O tempo livre dos idosos

DF é a segunda região com maior expectativa de vida no país

 Thaís Miranda

Com o dinheiro contado da aposentadoria, como aproveitar bem o tempo livre? É a pergunta que muitos dos que passaram dos 60 anos se fazem. Em busca de alternativas, instituições de ensino, organizações não governamentais e o governo do Distrito Federal apresentam opções de atividades esportivas e de lazer. E o melhor: tudo de graça. Basta que os interessados se inscrevam no programa desejado.

Um dos que resolveram correr atrás é o aposentado Hélio Alves de Castro, de 70 anos. Aluno do Ginástica nas Quadras, ele contou que sempre fez esportes como uma maneira de garantir mais benefícios à saúde. “É uma experiência muito salutar e oportuna. Ao praticar esporte, você irriga mais o corpo, mantém mais a forma, melhora o apetite, dorme melhor, vive bem-humorado”.

Adailde de Queiroz, de 58 anos, também não ficou para trás. Desde que se aposentou, há dois anos, a ex-bancária que sofre de pressão alta participa de vários projetos gratuitos destinados ao público de sua idade. “Tudo que é oportunidade para eu aproveitar meu tempo e ajudar a melhorar meu condicionamento físico, estou dentro. Os resultados são visíveis: sinto-me mais independente, mais útil e sem contar o quanto faz bem para os meus problemas cardíacos”.

daniel-neblinaFoto: Daniel Neblina.

Lazer e esporte

A Universidade Católica de Brasília (UCB) oferece ao público da terceira idade o Centro de Convivência do Idoso (CCI). A analista e psicóloga do projeto, Miracema Cortez, afirmou que o objetivo é criar um ambiente estruturado e qualificado para a promoção da qualidade de vida.

No CCI os interessados podem exercitar-se com hidroginástica, ginástica oriental musculação e treinamento funcional — que conta com parceria da Escola de Fisioterapia da universidade e com o curso de Educação Física. Ainda é possivel fazer aulas de artesanato, computação e espanhol. Se precisar conversar com especialistas, há psicólogos disponíveis. São oferecidas de 300 a 320 vagas por semestre e as inscrições podem ser feitas no início de cada período.

Miracema Cortez, funcionária do CCI, disse que a experiência com os idosos que passam a frequentar o centro de convivência é perceptível e gratificante. De acordo com a analista, as queixas biológicas, psicológicas e sociais apresentadas pelos idosos são amenizadas no decorrer das atividades.

“Além de melhorar problemas com dores, a busca maior é a de ressocialização. Com isso, eles mudam suas atitudes por meio desse espaço. Os participantes valorizam suas conquistas adquiridas no projeto, sendo pontuais, comprometidos, participativos e, no decorrer do semestre, trazem relatos de melhoria que o centro faz na vida deles”, destacou.

Para o coordenador do programa de pós-graduação em Gerontologia da UCB, Vicente Paulo Alves, é no centro de convivência que os aposentados ampliam as oportunidades de conhecer novas pessoas e até mesmo de desenvolver habilidades. “O CCI é uma experiência interessante porque disponibiliza atividades que não os deixam no ócio. Pode ajudar muito no momento em que já o tira de dentro de casa e vai com orgulho encontrar os colegas e os amigos para fazerem algum exercício”.

Ginástica nas Quadras

Desde 1985 a Secretaria da Educação do Distrito Federal (DF) desenvolve o programa Escola-Comunidade/Ginástica nas Quadras, destinado para pessoas que estão na terceira idade. A iniciativa está disponível em todas as regiões administrativas do DF. São aproximadamente 60 professores de Educação física para atenderem cerca de 8.500 alunos.

O professor e coordenador do programa, Oldair José de Souza, disse que o Ginástica nas Quadras foi criado para melhorar o bem-estar e a saúde dos idosos por meio de exercícios físicos. “Ele [o programa] surgiu na perspectiva de oferecer a atividade física visando uma melhoria na qualidade da população de baixa renda e de alta vulnerabilidade social”.

Além disso, Souza destacou os benefícios resultantes da prática dos exercícios propostos pelo programa. “É feita uma análise da situação do aluno, verifica-se que são pessoas hipertensas, acometidas de depressão e que começaram a participar do programa e a se socializar e, então, melhoraram a qualidade de vida”, afirmou.

O professor do projeto Alessandro Medeiros salientou que o Ginástica nas Quadras vai além das atividades físicas. De acordo com ele, a convivência em encontros externos aumenta o ânimo na rotina dos idosos. “Os nossos lanchinhos, passeios, festas, viagens ocupam a mente deles [dos participantes] e isso dá mais disposição para o dia a dia de cada um”.

O mundo envelhece

De acordo com o Relatório Mundial do Envelhecimento, da Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada segundo duas pessoas completam 60 anos no mundo. A previsão é que a população idosa mundial duplique em 2050, enquanto no Brasil o aumento será de 12%, ou seja, o valor atual quase triplicará daqui a 34 anos. Para especialistas, envelhecer com qualidade implica ter necessidades sociais básicas satisfeitas e boas condições de saúde.
Especializado em Geriatria há aproximadamente 14 anos, o médico Marcelo de Faveri disse ao ARTEFATO que a longevidade é fruto de uma construção realizada ao longo da vida e que depende das atitudes tomadas por cada pessoa. “São as escolhas do presente que determinarão a realidade futura. Sabemos que teremos dificuldades, mas podemos reduzir os riscos e estarmos mais preparados para enfrentá-las”, explicou.

De Faveri disse ainda que é fundamental a prática de alguma atividade e, de uma certa forma, a preparação para essa fase da vida. “Manter-se ativo física e socialmente é muito importante, pois reduz riscos de doenças que vão desde fraturas ósseas e tumores, até depressão e declínio cognitivo”.

Segundo o geriatra, aposentar-se é uma transição e, como toda mudança, é traumática. “Eu diria que a regra geral é ‘não parar’, ou seja, continuar a utilizar da melhor forma possível as suas potencialidades e capacidades, assim como os recursos sociais disponíveis”, aconselhou.