Belezas ao norte

Planaltina é a cidade mais antiga do Distrito Federal e oferece aos turistas religiosidade e lazer

Daniela Martins e Jhéssika Almeida

Quando se fala em turismo em Brasília, logo se pensa em passear pela Esplanada dos Ministérios, ou percorrer o lago Paranoá e os diversos parques que a cidade tem. Apesar do encanto que Brasília oferece, é possível encontrar locais próximos com belezas pouco exploradas, além de vasta memória histórica e cultural. Mas antes de procurar o seu agente de viagens, vale a pena pensar em explorar as alternativas locais e conhecer Planaltina, cidade situada a aproximadamente 50 km de distância da capital e que tem muito a oferecer aos turistas.

Local tranquilo, igrejas, museu, pessoas sentadas na praça, crianças brincando no parque e muita história para ser relembrada. Considerada patrimônio cultural, do alto de seus 156 anos de história, Planaltina é uma opção de turismo regional para moradores de todo Distrito Federal. A riqueza da cidade se percebe em uma diversidade de pontos turísticos, com opções que vão desde as mais tradicionais, como arquitetura e religião e hotéis fazendas que oferecem lazer a turistas e visitantes.

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Foto: Evelin Criss

História e tradição

Planaltina se consolidou como cidade no final século XVIII, no chamado Ciclo do Ouro, em função da abertura de uma estrada colonial que ligava a Bahia aos sertões mineiro e goiano. Planaltina é um patrimônio histórico e cultural bastante frequentado por historiadores e estudantes e pode ser admirada pela beleza arquitetônica e cultural que é fruto de sua extensa história.

A arquitetura da cidade se mantém preservada e ainda hoje é considerada uma verdadeira aula de história a céu aberto. Com o crescimento físico e populacional de Planaltina, a cidade conta com diversos estilos arquitetônicos. Segundo o professor de arquitetura Marcílio Sudério, no centro histórico ainda se mantém a escala urbana próxima àquela datada do século XIX. “Mesmo com a preservação do centro histórico, é possível notar que em alguns pontos de Planaltina encontram-se traçados rígidos de bairros que foram projetados e outros, frutos de crescimento espontâneo”, afirma. Isso resulta no estilo predominante na cidade, o contemporâneo, de acordo com Marcílio. “A cidade remete às mais variadas influências, leituras e releituras de estilos anteriores, inclusive ao Modernismo, e de soluções atuais ligadas à tecnologia e a autoconstrução”, explica.

Entre outros atrativos que a cidade oferece está o Museu Histórico e Artístico, que tem em seu acervo utensílios e móveis da época. Inaugurado no ano de 1974, mescla características do século XIX e XX em seu estilo arquitetônico. Segundo a arquiteta Carolina Borges a estrutura desse tipo de ponto histórico deve ser preservada, já que serve como suporte de memória. “A arquitetura e a cidade fazem parte da vivência das pessoas que frequentam o espaço, e a memória é fruto dessa vivência”, explica.

A presidente da Associação dos Amigos do Centro Histórico de Planaltina (AACHP), Simone dos Santos, 56 anos, explica quais os objetivos principais do Museu. “Aliado à informação sobre a história da cidade, ele pode ser um espaço dinâmico com ações educativas, arte e cultura, saraus e roda de conversa. Além, dos eventos atrativos para que a comunidade se sinta representada e atraia turistas e visitantes”, esclarece. Para a estudante Lorenna Oliveira, 19 anos, esse tipo de instituição tem grande importância para a população local e também para os visitantes. “É uma forma da comunidade entrar em contato com a arte e a cultura, além de ser benéfica para a formação da opinião artística das pessoas”, diz.

 

Religiosidade

 

Planaltina é um dos centros religiosos mais importantes do DF. A cidade abriga o Morro da Capelinha, Igreja São Sebastião, Vale do Amanhecer e também é palco de festas religiosas que atraem desde moradores até turistas. No período pascal, o Morro da Capelinha recebe a Via Sacra, e dias depois Planaltina é movimentada pela Festa do Divino Espírito Santo, quando se celebra o dia de Pentecostes, que significa a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos, que passam a exercer muitos dons, entre eles, o dom das línguas.

A coordenadora da Via Sacra da Criança, Eliane Rodrigues, 52 anos, diz que a preparação da celebração reúne um número significativo de pessoas para receber os visitantes e turistas. “São 1400 membros voluntários trabalhando em prol da Via Sacra durante o ano inteiro. Há uma organização detalhada, e é um trabalho feito em conjunto com a Defesa Civil, médicos, bombeiro e polícia”, relata. Eliane também fala sobre a Festa do Divino. “É uma festa que acontece em todas as paróquias de Planaltina e atrai muitos turistas e pessoas que foram embora daqui e que se interessam em voltar e visitar a cidade nessa época”, diz.

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Foto: Evelin Criss

Aguinaldo Barbosa, 36 anos, trabalha na ornamentação da igreja São Sebastião. Ele lembra que o turismo na cidade vai além dos atrativos físicos. “A Festa do Divino não é um ponto turístico, mas se torna uma alternativa turística para quem vem conhecer, porque vê a diversidade de trabalhos e eventos; e assim é possível conhecer uma nova cultura. É importante destacar que a festa também tem um lado turístico”, ressalta.

