Um programa em xeque

Universitários podem ficar fora do Ciência sem Fronteiras  

 

Maiza Santos

O programa Ciência sem Fronteiras, que levou 73.353 estudantes de graduação para o exterior, de 2011 a 2015, vai ganhar uma nova versão e mudar por completo seu funcionamento. O ministro da Educação, Mendonça Filho, anunciou a suspensão de novas bolsas para estudantes de graduação. O novo formato ainda não foi definido. É possível que sejam concedidas bolsas de estudos para alunos do ensino médio com o objetivo de proporcionar a eles a oportunidade de aperfeiçoar um determinado idioma.  

Em tempos de crise, o governo vai efetuar cortes no programa, que já custou aos cofres públicos mais de 8,3 bilhões. Com a alta do dólar e o número cada vez maior de inscritos, a manutenção do programa tornou-se quase insustentável, segundo o Ministério da Educação.

Mendonça Filho reiterou que o programa está congelado desde 2014, quando houve a última seleção. Os alunos selecionados embarcaram em 2015. A troca de governo e a mudança no MEC somada à crise financeira do país e as críticas ao programa levaram à suspensão de novas bolsas para alunos de graduação. As bolsas vigentes serão mantidas até o fim dos contratos e o programa segue inalterado para a pós-graduação.

andressa-paulino-1Foto: Andressa Paulino.

De acordo com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), o novo formato do programa está sendo discutido e deve ser instituído a partir de 2017. As alternativas em estudo analisam os seguintes aspectos: o fortalecimento da internacionalização das universidades brasileiras; a ampliação do impacto institucional e apropriação do conhecimento adquirido no exterior incluindo impacto sobre o setor produtivo; a expansão das áreas atendidas, incluindo as áreas de Ciência Humanas, Sociais Aplicadas, Letras e Linguística; a inclusão social abrangendo o público dos estudantes de baixa renda do ensino médio no aperfeiçoamento linguístico; a ampliação das ações de apoio às instituições de ensino superior brasileiras dentro do programa, com ênfase na capacitação do corpo técnico e docente.

Prioridades

Especialistas apontam que a principal dificuldade identificada entre os estudantes brasileiros, que seguem para o exterior, é lidar com o idioma estrangeiro. Por meio da assessoria de imprensa, a Capes informou que o foco do novo Ciência Sem Fronteiras será o ensino de idiomas, tanto no Brasil como também no exterior.

O programa foi criticado por professores, especialistas, políticos e inclusive acadêmicos por considerarem que não houve o retorno esperado para o país. Em 2013, o ex-presidente da República Fenando Henrique Cardoso chegou a criticar, em artigo, o número de estudantes enviados ao exterior sem nem ao menos conhecer a língua do país de destino.

Alunos também condenaram a falta de comprometimento dos colegas bolsistas nas universidades do exterior. Professores advertiram para a falta de comunicação entre aluno e universidade que culminou, em alguns casos, no não aproveitamento de grande parte das disciplinas cursadas fora do país.

maiza  Foto: Gilvanete Costa.

Mendonça Filho chegou a comparar o investimento de cerca de R$ 3,248 bilhões para atender 35 mil bolsistas da Capes em 2015, ao valor, igual, investido em alimentação escolar para atender 39 milhões de alunos para justificar a necessidade de mudanças.

Ao longo de quatro anos, o programa apresentou algumas falhas, como atrasos no depósito da bolsa, falta de informação e dificuldade de comunicação com os técnicos responsáveis pela orientação dos estudantes. E uma queixa comum a quase todos os estudantes que foram para o exterior: ausência mínima da proficiência do idioma. O programa ganhou o apelido de Turismo sem Fronteiras em reportagens críticas veiculadas em diferentes jornais.

Ex-bolsista Pâmella Gonçalves, 21 anos, estudante de engenharia ambiental, da Universidade de Brasília, considera a suspensão das bolsas uma perda significativa para o Brasil e defende que o investimento é justificável e necessário.

Para o professor da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em educação, Ocimar Munhoz Alavarse, o programa precisa avançar. “A capacitação linguística e o equilíbrio entre as várias áreas são pontos que nós temos que aperfeiçoar. ”