Queda de braços desigual

Falta de ciclovias causa transtorno entre motoristas e ciclistas no trânsito da capital. Conscientização e cumprimento da lei que regulamenta as ciclovias podem reduzir problemas

Maria Alice Viola

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Foto: Alan Rios

Mauro Burlamaqui, 50 anos, é jornalista e durante um ano e meio optou por ir todos os dias para o trabalho de bicicleta. Percorria, diariamente, cerca de 40 km – o equivalente a 40 mil metros. Antes de sair de casa, tomava todos os cuidados necessários: colocava capacete, óculos, roupa especial e deixava as luzes e lanternas sempre ligadas e piscando. A bicicleta estava revisada, com pneus calibrados e freios em perfeito funcionamento. Como andava pelas ruas, respeitava todas as leis de trânsito, pedalava pela pista sempre na mão do fluxo de carros, parava em sinais e usava espelho retrovisor.

 

Mas durante o percurso, ele encontrava dificuldades como a falta de ciclovias, espaço para pedalar com segurança e a falta de respeito às leis por ciclistas e motoristas. Chegou a tomar muitos sustos, fechadas, buzinadas e ouviu palavrões. À noite, sozinho, esteve muito vulnerável a assaltos e foi por isso que Mauro deixou de utilizar a bicicleta como meio de transporte diário.
Para o jornalista, Brasília ainda não tem ciclovias suficientes e com bom estado. Existem algumas no Plano Piloto, no Guará, em Taguatinga e no Park Way, mas elas não estão ligadas umas às outras, dificultando deslocamentos mais longos. “Quem quer fazer da bicicleta um meio de transporte, e lutar por igualdade e por espaço nas ruas, deve andar e respeitar integralmente as leis como um veículo qualquer. Afinal, por que todos que andam pelas ruas são obrigados a seguir as leis, e quem está de bicicleta não?”, questiona.

 

Segundo o Código Brasileiro de Trânsito (CBT), bicicletas são consideradas veículos, com direito de circulação pelas ruas e prioridade sobre os automotores. Pela lei, os ciclistas devem utilizar ciclofaixas, ciclovias e acostamentos. Quando elas não existirem, devem usar o canto direito da pista, na mão correta. O ideal também é que não fiquem muito colados ao meio-fio, facilitando a visão dos motoristas.

 

Preocupação dupla

 

Motoristas também precisam estar atentos para evitar acidentes. “Quem está em uma condição segura tem que ter certo cuidado com quem está vulnerável. Há uma divisão injusta com os diferentes tipos de transporte”, comenta o mestre em trânsito, Victor Pavarino.

 

As principais regras para os motoristas são: manter distância de pelo menos 1,5 metros da bicicleta e reduzir a velocidade ao passar pelos ciclistas. Caso o motorista ameace a segurança de ciclistas, pode ser enquadrado no artigo 170 do CBT. Neste caso, ele terá que pagar multa de R$ 191,54, além de ter o veículo retido e o direito de dirigir suspenso.

 

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Foto: Alan Rios

 

Ciclovias

 

Um dos maiores problemas para quem anda de bicicleta é a falta de ciclovias na cidade. Um levantamento feito pela ONG Mobilize Brasil, mostrou a quantidade de espaço que as bikes têm nas metrópoles brasileiras. A soma das ciclovias nas capitais brasileiras passa longe dos mais de 1,2 mil km que os ciclistas têm à disposição em cidades da Europa, por exemplo. O Distrito Federal tem cerca de 400 km de vias próprias para o uso de bicicleta, mas ainda não é o suficiente. A falta de investimento para o meio de transporte alternativo é o principal problema.

 

Em março deste ano, o governador Rodrigo Rolemberg, sancionou a alteração da lei nº 3.639/2005 que regulamentava a construção de ciclovias apenas em estradas. A partir de agora, todas as obras no sistema viário de Brasília deverão prever no projeto a criação de ciclovias, ciclofaixas e infraestrutura cicloviária.

 

Victor Pavarino comenta que não há ciclovias suficientes para atender a trajetória dos que a utilizam. Além disso, elas não estão em boas condições e o asfalto, na maioria das vezes, está mais liso que as ciclovias. Já o grupo Rodas da Paz avalia positivamente o fato de o governo do DF dar mais atenção e direcionar recursos para incentivar o uso da bicicleta como meio de transporte nos últimos anos.

 

Pedalando

 

Além daqueles que fazem da bicicleta um meio de transporte, há quem a utilize para o lazer e a prática do esporte. Em Brasília, existem diversos grupos de pedal que buscam atender a todos os gostos no meio ciclístico. Alguns praticam pedal noturno pelas vias da cidade, outros mountain bike pelas belas paisagens do cerrado e há, ainda, aqueles que buscam desafiar limites em tempo e velocidade com pedal do tipo speed.

 

Esses grupos são formados por pessoas comuns, de diversas idades e de ambos os sexos. Normalmente, começam com amigos que entre um passeio e outro enxergam a possibilidade de ampliar amizades e proporcionar a prática do esporte com descontração.

 

O Rebas do Cerrado é um grupo brasiliense de mountain bike que se uniu em prol da paixão pela bicicleta, natureza, aventura e para superar desafios. Segundo a coordenadora e fundadora, Janice Pereira, o Rebas se pauta nos valores de solidariedade, amizade, liberdade, bom humor e respeito ao meio ambiente. “É um projeto de vida, com um viés bastante social. Quando iniciamos, em 2003, não imaginávamos que manteríamos por todos esses anos da mesma forma como foi idealizado”, comenta.

 

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Foto: Alan Rios

 

Ciclovias x ciclofaixas (quadro de curiosidade)

 

As ciclofaixas são vias pintadas nas ruas e avenidas e dividem espaço com os carros.

 

As ciclovias são vias separadas fisicamente das vias de veículos por canteiros, calçadas, muretas ou meio fio.

Veja o infográfico abaixo e saiba como prevenir acidentes:

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