O movimento paralímpico não para de crescer e nem mesmo a falta de divulgação e conhecimento sobre o paradesporto se tornaram empecilho para o Brasil, que atualmente é uma potência paralímpica, figurando entre as primeiras colocações nas disputas de esportes adaptados.

A intenção dos jogos, afirmam os organizadores, não é enfatizar as deficiências dos atletas, e sim evidenciar as suas conquistas. Para isso, existe a classificação funcional ou oftalmológica (no caso dos deficientes visuais), para equilibrar a competição de acordo com o que o atleta ainda tem de funcionalidade. Ou seja, a classificação de todas as modalidades é feita de acordo com o que o atleta é capaz e, não, o contrário.

A superação vem de todos os lados. Além dos atletas, os organizadores dos jogos e o governo precisaram se superar para tornar a cidade-sede dos jogos acessível. Transporte público que acolhe deficientes físicos e visuais (ônibus, BRT, VLT e táxis), calçadas com rampa, piso tátil e rotas acessíveis, são alguns dos projetos que foram pensados para tornar a cidade mais integrada e beneficiar os cidadãos mesmo depois do evento.

As reformas estruturais são mais um desafio a ser enfrentado para uma sociedade mais inclusiva, consciente e tolerante. O legado que se espera é de uma população que incentive e valorize o paradesporto, assim como acontece com os outros esportes.

Inspiração

Pela primeira vez, uma mulher conduziu a Bandeira do Brasil nos Jogos Paralímpicos. A escolhida é a dona de duas medalhas paralímpicas, Shirlene Coelho, campeã no lançamento de dardos – para atletas com paralisia cerebral. Ela foi escolhida em uma eleição aberta em que 287 atletas votaram. Foram 18 atletas-candidatos e Shirlene foi escolhida com 20% dos votos. A campeã de sorriso largo não é a única a inspirar exemplos.

Atleta da modalidade de adestramento paraequestre, Marcos Fernandes, 55 anos, é um dos mais experientes da delegação. Sua história de persistência começou cedo, quando começou a montar aos dez anos de idade e logo “pegou gosto”, como costuma dizer e se tornou um profissional do hipismo. Aos 24 anos, lesionou sua coluna durante um treinamento, quando o cavalo dele quebrou uma das patas e começou a rodopiar. Desde então, o atleta ficou paraplégico, mas por amor ao esporte continuou sua carreira como instrutor de equitação. Conhecido como Joca, ele foi incentivado por uma aluna a conhecer o hipismo adaptado.

img_2260Foto: Cristian Lisboa.

“Eu me lembro bem das palavras que usei na época: ‘Sem condições’, até que ela continuou insistindo e eu fui para minha primeira competição depois do acidente. Eu cheguei lá e não consegui fazer nada, isso me deixou muito chateado, foi quando eu falei para mim mesmo que precisava levar isso a sério”, contou Joca. A determinação faz parte da vida do esportista, que aposta em um bom desempenho nos jogos Rio 2016.

Já o atleta de vela adaptada Herivelton Anastácio, 31 anos, provou que a eficiência está acima da deficiência e conquistou uma vaga para disputar sua primeira paralimpíada. Lutador de boxe até os 23 anos, ele sofreu um acidente que causou uma lesão medular e por consequência a perda total dos movimentos do braço. Por intermédio do programa de reabilitação do hospital Sarah Kubitschek, descobriu que levava jeito para o esporte e se apaixonou pela modalidade desde o primeiro contato.

“Disseram que eu levava jeito para velejador, então eu comecei a treinar e já ganhei cinco primeiros lugares e um quarto lugar em competições regionais, isso no período de um ano”, lembrou o atleta, que se assustou quando percebeu sua rápida evolução dentro do esporte. Porém, ele reclama da falta de investimento ao esporte paralímpico em comparação às modalidades convencionais, considerando que o Brasil costuma liderar os quadros de medalhas das competições de esportes adaptados.

“Ambição” é a palavra que define Guilherme Marciao, o mesatenista paralímpico de 24 anos. Ele contou que sempre teve o desejo de ser um atleta profissional, mesmo depois de sofrer um atropelamento aos 14, que o deixou tetraplégico. O esporte adaptado foi apresentado a ele como forma de recuperação e depois de um ano e meio de prática, Marciao foi convocado para a seleção, se tornando o atleta de alta performance que sempre sonhou ser.

“Desde os 16 anos, eu escuto que eu sou uma promessa para as paralimpíadas do Rio. Infelizmente não consegui me classificar para os jogos de Londres e no fundo, poder participar dessa edição dos jogos foi um grande objetivo que eu consegui alcançar. Se eu mirar no meu melhor desempenho, o sucesso vai me acompanhar como se fosse uma sombra”, disse Marciao, que conta com o apoio da torcida brasileira nas provas.

Apontada como destaque do atletismo, Shirlene Coelho, nasceu prematura aos oito meses e foi diagnosticada aos cinco anos com hemiplegia – desenvolvida ainda na gestação e causa paralisia em metade do corpo. Atual recordista mundial na prova de arremesso de dardo, ela contou que desde criança foi ligada ao esporte, mas que só conheceu o esporte adaptado já adulta por meio da procura por emprego. “Nunca imaginei que poderia me levar até uma paralimpíada, mas graças a Deus já está me levando à terceira”, lembrou a multimedalhista de 35 anos.

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