Com as malas cheias de sonhos e histórias

Albergues cativam o público e se tornam opção de hospedagem para diversas finalidades

Juliana Procópio

Há quem os utilize por curiosidade, outros pelo baixo preço, outros ainda por indicação de amigos. Mas todos concordam que, na maioria dos casos, a combinação qualidade e preço surpreende. Estamos falando dos hostels ou albergues, uma variação de acomodação que se encaixa entre as pensões familiares e os hotéis tradicionais. A filosofia desses locais é baseada na ideia de gerar interação entre os hóspedes, proporcionando a troca de experiências e expansão da cultura de diferentes indivíduos, aliada à hospedagem de baixo custo.

O fundador deste modelo de hospedaria foi o professor alemão Richard Schirmann. A tradição conta que, durante uma viagem, ele foi surpreendido por uma tempestade e precisou improvisar um local para se abrigar na estrada. Ali, diante da dificuldade e pensando em outros viajantes, o professor teve a ideia da criação dos hostels e três anos mais tarde, em 1912, fundou o primeiro: o Albergue da Juventude na Alemanha, que funciona até hoje. A referência à juventude é devido às viagens que ele costumava fazer com estudantes; mas a modalidade não tem preconceito e pode ser desfrutada por pessoas de qualquer idade.

Por muito tempo, os albergues foram considerados locais de baixa qualidade, sem conforto e até inseguros, mas essa opinião tem mudado consideravelmente. Vinicius Faustino e Michel Fonseca são amigos e adeptos desta forma de acomodação. Vinícius viaja com a ideologia do baixo custo e já se hospedou em mais de 30 albergues de sete países diferentes, todos muito diversos entre si, alguns com água quente e luz, outros sem nem energia elétrica. Os dois amigos fizeram uma viagem à Europa em 2014 e contam que se hospedaram em três hostels diferentes, nos cinco países pelos quais passaram. Michel era receoso quanto a esta forma alternativa de estadia, mas trouxe de volta lembranças e opiniões positivas. “A minha impressão foi muito boa. As recepcionistas eram gentis e muito educadas, nos davam dicas e orientavam quanto ao turismo. Era um lugar seguro e agradável que ficou marcado para mim, e toda vez que voltar a Lisboa pretendo passar por lá ”, afirma.

Tomas Lima também uma boa experiência a respeito desses locais, apesar dos problemas pelos quais passou em seu projeto de conhecer o Brasil fazendo o tradicional “mochilão”. Ele sofreu um acidente na estrada, e conta sua história com muita gratidão pelo desfecho que teve: “Um carro me atropelou e não prestou socorro. Machuquei o joelho e tive de ir ao hospital, mas estava totalmente sozinho. Quem me ajudou foi um caminhoneiro que transportava coco. O motorista me levou ao médico e me esperou lá até eu ser liberado, depois me deu carona até uma cidade próxima para que eu pudesse vender o resto que sobrou da bike e seguir o meu sonho” Ele queria chegar ao Rio de Janeiro.

Foi nesse momento que Tomas conheceu a cultura dos hostels. Ele lembra que nesta etapa da viagem não possuía mais o mapa que lhe guiava, tampouco tinha internet para se localizar ou encontrar estadia, e mesmo que possuísse, também não havia dinheiro para pagar por ela. A saída encontrada foi a mais primitiva forma de negociação entre os seres humanos: a troca. “Já que eu estava sem nada, trocava comida e hospedagem por trabalho. Em alguns dias trabalhava na recepção, às vezes em serviços gerais, era bem relativo. Oque tivesse que fazer eu fazia.”

O rapaz realizou uma pequena etapa de seu sonho e diz que mesmo tendo passado por tanto transtorno em sua primeira viagem, não pretende parar com uma história apenas: “Eu deixei o Exército pra perseguir o meu sonho. Quero viajar o Brasil todo desse jeito. Minha família não gostou, mas me apoiaram. Voltei para Recife só por causa do joelho, estou em reabilitação, mas pouco a pouco vamos nos preparando para a próxima batida.” Sorri divertido o jovem que se apresenta na rede social como “Dora, na empresa Dora Aventureira” em referência ao desenho animado de uma personagem infantil que sempre se envolve em alguma aventura.

