Uma viagem mais segura

O medo afasta cada vez mais rodoviários da profissão

Charles Jacobina e Lucas Rodrigues

Já é noite. Um motorista e seu companheiro de viagem, o cobrador, já começam a se preparar para fazer mais uma viagem pela sua empresa de transporte. O cobrador se organiza atrás de seu pequeno caixa e logo começa a recepcionar os primeiros passageiros. O condutor do veículo se arruma em seu banco e logo coloca o cinto de segurança. Ele infelizmente sabe, que somente aquela proteção, não é suficiente para assegurar que sua viagem seguirá bem até o final. O medo de ser a próxima vítima de um assalto é o que cerca todo o caminho que será percorrido. 

Todo esse episódio de insegurança no transporte públicoé vivenciadopor rodoviários e passageiros em Brasília e arredores. Histórias, como a de José Ribeiro, de 35 anos, que foi uma das vítimas da falta de segurança. O motorista conta que passou os 15 piores minutos de sua vida, na mira de umrevólver. Tudo aconteceu no dia 05 de junho de 2016 (há menos de dois meses), na entrada da via do Hospital Regional de Ceilândia. “Um elemento pulou a catraca para frente do ônibus, puxou uma arma e me deu duas coronhadas na cabeça, disse que não era para parar de dirigir e que ele estava com muita vontade de dar um tiro no meu crânio”, descreve.

O também motorista, José Neto, de 28 anos, que mora com duas filhas e a mulher na Expansão do Setor “o” da Ceilândia, relatou que no momento só pensou na família. “Era por volta de 18h30 do dia 1º de julho de 2016. Entraram no ônibus duas mulheres: uma ficou ao meu lado com a faca no meu pescoço e a outra do lado do cobrador com a faca encostada na barriga dele. Mandou que ficássemos quietos pegou o meu celular, o do cobrador e todo o dinheiro do caixa, cerca de R$ 250 reais e depois saíram correndo, foi tudo muito rápido”, relembrou. Vale destacar aqui o local: a mesma via onde José Ribeiro foi surpreendido.

img_9909Fotos: Charles Jacobina.

De acordo com a Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social do Distrito Federal, (SSP-DF), entre janeiro e julho deste ano foram registrados 1.494 casos de roubos em transportes coletivos no DF. O número de ocorrências aumentoucomparado ao mesmo período do ano passado, quando foram contabilizados 1.234 casos. Em relação a julho, o número também aumentou: de 151, em 2015, e 225 em 2016. O percentual representa 4,9% do total de crimes contra o patrimônio – que são os Furto, furto de coisa comum, roubo, extorsão, extorsão mediante sequestro (sequestro relâmpago), extorsão Indireta – contabilizados no período.

Questão de Ordem

Diretor de comunicação Social do Sindicato dos Rodoviários do Distrito Federal (Rodoviários DF), Marcos Júnior, destacou que na lista de reivindicações dos sindicalistas à SSP-DF, a primeira é sempre melhorar o sistema de segurança. Segundo ele, no entanto, não há retornos. “Pedimos que eles colocassem mais policiais nas ruas para fazer blitz nos ônibus, passando nas paradas e nas vias que eles sabem que são as mais procuradas pelos assaltantes, fazendo abordagens mais frequentes nas pessoas que são suspeitas, e infelizmente não estamos sendo atendidos”, relatou.

A SSP-DF em nota, diz que existem operações para melhorar o alto número de ocorrências neste ramo. A pasta revela que a Polícia Militar tem intensificado o policiamento ostensivo com a Operação Redução dos Índices de Criminalidade (RIC), que emprega 800 policiais que estavam nas áreas administrativas e agora atuam nas ruas de todo o DF. Para os coletivos, a Secretaria também cita que existe a operação – Anjos da Guarda – que intensifica a abordagem em coletivos, especialmente, nas linhas onde há maior incidência dos crimes. A PM mantém ainda um reforço extra de 1,2 mil policiais nas ruas durante os finais de semana.