O diretor de Articulação da Administração de Planaltina, Luiz Carlos de Sousa, conta que nesses períodos a cidade se prepara de forma bem estruturada. “Temos uma grande preocupação com a segurança, o transporte é reforçado, os mercados funcionam normalmente, e o número de médicos aumenta”, esclarece.

A artesã que mora no Espírito Santo, Amélia Entringer, 61 anos, está visitando a cidade, que já conhecia, e conta sua percepção. “Os valores são outros, o lado espiritual faz toda diferença. É realmente outra vida, é como se eu estivesse em outro planeta”, relata. Entre os atrativos que ela quis rever em seu roteiro de passeios está um dos lugares mais peculiares de Planaltina quando o assunto é religiosidade: o Vale do Amanhecer.

O local foi fundado na zona rural de Planaltina no ano de 1969 pela vidente Neiva Chaves como um movimento religioso e doutrinário. O estudante João Pedro Falcão, 18 anos, vem de várias gerações de participantes do Vale do Amanhecer. “É uma doutrina com preceitos cristãos, espíritas e com elementos de cultos antigos, sejam eles egípcios, maias ou nórdicos”, informa. João Pedro também descreve o que significa seu contato com o Vale do Amanhecer: “É o encontro consigo mesmo, as respostas e o êxtase das perguntas”.  

Atualmente, o Vale do Amanhecer conta com 25 mil pessoas trabalhando nas várias frentes de atuação da comunidade, que recebe em média de 20 a 30 visitantes por dia. Em períodos festivos, como a Festa do Doutrinador que acontece em 1º de maio, o Vale chega a receber pessoas de diferentes países, numa média 3 mil seguidores nesse dia.

 

Turismo rural e ecoturismo

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Foto: Evelin Criss

Ecoturismo está em alta ultimamente, e em Planaltina existem boas alternativas. A Estação Ecológica Águas Emendadas é um verdadeiro tesouro nesse sentido. É uma área preservada que só pode ser visitada com autorização da Secretária do Meio Ambiente do DF devido à diversidade de ecossistemas do cerrado que se encontram na região e por se tratar da única nascente de onde se originam as maiores bacias hidrográficas do Brasil.

O turismo rural também é bastante forte na região. Planaltina conta com vários hotéis fazendas que oferecem atividades rurais, como passeios a cavalos, ordenha de vacas e degustação de frutas tiradas diretamente dos pés.

Marco Freire é funcionário de um dos hotéis fazendas da região e conta que no local os visitantes têm contato direto com à natureza. “Os hóspedes desde a chegada ao Hotel desfrutam do ar puro do campo; é um lugar para se desconectar da rotina do dia a dia”, explica. Segundo Marco, o hotel é movimentado durante o ano inteiro, mas em feriados e nas férias costuma lotar todos os quartos. “Recebemos pessoas de várias localidades do Brasil e nas férias é comum recebermos alguns estrangeiros”, conta.

Para Ana Beatriz Alves, 22 anos, valeu a pena conhecer o hotel fazenda que visitou. “O almoço é extremamente delicioso e variado, tem piscinas aquecidas e lazer para as crianças, como brinquedos e piscinas infantis ”, diz.

 

Hospedagem ou hotelaria

 

Quem busca tradição e história em locais que carregam o passado da cidade deve procurar o setor tradicional de Planaltina. Nesta parte da cidade existem opções de hotéis que resistiram ao tempo e que têm muita história para contar. O Casarão Hotel é um desses lugares. Fundado no século XIX, tem arquitetura inspirada nas construções portuguesas, em estilo colonial.

De acordo com a funcionária do hotel Maria das Dores, 39 anos, a casa é uma das mais importantes para a região. “Desde pequena escuto histórias sobre esse hotel e de pessoas importantes que já se hospedaram aqui; as primeiras pessoas que vieram estudar Brasília ficavam aqui”, relembra. Maria das Dores conta que o Casarão recebe mais turistas em dias de festas religiosas, como a Via Sacra. “Quando tem os festejos da igreja, recebemos pessoas de todos os lugares do Brasil, normalmente gostam do estilo do Hotel”, afirma.

Clóvis Alves Araújo, 69 anos, morou em Planaltina por 45 anos, mas agora vive em Santa Rita de Cassia, na Bahia. Veio à cidade para realizar alguns exames, e sempre quem volta fica hospedado no Hotel Casarão. Para ele, o hotel tem um serviço muito bom. “Quem vem a Planaltina deve conhecer o Casarão; aqui a gente realmente se sente em casa. Às vezes até volto no tempo e lembro quando era criança”, conta. Segundo o aposentado, Planaltina é um bom lugar para morar, e ele enaltece: “Todos deveriam conhecer essa cidade; entre aqui e a Bahia, prefiro Planaltina. Não tem dois anos que fui para lá, mas estou doido para voltar (risos)”.

Planaltina mistura o passado com o presente e até mesmo o futuro. Ao preservar o passado, há a possibilidade de contar para as gerações futuras as histórias da cidade. Enquanto esse ciclo for preservado, sempre haverá histórias para contar.

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versão final- Mapa Planaltina