Vanderson Yamashita é outro entusiasta dessa modalidade. Ele afirma que gosta de conhecer gente nova e por isso optou por essa forma de hospedagem quando veio a Brasília tirar seu visto de turista em 2015. Segundo ele, os albergues proporcionam um ambiente mais amigável, adequado à interação do viajante: “É como se você entrasse num quarto com seus primos por exemplo. É alegre, aconchegante, deixa de ser algo do tipo ‘vim a trabalho’ e passa a ser ‘tô viajando cara, estou curtindo’ ”, diverte-se.

A gaúcha Andressa Hoff veio a Brasília a trabalho no ano passado para participar de um evento em Pirenópolis (GO) por alguns dias. Ela justifica que optou pela hospedagem em um hostel de Brasília em vez de se acomodar diretamente na cidade do evento, porque, ainda assim, o custo seria menor. Ela conta como foi sua experiência: “Usamos um aplicativo para localizar o lugar e nos encantamos ao chegar lá. O atendimento é maravilhoso, o ambiente é aconchegante, tem uma decoração ímpar e de muito bom gosto. A diversidade de culturas que encontramos nos proporcionaram momentos muito agradáveis de integração e amizade que levarei comigo por muito tempo”.

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Foto: Juliana Procópio

Temos amigos

Esse é o slogan do Hostel7, primeiro empreendimento do gênero em Brasília que inclusive possui padrão internacional de qualidade. Esse selo é conferido pelo Hostelling Internacional (HI), a única rede global de Associações de Albergues da Juventude. O local foi criado por Aurélio Araújo, Alfredo Moreira, Eldon Clayton, Danilo Lima e André Perotto,  cinco amigos que desde a infância viajavam juntos e idealizaram a ideia de criar a primeira rede de hostels do Centro-Oeste.

O albergue é novo, foi fundado há três anos, na época da Copa das Confederações. André Perroto conta que o desejo estava adormecido, mas nessa época tornou-se realidade. “A ideia vem de muitos anos; então em 2013 aproveitamos o evento esportivo que fez com nosso sonho fosse acelerado. Abandonei a profissão de agrônomo e hoje me dedico à administração dos hostels e em meio período sou organizador das atividades da casa”, explica. Hoje, eles possuem duas filiais, em Brasília e em Goiânia, e almejam fundar mais algumas: Quando perguntado sobre o porquê do número 7, ele sorri e responde: “ O 7 é um número cabalístico. Além disso, temos o sonho de ter sete hostels. ”

Ele analisa que no dia-a-dia do Hostel7 já não existe mais a tradição de receber apenas jovens mochileiros viajando e que o público é bastante diverso.“Há pouco tempo recebemos um grupo de mais de 30 pessoas da Áustria. O clima do albergue mudou, era inteiramente europeu”, anima-se recordando a façanha. E a variedade de hóspedes se mantém. “Hospedamos com frequência motoqueiros que viajam fazendo volta ao mundo e gente que estuda, faz pós-graduação e volta toda semana”, orgulha-se.

Perrotto explica a origem do termo hostel, que significa albergue em nosso idioma. Ele esclarece também que ainda existe a ideia geral de que albergues são lares de hospedagem para idosos e moradores de rua mantidos pelo governo, abrigos onde se encontra gente maltrapilha, carente e necessitada. Entretanto, os albergues filiados ao HI são auditados e avaliados. Caso estejam dentro dos padrões de qualidade, recebem o selo Hostelling International e passam a fazer parte da rede mundial de hospedagem, que possui em média 110 hostels no Brasil.

Experiência de qualidade

O empreendimento de André e seus amigos tem dado certo. O local conta com 38 leitos e recebe ligações frequentes de hóspedes buscando acomodação. Em contrapartida, ele critica a ambição de pessoas que desenvolveram projetos similares sem qualidade, focados no lucro puro e simples. “Com a Copa muita gente quis abrir. Achou que era só montar umas camas dentro da casa da avó. Mas a gente não vende camas, é mais que isso, é uma experiência mais complexa. Nós vendemos Brasília”, defende.

Como empreendedor e morador da cidade, André Perroto julga importante manter a ideologia dos albergues da juventude, integrar o hóspede à cultura local, saber fornecer dicas e orientações e cativá-lo. “Nós preservamos a alma do hostel, tentamos fazer com que a pessoa se sinta em casa”, argumenta. As opiniões dos hóspedes são boas e convidativas, como as de Andressa e Vanderson, que consideram o estabelecimento acolhedor e o mercado favorável. E seguindo por essa estrada é pouco provável que André e seus amigos não realizem seu sonho. Sete vezes ou mais, quem sabe.

 

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Foto de capa: Letícia Leonardi
Arte: Ana Velozo