Em contraponto, motoristas dizem o contrário. “Às vezes a gente passa e está com suspeito dentro do carro, damos um sinal de luz para a polícia militar e eles não vem, não dão um apoio para a gente. Há alguns dias atrás, tinha elementos suspeitos dentro do carro, dei um sinal de luz e eles (PM) passaram direto, não deram atenção”, criticou José Ribeiro, que é motorista há cinco anos.

img_9982Foto: Charles Jacobina.

“Nós temos reivindicado a todos os batalhões da Polícia Militar do Distrito Federal, reuniões para debater essas questões de segurança, uns nos recebem e outros não”, acrescentou Marcos Júnior, do Sindicato dos Rodoviários do DF. “Não vejo segurança alguma para nós. Muito difícil eles fazerem as blitz dentro do carro, isso acontece em uma vez ou outra isolada”, afirmou William Alves, 41 anos e 23 como motorista.

Empresas de transporte

Segundo a SSP-DF em 2015, foi criado oGrupo de TrabalhoTransporte Coletivo, com o propósito de implementar ações de enfrentamento ao roubo em transporte coletivo, uma das metas do Viva Brasília – Nosso Pacto pela Vida. O Grupo já articulou junto às empresas concessionárias a importância da instalação de câmeras de vigilância no interior dos veículos, com o objetivo de tornar mais ágil a identificação dos assaltantes pela Polícia Civil.

O assessor de comunicação da Viação Marechal, Pedro Fernandes, informou ao ARTEFATO que a empresa investe em treinamentos para os rodoviários. “As únicas ferramentas que a gente tem são os treinamentos com a postura em que o motorista e o cobrador devem adotar, em situações de assaltos e outros casos”, informou. Os equipamentos tecnológicos de rastreamento e imagem, também estão sendo um dos principais investimentos da empresa. “Nossos ônibus contam com câmeras para filmagem. Elas ajudam a identificar os assaltantes. Temos também GPS, para que caso ocorra assaltos ou sequestros possamos localizar os veículos online, e logo fornecer para polícia, para os órgãos responsáveis as imagens das câmeras, para poder verificar a questão de flagrante e identificação do assaltante”, afirmou Fernandes.

O motorista Paulo Sérgio Cunha, motorista há 20 anos – três na viação Marechal – confirma os cursos de preparação da empresa, mas contesta o funcionamento das câmeras. “Concordo que a empresa é muito boa na questão de preparação dos funcionários, mas na questão da segurança, nada. Trabalho em alguns veículos que somente uma das quatro câmeras funcionam, ou seja, teve um mau investimento da empresa nesse quesito", critica Paulo Sérgio.

O medo

Além dos assaltos, um outro elemento vem sendo fonte de medo entre os rodoviários: os donos dos transportes piratas. Um dos diretores do sindicato João Silva*, retratou o tamanho receio dos rodoviários para passar nas vias do Sol Nascente. “Aquela região é muito perigosa. Muitos dos nossos [rodoviários] já foram ameaçados de morte lá por esses donos de pirateados”, disse.

img_9920Foto: Charles Jacobina.

De acordo com o diretor, que tem oito anos de profissão, vários profissionais – entre motoristas e cobradores –são impedidos de trabalhar pela pressão que sofrem dos donos de transporte pirata em algumas das vias do Sol Nascente. “Lá tem uma quadrilha especializada. Eles botam o “terror” nos nossos colegas, dizendo para não pegar nenhum morador em algumas regiões”, descreveu João Silva.

O Setor Habitacional Sol Nascente é a maior comunidade carente da América Latina. Seu plano urbanístico, ainda em regularização é dividido em três partes. Segundo pesquisas da Codeplan de 2013, a cidade junto a cidade Pôr do Sol somava cerca de 78.912 moradores.

*Nome fictício para personagem que quis anonimato