Eles estão mais presentes

As atribuições familiares estão sendo cada vez mais divididas: cresce, a cada ano, o número de homens que assumem a educação integral dos filhos.

Dalila Boechat e Lorena Carolino

A rotina na casa da família Silva começa cedo. Davi Farias, 35 anos, acorda antes do dia clarear, prepara o café da manhã e leva a pequena Rebeca, de cinco anos, para a escola. Ele retorna para casa, tempera o almoço, coloca a casa em ordem e busca a filha no colégio. Durante a tarde, o pai brinca com a menina, ensina a fazer a tarefa de casa, leva para o curso de inglês, de espanhol e para o ballet. A mãe de Rebeca, Teresa Matias Silva, 32 anos, chega do trabalho no início da noite e encontra tudo em ordem, graças ao marido que, desde que ficou desempregado, desempenha com excelência a função de pai em tempo integral.

Para Teresa, a tranquilidade em saber que o marido cuida da filha enquanto ela trabalha é fundamental no desempenho das tarefas profissionais. “Graças aos cuidados do Davi, eu posso trabalhar em paz, pois sei que a minha filha está sendo bem cuidada pelo pai. Não precisei deixá-la em creche e nem contratar uma babá. Sinto-me privilegiada por ter um marido tão dedicado”, assegura.

A estrutura familiar está passando por mudanças e os homens estão assumindo papeis, vistos até então, como funções exclusivas da mulher. Essa quebra de paradigmas se dá por vários motivos, entre eles estão a situação financeira do casal e a possibilidade de o homem exercer atividades profissionais em horários flexíveis. Para a psicóloga Graziele Santana, a mudança de mentalidade é fundamental para acompanhar o avanço da sociedade. “Não podemos ficar presos a paradigmas e  tabus empregados anos atrás pela sociedade tradicional. Não importa quem é o provedor da casa e quem cuida das tarefas domésticas, o importante para a criança é ter pai e mãe presentes em situações reais do dia a dia”, defende.

O músico e produtor Paulo Romero, 36 anos, cuida da filha de quatro meses desde o nascimento, devido à flexibilidade de horário no trabalho. Ele trabalha meio período e estava sem condições de contratar uma babá para cuidar da filha enquanto a esposa trabalhava, foi então que resolveu assumir as responsabilidades de cuidar da pequena Maria Flor. Passou a trocar faldas, preparar a mamadeira, colocar para dormir e dar muito amor e carinho. “Essa experiência é sensacional, pois aumenta a ligação do pai com o filho, além da divisão de tarefas em casa. A relação familiar melhorou muito, me tornei um pai presente e pude compreender melhor as angústias e dificuldades que uma mãe tem no cotidiano”, conta.

Para Denise Teixeira, psicóloga clínica, a ideia passa pelo princípio de que pai e mãe devem empenhar-se num compromisso mútuo de manter as necessidades do lar e da casa em ordem e harmonia, independente de quem passa mais tempo com os filhos.“Ainda que o pai desempenhe papéis culturalmente destinados à mulher, ele deve lembrar-se de exercer sempre uma liderança amorosa no trato com os filhos e sua esposa, a fim de proporcionar um ambiente familiar seguro”, assegura.

Douglas Humberto, 28 anos, ficou desempregado. Ele começou a procurar emprego enquanto a esposa Dadja Correia, 22 anos, estava de licença maternidade, mas não conseguiu uma vaga no mercado de trabalho. Diante da situação, o casal conversou e decidiu que o pai ficaria em casa para cuidar do pequeno Davi. No início, Douglas foi vítima de preconceito e chegaram a duvidar que ele conseguisse cuidar bem do filho sem ajuda. “Foi difícil no começo, até a Dadja acreditava que eu não iria dar conta, mas com o tempo ela ganhou confiança, além disso, o preconceito é grande e o machismo predomina na sociedade. Muitos homens acreditam que atividades domésticas são exclusivas da mulher”, afirma.

Dadja engravidou aos 21 anos e diz que foi difícil contar para a família que o marido ficaria em casa cuidando do filho. “Essa história não agradou ao meu pai, ele só começou a aceitar que eu iria trabalhar fora e o Douglas em casa, depois de muita conversa”, desabafa. Apesar das dificuldades, o casal conquistou estabilidade na relação conjugal e familiar, que melhorou bastante, e o rendimento de Dadja no trabalho aumentou, pois ela sabe que Davi está seguro com o pai.

Segundo a psicóloga Graziele Santana, é necessário conversar antes de tomar decisões para que a relação familiar não seja prejudicada com possíveis desentendimentos. “Quando o casal se sente confortável com a decisão que tomou, os conflitos são afastados e a situação é encarada com naturalidade. O pai pode cuidar tão bem quanto a mãe e o fortalecimento dos vínculos entre pai e filho resulta em uma relação indescritível”, afirma.

Rotina nova

Marco Antônio Azevedo, 42 anos, arquiteto, cuida das duas filhas desde que seu casamento terminou, em 2008. Ele toma conta da casa, das filhas e trabalha fora para manter o lar. Marco considera que a paternidade é vivida por homens que sentem prazer na relação com os filhos. “Ser pai é o que me torna pleno, e o homem precisa romper com o padrão de solidez que a sociedade impõe. É importante se comover, ser sensível aos nossos filhos, sorrir, brincar e se emocionar a cada conquista deles”, atesta.

É neste sentido que a psicóloga Denise Teixeira esclarece: “o pai deve ter em mente que assumir este papel exigirá de si tempo, dedicação e paciência; mas que o grande segredo para se manter firme nessa jornada dependerá, em larga escala, do “olhar” que ele dará à essa condição. Se encarada como um privilégio e uma prioridade em sua vida, ele terá condições de atuar de maneira prazerosa, e poderá colher os frutos do seu empenho”, certifica.

Marco deixou a rotina de 12 horas diárias de trabalho, e atualmente trabalha apenas seis para se dedicar às filhas Débora de dez anos e Júlia de 13. Marco optou por tempo de qualidade com as meninas. “Decidi abrir mão de ganhar mais dinheiro e de trabalhar longas jornadas para ter tempo de acompanhar o crescimento das minhas filhas, e isso valeu muito a pena. Abdicar de alguns tostões a mais no bolso é ganhar a alegria imensurável de ouvir: papai, você é o melhor do mundo. Isso não tem preço”, conclui.

 

 

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Foto de capa: Daniele Matias
Arte: Ana Velozo