Totalmente vigiados

Técnicas de monitoramento evoluem para registrar características, preferências de consumo e opiniões políticas de usuários

Giovana Gomes

George Orwell representou uma sociedade vigiada em sua obra prima, o livro 1984. Nele continha a figura do Grande Irmão – Big Brother -, que tudo via e controlava. O escritor foi responsável pela criação de duas obras chave de crítica alegórica às ditaduras comunistas de caráter totalitário existentes na Europa e na Ásia e apesar de ser membro do Partido Socialista Inglês, não aprovava o controle da vida social pelo Estado.

Conexões a parte com os livros, o tocante com a realidade é enorme quando se fala de monitoramento de mídias sociais que atende infinitos interesses de quem contrata os serviços de empresas de monitoramento. Geralmente são outros empresários que desejam fortalecer negócios pelo conhecimento das preferências, opiniões e perfis de internautas que usam redes sociais

O monitoramento já acontece há muito tempo, pesquisas de opinião comercial, pesquisas de intenção de votos, todos estes elementos buscam controlar ou antever as ações da população. Porém o avanço da tecnologia facilitou o processo de vigilância digital. Este fenômeno pode ser visto nas eleições presidenciais de 2014, quando houve considerável aumento de pesquisa sobre o que as pessoas falavam nas redes sociais. Está tudo digitalizado e devidamente computado.

Não se trata de pesquisa de opinião, mas sim de uma busca pela informação mais precisa. O ambiente das mídias sociais criou esse espaço onde as pessoas expõem suas opiniões e os dados são muito importantes para empresas e governo no gerenciamento de possíveis crises, insatisfação ou simplesmente links mais compartilhados que lhes dizem respeito.

Ética digital

A interação entre homem e máquina é antiga, mas o momento atual em que a tecnologia se torna inteligente, é chamada, por especialistas, de quarta revolução industrial, a era dos sistemas smart. Segundo o Professor Doutor Luiz Iasbeck, vivemos a era da digitalização, onde “a imagem é mais importante que a essência das coisas. O fenômeno passa a ser aquilo que aparece digitalmente”, conta.

Ele ressalta que vivemos no mundo da visibilidade. “A foto é mais importante até que a pessoa. Se você não aparece, não existe. O que não passa no jornal não aconteceu”, diz o Professor. Passamos então a só realmente existir se nos submetermos à tecnologia que o próprio homem criou e programou.

Sobre a linha tênue entre a ética e o monitoramento, Iasbeck explica que foram os homens que programaram as máquinas e ferramentas delas, quando se usa sob a prerrogativa de tornar-se público não se pode voltar atrás. No caso do monitoramento, o modo público é primordial para o trabalho dos monitores. Porém, muita gente não se atenta na hora de publicar, e, sem saber, acaba nas malhas de empresas de monitoramento.

Esse é o caso da Buzz Monitor, ferramenta de grande porte que monitora ambiente virtual para outras empresas. Grandes empresas fazem uso desta tecnologia para monitorar suas marcas e potenciais clientes, como por exemplo: Rede Globo, UFC, Santander, entre outras. A empresa oferece ferramentas de ponta que são essencialmente necessárias para as empresas saberem o que estão falando delas.

Segundo Alessandro Lima, gerente da E-life, empresa que disponibiliza a ferramenta do Buzz Monitor, são monitoradas apenas publicações que são feitas em modo público no Faceebok. Ainda são vistos, o Twitter, Instagram, Youtube, Blogs, Forúns e notícias. .

Ele ressalta ainda que a intenção das empresas não é apenas a venda do seu produto ou marca. “As empresas grandes estão mais preocupadas com crises que atinjam sua imagem e com o atendimento ao consumidor a partir de canais próprios em redes sociais”, conta Alessandro. Esse atendimento feito pelas redes sociais é chamado de SAC 2.0, que é interativo e imediato ao cliente. O Facebook, a rede mais usada do mundo, criou até um ícone na página das empresas para informar se respondem rápido.

O representante da Buzz Monitor informa que estar na malha do monitoramento é escolha do usuário de cada rede. “Você pode escolher nas suas redes sociais não ser monitorado por uma ferramenta redefinindo suas configurações de privacidade. A decisão é do consumidor”, ressalta. O fato é que o ícone de escolha fica bem escondido nas configurações das redes, em meio a letras miúdas que não são de fácil entendimento.
Porém, as multinacionais não estão preocupadas com reclamações ou opiniões individuais e sim num montante de opiniões que podem ajudar, e muito, no momento de elaboração de campanhas com insights que os próprios consumidores podem dar às marcas de forma coletiva. O monitoramento serve para guiar a empresa segundo as opiniões emitidas nas redes sociais.

Segurança

As ferramentas de monitoramento facial, redes sociais e dados de telefones se sofisticou muito. A empresa NEC oferece soluções em segurança no ciberespaço e apresentou seu produto na V Feira de Segurança Pública que acontece no Rio de Janeiro todos os anos. Eles monitoram ataques cibernéticos em todo o mundo, desenvolveram software de reconhecimento facial em redes sociais e até na Deep Web, um submundo da internet que não se acessa por links comuns pois não é indexado aos mecanismos de busca padrão. É possível monitorar até tatuagens no sistema, que se chama NeoFace Watch.

A empresa já oferece serviço no Brasil para outras empresas, exceto órgãos públicos que têm o seu próprio sistema de busca, como é o caso da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), órgão ligado à presidência da república que tem suas ações fiscalizadas pelo Congresso Nacional por meio da Comissão Mista de Controle da Atividade de Inteligência. Todas as atividades de inteligência são realizadas com irrestrita observância aos direitos, garantias individuais e aos princípios que regem o Estado brasileiro.

Segundo a assessoria de comunicação da Agência, o respeito pelas publicações é imprescindível. Em nota, a Abin informou que “São fundamentos da atuação da Abin a defesa do Estado Democrático de Direito, a preservação da soberania nacional e a dignidade da pessoa humana”.

Assim, o monitoramento da Abin nas redes sociais se baseia também em publicações em modo público, trabalho fundamental realizado no escopo do trabalho de contraterrorismo. “Trata-se, de fato, de uma linha de trabalho que tem se mostrado imprescindível no combate ao fenômeno terrorista contemporâneo”, ressalta a agência.

No Brasil, o acesso às comunicações privadas só é permitido à polícia judiciária, com autorização judicial, em procedimento de investigação criminal. A Abin, mesmo sendo o órgão central da Inteligência no Brasil, não possui prerrogativa, nem mesmo em investigação relacionada ao terrorismo, para interceptar comunicações telefônicas, mensagens de celular ou e-mails.

Nos casos em que a Inteligência detecta possível realização de atos preparatórios para um atentado terrorista, as informações são encaminhadas à Polícia Federal para que se efetue a prisão ou para que se busquem elementos comprobatórios da materialidade do crime.

Portanto, a agência não tem autonomia para efetuar prisões, nem liberar grampos, apenas dá às autoridades as informações que sejam requeridas. Mesmo que haja empresas que ofereçam um trabalho mais aprofundado de monitoramento, a Agência sobrevive com os próprios mecanismos para proteção da soberania do Brasil, inclusive lidando com a recente ameaça de grupos extremistas islâmicos na eminência das Olimpíadas neste ano.

Foto: Bruce Macedo

Conteúdo do jornal na íntegra em: Jornal Artefato Junho 2016