Olimpíada realiza sonho

Professora promove reencontro de ex-ginastas  para a Rio 2016

Faby Rufino

Os Jogos Olímpicos estimularam uma primeira vez que a ginástica rítmica fez o coração de Natália Gondim, 36 anos, disparar foi aos 6 anos de idade, e desde então ele não para mais. Formada em fisioterapia e educação física, os olhos dela se enchem de lágrima e o rosto se transforma quando lembra do tempo em que começou a praticar o esporte. Foi guiada por essa emoção que Natália resolveu se reunir com as ex-companheiras de equipe para matar a saudade.

A realização dos Jogos Olímpicos em casa proporcionou maior facilidade para as sete amigas que puderam levar os pais e maridos para assistirem de perto um grande momento da vida delas, a redescoberta do esporte que por tanto tempo ocupou suas vidas. O reencontro com a ginástica rítmica.

Com passagens compradas, ingressos na mão e muita emoção, as sete amigas embarcaram rumo ao Rio de Janeiro, para a viagem que foi programada e sonhada, com um ano e meio de antecedência. Era a realização de um sonho. E assim como Natália e as amigas, muita gente se viu nos atletas olímpicos e mentalmente saltou com Simone Biles, correu ao lado de Usain Bolt ou nadou com Michael Phelps.

A professora Natália Gondim, ex-atleta da ginástica rítmica, contou para o ARTEFATO a experiência que viveu com as amigas na Rio 2016, desde o planejamento até a finalização dos jogos. A seguir, os principais trechos da entrevista.

thiago-siqueiraFoto: Thiago Siqueira.

ARTEFATO – Como é sua relação com a ginástica rítmica?

Natália Gondim – Comecei com 6 anos e parei aos dezessete, então foram 11 anos de total dedicação. É uma relação de vida inteira, um amor muito grande. É onde eu me encontro e busco prazer, mesmo quando este último deveria estar desassociado do trabalho. É minha vida. Tudo o que tenho, tanto profissional como o que trouxe da minha infância e adolescência, é da ginástica.

ARTEFATO – Quando você se tornou técnica?

Natália Gondim – Assim que me formei em fisioterapia, recebi um convite da professora Luciana Caroba par dar aula no Colégio Madre Carmem Sallés, de onde uma amiga estava saindo por questões pessoais. Eu tive que tirar o CREF provisionado, documento do Conselho Regional de Educação Física que permite dar aulas em apenas uma modalidade, no meu caso a ginástica rítmica, e aí eu assumi minha primeira turma. Com o tempo, as turmas foram aumentando e acabei indo dar aula em outros clubes, foi quando cheguei na Associação de Ginástica da Octogonal e Cruzeiro, a convite da Maria Cristina Fontes, e foi onde treinei minha última equipe de competição.

ARTEFATO – Como foi reunir as amigas da época dos treinos para assistirem as Olimpíadas juntas?

Natália Gondim – No ano passado, durante uma etapa da Copa do Mundo, eu avisei a essas amigas que a competição estava sendo transmitida na TV e acabou que todas nós assistimos. Elas, agora mais distanciadas do esporte, se assustaram com as várias mudanças ocorridas desde que treinávamos e começaram a me perguntar coisas como “Agora pode música cantada? ” E a partir daí surgiu a possibilidade de irmos aos jogos, até porque seriam realizados em casa.
Na época eu estava com viagem marcada para o Mundial de Ginástica Rítmica, na Alemanha, e falei que estava indo com um grupo de amigos, dentre eles árbitros da modalidade, e elas animaram cada vez mais. Até que fomos!

ARTEFATO – Qual a sensação de assistirem juntas as competições de um esporte que tanto marcou a vida de vocês?

Natália Gondim – É emocionante porque são minhas amigas desde os 6 anos de idade. Somos super próximas e juntar todas aquelas meninas, que agora levarão maridos, filhos, mães, é juntar toda a vida. Foi um ano e meio de programação, teremos camisetas iguais… É muita preparação! Quando fui pegar meus ingressos na casa de uma das meninas, inclusive, dei de cara com uma foto nossa, da nossa equipe! É muito emocionante porque é nossa maneira de reviver o esporte assistindo o maior evento esportivo juntas.

ARTEFATO – Na sua avaliação, os Jogos Olímpicos podem impulsionar o esporte no Brasil?

Natália Gondim – Sim. Eu, pessoalmente, ainda não senti o aumento no número de pessoas procurando a ginástica, mas já ouvi de algumas professoras que depois do Pan-Americano, houve uma procura maior. Acredito que a tendência é esse número aumentar mesmo. Ainda mais porque até hoje ainda acontece essa confusão na hora de diferenciar a ginástica rítmica da artística e essa popularização vem ajudando na propagação do conhecimento ao redor do esporte.

ARTEFATO – O esporte recebe apoio suficiente do governo?

Natália Gondim – Sim, quando falamos das seleções. Para equipes locais o apoio é pouco. Mesmo se contarmos com a Bolsa Atleta, poucas meninas recebem e ainda assim é pouco para incentivar a base do esporte. Mas, voltando às seleções, elas têm bem mais apoio, tem centro de treinamento, tem apartamento, apoio médico com fisioterapeuta, psicólogo…

ARTEFATO – Tecnicamente, como avalia a participação da seleção brasileira na Rio 2016?

Natália Gondim – Dentro do esperado. O país e todos os amantes da ginástica estavam torcendo para as meninas, mas ainda assim não foi possível por conta de pequenos errinhos que acontecem mesmo. O nível das outras equipes é bem alto e, de qualquer forma, eu não esperava pódio para o conjunto, mas queria muito que elas ficassem entre as oito finalistas, pena que não deu. A Natália Gaudio, ginasta do individual, se apresentou bem e manteve sua média de notas, fez boas séries, bem limpas e animadas pela torcida, mas ela competiu como atleta convidada porque o Brasil é sede.

ARTEFATO – O que observou de positivo na Rio 2016 por ser no Brasil?

Natália Gondim – O apoio midiático em torno da ginástica rendeu músicas exclusivas para nossas ginastas, como o conjunto cantado por Ivete Sangalo e um individual feito por Dudu Nobre, pó exemplo. Começou quando o Brasil percebeu os resultados dos Pan-Americanos porque somos tetra na ginástica e nos últimos anos, a possibilidade de medalha foi vista e levada a sério.

ARTEFATO – Olimpíada em casa, mais pressão ou tranquilidade?

Natália Gondim – As duas coisas. Tem pressão de todos que foram até o ginásio assistir, mas ao mesmo tempo existe o apoio da torcida que faz toda a diferença e a ginasta nota e usa como motivação. Na Alemanha, quando falamos com a Natália Gaudio, ela comentou sobre a diferença que faz ter alguém ali, torcendo por ela, e éramos apenas seis pessoas. Em casa, tendo o ginásio inteiro batendo palma e aplaudindo todos os movimentos, as ginastas devem conseguir dar uma balanceada na pressão, que deve ser mais sentida pelo conjunto que pela ginasta individual.