Drag Queen é arte sim, senhor!

 

Onde muitos vêem preconceito, Magno Garrido se encantou, enxergou uma oportunidade de negócio e hoje tenta desmistificar o conceito de drag diariamente

Susanne Melo

Tudo começou numa aula de maquiagem e figurino. Ele aprendeu a colocar cílios, peitos falsos, vestir o sutiã, calçar a bota. Pegou roupas emprestadas da irmã. Comprou uma peruca platinada. Assim Magno César Filho Garrido Vieira, 25 anos e ator por formação, compôs pela primeira vez sua personagem preferida, uma dragqueen, ainda sem nome. Magno esclarece que uma drag só pode ser batizada por outra drag. Então, Cíntia Carla, mulher, casada, professora e atriz que também interpreta dragqueen, deu nome à personagem. Nascia ali Natasha Yohara. Mas outros desafios viriam. Principalmente o preconceito.

A reação inicial dos pais, Cesar Vieira e Edileuza Garrido, ambos 51 anos, foi de receio e chegaram a pedir para o filho abandonar a personagem. Mas Magno não desistiu de Natasha e insistiu com eles para que o vissem se apresentar como drag ao menos uma vez. “Eu forçava, de fato. Mostrava foto, vídeo engraçado. Com o tempo, quebrei a resistência”, demonstrando a esperança que tem e que acabou se manifestando em relação a seus pais. Hoje em dia, eles dão todo apoio, principalmente depois que o filho abriu a própria empresa de animação de eventos: a mãe trabalha na linha de frente da produção meu pai cuida da gestão. “Minha mãe é meu braço direito, me acompanha nas apresentações, me ajuda a montar, coloca meu sutiã, meus peitos falsos, organiza a minha entrada. É muito importante ter os dois cuidando de tudo, comprando maquiagem, cílio, sutiã, meia calça, calcinha e tudo mais para montagem dos figurinos”.

Outro segmento em que enfrentou foi o religioso. Magno frequentava grupos de jovens na Igreja Católica, e diz que parou por falta de tempo, não por falta de vontade. Ele se considera praticante na fé que escolheu seguir desde pequeno e é devoto de Nossa Senhora. “Para mim, o que importa é minha religação com Deus, ao pedir orientação e proteção nas orações da manhã, antes de entrar em cena ou em alguma reunião.

Magno compreende que o preconceito da sociedade em geral se dá pela associação errônea da arte de interpretar uma dragqueen com questões de sexualidade. “Sou Católico Apostólico Romano praticante, e claro que na igreja tem preconceito por parte de algumas pessoas. Eu tenho orgulho de interpretar a Natasha porque levo alegria pras pessoas. Qual é a diferença do meu trabalho para o de um comediante da televisão? Nenhuma”, explica, emocionado. Ele não se afastou de sua fé. As missas continuam a fazer parte do repertório dominical do ator: “Na época do grupo de jovens, eu ia às reuniões com amigos. Era uma relação tranquila com aqueles que me conheciam “.

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Foto: Ello Romanin

Divas da Noite

Magno esclarece que dragqueen é um personagem artístico, em nada ligado à sexualidade ou gênero, embora considere esses temas igualmente importantes de serem enfrentados. “Dragqueen é um personagem com roupas e traços femininos ao exagero”, afirma, ressaltando que é um tipo interpretado inclusive por mulheres, como é o caso de sua madrinha, Cíntia Carla, uma das drags mais famosas do Brasil.

“Pode existir tabu da parte de quem vê. Mas da parte de quem faz, interpretar uma drag é uma arte como qualquer outra; é como fazer qualquer personagem no teatro. Só que meu palco é a festa e minha plateia, os convidados”, afirma. São várias as linhas de estilização, entre elas, as top drags, inspiradas no padrão de beleza das beldades; drags caricatas, com caracterização bem mais exageradas; e drags animadoras, categoria em que Natasha Yohara se encontra, um meio termo na caracterização e mais voltada ao entretenimento.

Magno antes só conseguia atuar uma vez por semana. Quando começou a fazer a drag, esse número aumentou três ou quatro vezes e o cachê dobrou. Foi então que decidiu abrir uma empresa especializada, a “Divas da Noite”. A empresa possibilitou a inserção de outras drags no mercado de trabalho. “Atualmente, são 14 pessoas interpretando esse estilo de personagem numa média de nove eventos por semana”, orgulha-se Magno.

Afinal, foi para isso que Natasha Yohara foi criada: levar alegria às pessoas. E de quebra transformar Magno num profissional mais completo. Apesar do preconceito.

 

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Foto: Karine Santos

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Foto de capa: Ello Romanin