Curte o quê?

 

A liberdade bate de frente com o que há por trás do sexo casual

Jéssica Luz e Pedro Grigori

É uma noite de quarta-feira. Por volta das 20h, cerca de 30 carros já transitam nos estacionamentos ao redor do Pavilhão de Exposições do Parque da Cidade. Para cada sete que entram, três saem. O movimento é intenso. Os veículos andam em baixa velocidade para que os motoristas possam trocar olhares e palavras com quem está em outro carro ou andando a pé pela área.  Entre as árvores, mais de 50 homens se aventuram. Velhos ou novos, magros ou gordos, brancos ou negros. Com roupas sociais ou informais. Naquele momento, todos são iguais e buscam a mesma coisa: prazer.

As histórias de sexo no Parque da Cidade Dona Sarah Kubitschek são antigas, mas o que realmente acontece entre as árvores do maior parque urbano do mundo ainda não é de total conhecimento público. Não são casais que se aventuram nos estacionamentos escuros. O público é formado em sua maioria por homens que não se conhecem e vão ao local unicamente para manter relações sexuais ao ar livre.

“Curte o quê?”, é a frase que inicia a rápida conversa que acontece antes da relação acontecer.  Embaixo de uma arvore, três homens se revezam no sexo oral, enquanto mais quatro se masturbam ao assistir a cena. A presença de público não inibe o trio, e quem quiser pode se juntar a eles, mas claro, ninguém é obrigado a manter qualquer tipo de relação com quem não queira. Naquele local ninguém está sendo forçado a fazer nada.

“Saí do trabalho e vim para cá. Venho às vezes quando sinto vontade, mas não busco nada sério. Sou casado”, conta um dos visitantes. O homem, que deve ter por volta de 50 anos, está bem vestido, e ao perceber que a conversa não vai levar a nada, solta um “Falou” e segue caminho atrás de outra companhia.

O local, apelidado de Floresta dos Sussurros, poderia facilmente ser confundido com uma cena de filme. Entre às árvores, homens andam ordenadamente, ora rumo ao norte, e minutos depois ao sul. O chão próximo às árvores é repleto de preservativos. De tempos em tempos, a cavalaria da Policia Militar aparece com lanternas para vigiar o local. Os visitantes se dispersam, mas quando a polícia deixa o local, a Floresta dos Sussurros volta a fazer jus ao apelido.
Exibicionismo

O artigo 233 do Código Penal Brasileiro classifica como crime a prática de ato libidinoso em local público, aberto ou exposto a demais pessoas. Entre os mais comuns estão o sexo vaginal, anal, oral e a masturbação.

A Polícia Militar do Distrito Federal informou, por meio da assessoria de imprensa, que existem trabalhos e ações específicas na área do Parque da Cidade, onde a incidência de casos é maior e com mais visibilidade por já ser ponto de encontro dos participantes. A pena para quem for pego praticando atos libidinosos varia de três meses a um ano, ou pagamento de multa.

Diversas prisões já foram feitas no local, mas a assessoria ressalta que as falhas contidas na legislação trazem a sensação de impunidade, fazendo com que haja reincidência de casos. A PM não se manifestou ao ser questionada sobre os episódios onde os praticantes não são abordados ou quando não se sentem intimidados com a presença da polícia que realiza ronda no local constantemente.

João Carlos*, tem 52 anos e é graduado em Direito. Atualmente é servidor público de um órgão na capital, e diz que sabe que está infringindo a lei, mas que vê as idas ao Parque da Cidade como uma aventura normal para matar a rotina do dia-a-dia. “Costumo ir lá no meio de semana, após sair do trabalho. Sou divorciado, e nas minhas aventuras dou preferência para garotos de 18 a 25 anos. As vezes transamos embaixo das árvores, mas quando me sinto à vontade com a pessoa eu a levo para o meu carro ou para um motel”, conta.

Sobre a orientação sexual, João diz que não gosta de rotular relações. “Meu casamento foi com uma mulher. Após me separar dela tive relações sexuais com homens pela primeira vez, mas nunca um relacionamento sério”, revela. Segundo ele, o público da Floresta dos Sussurros é bastante variado. “Grande parte são homens, mas muitos, mesmo tendo relações sexuais com pessoas do mesmo sexo, não se consideram gay, pois é apenas sexo”, relata.

Relações sexuais entre homens que se consideram héteros não é algo tão incomum. O psicólogo e terapeuta sexual Breno Rosostolato conta que essa necessidade de nomear a sexualidade vem de uma normatização que só prende o ser humano. “As pessoas não precisam reconhecer absolutamente nenhum rótulo ou denominação, homem e mulher já colocam a sociedade numa binaridade de gênero e que muitos não se sentem contemplados. Aquilo que te faz bem e propicia felicidade sem destruir o outro já é o maior dos reconhecimentos que precisamos”, relata.

Já para Alberto Lopez* de 29 anos, a prática de sexo em locais públicos é algo comum. Sem demonstrar preconceitos ou problemas em falar sobre o assunto, ele conta que já manteve relações sexuais em diferentes locais do Distrito Federal. “Posso te dar uma lista de locais onde podemos fazer sexo sem problemas”, oferece a ajuda aos risos. Alberto diz que já foi ao Parque da Cidade em busca de sexo, ora com mulheres conhecidas, ora com desconhecidas, o importante para ele é não expor o parceiro ao ridículo e ao mesmo tempo não ferir a moral de ninguém que esteja por perto.

Ao ser questionado sobre os motivos que o levaram ao ato, Alberto conta que foi o sentimento de realização em fazer o que tinha vontade, na hora e lugar que queria. “É uma responsabilidade que assumimos, nós corremos esse risco para nos satisfazer, para alcançar um prazer com adrenalina, por isso acredito que toda a responsabilidade da prática deve ser atribuída a quem a pratica”, ressalta.

O psicólogo Breno Rosostolato conta que esse sexo casual, aproveitado por João e Alberto, não é visto como algo errado dentro da psicologia, e diz que as relações sexuais no geral devem ser vividas de forma plena, agradável e sem cobranças e exigências. “As pessoas devem se apropriar de seus desejos e vontades. Se permitir em relação a suas fantasias não é desrespeitar o outro, portanto, quando existe consentimento e respeito ao prazer, corpo e à integridade alheia, o sexo casual é tão saudável quanto qualquer outra relação sexual”, explica.

 

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Foto: Tatiana Castro

Prática antiga

Engana-se quem acredita que a sociedade começou agora a criar um comportamento sexual sem amarras. Na Idade Antiga, entre 4.000 antes de Cristo (a.C) e até o século V depois de Cristo (d.C), prostituição e homossexualidade eram comuns e aceitos, já os abusos eram severamente punidos. Casais de pessoas do mesmo sexo faziam parte do cotidiano na Grécia antiga.

Assim como muitos frequentadores da Floresta dos Sussurros, os homens na Idade Antiga descobriram que o amor não era um sentimento eterno, o prazer também não era possível somente com pessoas de gêneros diferentes. Na época, surgiu a questão do divórcio, além do relacionamento afetivo ou apenas sexual entre pessoas do mesmo sexo, sem pudor e sem proibições. “Os conceitos de homossexualidade e heterossexualidade não eram conhecidos, o melhor paralelo que podemos tecer, mas com cuidado, é que o comportamento sexual ateniense, por exemplo, era próximo ao que o termo bissexualidade hoje pode indicar”, ressalta a professora de História Greco-romana, Carolina de Abreu.

Para Carolina a sexualidade na antiguidade não deve ser vista ou interpretada baseando-se nos conceitos contemporâneos que a sociedade tem sobre o assunto. “Os significados que a palavra “pudor” carrega hoje em dia não necessariamente correspondem aos mesmos da antiguidade. Nossa cultura é muito baseada nos preceitos e moralismos judaico-cristãos”, completa.

A evolução da Antiguidade teve queda com a ascensão da igreja católica na Idade Média, que trouxe para a sociedade da época regras e leis que deveriam cumprir para que não cometessem pecados ou para que fosse evitado o pagamento de impostos para o clero.

Nessa época, o sexo começou a ser visto como algo impuro, por conta do domínio que a igreja tinha sobre a sociedade na época. “No mundo ocidental, tudo que era relacionado ao sexo em si se tornou pecado, menos quando era praticado para fins de procriação. Trazendo até hoje a questão do tabu que é o sexo na sociedade contemporânea, onde homens e mulheres se escondem em meio as árvores ou dentro de carros para satisfazerem seus prazeres pessoais sem que sejam julgados pela sociedade.
Na palma da mão

Para quem prefere não se aventurar entre as árvores da Floresta dos Sussurros, aplicativos para smarthphones, como Tinder, Grindr ou Happn funcionam como um cardápio online  onde usuários têm na palma da mão a possibilidade de entrar em contato com pessoas que estão próximas a sua localidade, e que buscam a mesma coisa.

Marcos Araújo*, 22 anos, já usou o Tinder, Grindr, Scruff, Hornet e Grouwl, e por meio deles, manteve relações sexuais com 20 homens. “Eu nunca usei aplicativos para conseguir um relacionamento, sempre os encarei como um modo de conseguir sexo. Então as conversas eram bem diretas. Falávamos sobre as preferências sexuais, trocávamos fotos de partes do corpo que agradavam o outro, e depois, em um período médio de uma hora, nos encontrávamos”, lembra.

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Foto: Tatiana Castro

“Alguns caras gostavam de conversar antes, mas a maioria costuma ser bem direto. Trocávamos comprimentos e partíamos para o ato. Depois que terminávamos,cada um ia para o seu lado. Eu não gostava de manter contato, preferia transar com cada um apenas uma vez, para não acabar se tornando um relacionamento”, relata Marcos.

Marcos conta que acha o ato bastante comum. Ele sempre usava preservativo, e diz só teve medo de se encontrar com estranhos nas primeiras vezes. “Nunca foi um fetiche ou algo do tipo. Sempre usei esses aplicativos para matar meu tesão, como uma especie de alivio. Eles me proporcionam ter uma experiência sexual momentânea, então os usuários tem que ter uma mente aberta em relação à não romantizar esse ato sexual. Deve ser algo apenas carnal”, conta.

Precaução

Um dos maiores perigos em manter relações sexuais com estranhos são as doenças sexualmente transmissíveis. Para se prevenir, João Carlos conta que durante as relações no parque sempre usa preservativo. “A maioria das relações sexuais na Floresta dos Sussuros não têm penetração, são apenas masturbação ou sexo oral, mas quando decido avançar, sempre uso preservativo”, conta.

Sérgio D’Avila, Gerente de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST’s) da Secretária de Saúde do Distrito Federal, conta que a prática de João não é totalmente eficaz na prevenção de DST’s. “Na masturbação é extremamente raro pegar alguma doença. Já no sexo oral, a pessoa que está recebendo não corre risco, mas quem está fazendo corre, devido o contato direto da genitália com a mucosa (revestimento) da boca”, relata.

Para quem realiza sexo casual, Sérgio indica que os exames de DST’s sejam realizados periodicamente. “Existem dois tipos de exame, o com coleta de sangue, que o resultado saí em média de 15 dias, e o teste rápido, que funciona para AIDSs, sífiles e hepatites virais, onde é recolhido uma gota de sangue, e o resultado saí em 30 minutos”, explica.

Porém Sérgio conta que os exames podem não ser eficazes caso a relação sexual tenha ocorrido a pouco tempo. “Devido a janela imunológica, o organismo pode demorar cerca de 30 dias para reagir ao virus, então ele não é detectado em exames. Porém quando o médico avaliar o risco de contaminação, o paciente é orientado a utilizar uma medicação chamada PEP (Profilaxia Pós Exposição) por 28 dias, que reduz em 98% as chances de contagio”, conta.

Segundo Sérgio D’Avila, todas as Unidades Básicas de Saúde do DF tem condições de realizar exames para detectar doenças sexualmente transmissíveis. Além delas, o Centro de Testagem e Acolhimento, localizado na plataforma do meio da Rodoviária do Plano Piloto, realiza testes rápidos de HIV, sífilis e hepatite B e C.

Prazer pelo prazer

A sexóloga Carla Cecarello conta que antes de fazer o download de aplicativos de sexo casual, devem ser considerados os prós e os contras. “O lado bom é que isso faz as pessoas se permitirem a experimentar coisas novas, a viverem um desejo com relações em que você admite que não quer amor, afetividade. Há apenas o desejo, o poder escolher aquela pessoa, porque acha bonito, sedutor, gostoso e querer experimentar o prazer do sexo pelo sexo. O ruim é que existem pessoas que podem se sentir como objeto, com se fazendo parte de um cardápio, essas pessoas com certeza não estão preparadas para o envolvimento sem afetividade”, explica.

Carla é sexóloga do C-Date, um site alemão fundado em 2008, que hoje já possui 15 milhões de usuários em 35 países, sendo desses, cinco milhões apenas no Brasil. “O fato de se envolver com estranho, deixa-nos livres para fazermos o que temos vontade, realizar nossos desejos mais profundos, sem a preocupação com que outros pensam. O sexo casual é pensando em si próprio principalmente e é isso que torna as pessoas mais realizadas, sem entraves”, conta Carla.

Ainda há preconceitos em relação a certo tipos de relacionamento, como o casual, mas é importante entender que são apenas escolhas. A melhor forma de quebrar tabus e entender os diferentes tipos de relações humanas é através do conhecimento. Sendo consensual e feito com prudência, o sexo casual pode sim ser prazeroso, e assim como ninguém é obrigado a praticar, ninguém também deve se deixar impedir por conta da opinião de outro alguém que não está envolvido no ato.

Foto de capa: Thiago