“Ócios” do ofício

Dalila Boechat

Ele tinha 21 anos, era estagiário e trabalhou 21 horas consecutivas por três dias seguidos. Resultado? Morte. Este foi o capítulo final do alemão Moritz Erhardt, estudante de administração. Prestes a terminar sua última semana no programa de estágio no Bank of América, em Londres. Erhardt morreu por uma crise epiléptica que, segundo relatório médico, poderia ter sido evitada com repouso adequado.

 

A ciência atesta. O corpo demanda. A mente clama. Mas ao longo de nossa rotina, não costumamos dar ouvidos a nenhum deles. Casos como o do estudante alemão não são raros. Todos nós assinamos embaixo. E voltamos a trabalhar, cumprindo, se não, 21, como o estagiário, nossas sagradas oito horas diárias.

 

O ócio: descanso, repouso, folga de trabalho. Frequentemente visto como sinônimo de vergonha e impotência, reivindica lugar espontâneo na rotina de cada ser que estuda, trabalha, vive, pulsa… O cotidiano ocioso, em medida certa, é primordial. O repouso saudável nos possibilita descobrir e cultivar sentimentos – uma vez que nos encontramos tão abafados pela poluição mental e cultural. Podemos assim, enxergar nitidamente nossa condição. Ressalto que não me proponho a descrever o ócio de uma maneira sociológica, que dirá empírica, e, sim, trazendo um quadro do que seria ideal. Elegendo o que deveria ser acessível a todo e qualquer ser humano.

 

tempore-creare, “tempo criativo”, em expressão latina, vai se estender além das férias programadas e dos limitados fins de semana – que não passam de uma extensão passiva do trabalho.Proponho uma nova maneira de encarar nossa programada realidade. Não excludente, mas flexível. E, quem sabe, inédita em relação ao estigma de cotidiano que se conhece até hoje. Proponho a valorização do repouso, da profusão de calma, da escolha voluntária. Permitiremo-nos o descanso. Caso contrário, seus olhos serão vendados pela lógica da indústria. Seremos, todos, um único vazio, apenas.

É agora questão de urgência. Simples e desnorteados, despejamos nossa escassa vida, que pode ser tão plural, em moldes redutores, quiçá fatais. Na busca de um referencial, perdemos nossas próprias raízes. A racionalidade cega tem nos guiado. Almejando um futuro – seja ele representado pelo cargo público do salário mais alto, por exemplo – nascemos fertilizados por uma doutrinação “eficaz”. Doutrinados por uma educação padronizada e parcial, trabalharemos fatigados, porém, sorridentes quando a sacarmos a felicidade no quinto dia útil do mês. Aptos a construir uma família tão plástica quanto aquela do comercial de margarina dos anos 80.

Precisamos assimilar que o ócio traz sentido, reflexão e gozo para o ser. É o momento em que toda e qualquer forma de arte, tão incipiente na rotina geral, pode ser concebida na expressão dos indivíduos. A beleza pode ser contemplada pelo ócio. É pelo ócio que se recupera a saúde. Vive-se a criatividade nata. Experimentamos a oportunidade de revitalização, e com ela, adquirimos uma consciência autêntica. Transbordamos as fronteiras do pensamento automático para uma existência diária salutar e espontânea. É esta minha proposta, sem maiores limitações. Bom… Na melhor das hipóteses, adotá-la reduziria os índices de óbito entre estagiários e trabalhadores, concordam?

 

Sisifo
Sisifo, de Tiziano Vecellio 1548-1549 (Créditos da pintura – Domínio Público)

 

Sem ócio não há filosofia:

Inspirado por Platão, o filósofo Aristóteles, cerca de 200 anos a.C., em sua obra “A Política”, já expôs: “O primeiro princípio de toda ação é o ócio. Ambos (ação e ócio)  são necessários, mas o ócio é melhor do que a ocupação e é o fim em razão do qual esta existe”. (livro VIII, parte III). Entre os gregos, o trabalho era considerado a manifestação da desventura humana, logo, desprezado. Ademais, para os helenos, a vida ideal não se configurava na existência simbolizada pelo labor ou enriquecimento, mas sim pelo prazer – obtido, sobretudo, pelo ócio. Este era considerado o fim em si do cotidiano dos homens livres na polis. O interesse acerca do ócio continuou provocando reflexões ao longo dos séculos. No Renascimento, a dicotomia trabalho-lazer despertou indagações no humanista Thomas Morus em sua obra “Utopia”, na qual anunciava o valor do tempo livre no cotidiano.

Já na modernidade, o existencialista Albert Camus resgata o mito grego de Sísifo. Na fábula, o personagem, filho do rei Éolo, era tido como a criatura mais sagaz dentre os mortais. Por desobediência, foi condenado a repetir incessantemente a mesma tarefa: empurrar uma pedra rumo ao pico de uma montanha para que ela voltasse a cair e Sísifo tivesse de empurrá-la novamente, anulando, assim, todo o trabalho empreendido. Camus equipara a condição de Sísifo com a conjuntura contemporânea: apenas no momento “ocioso” – em que a pedra desce montanha abaixo – é que o personagem, livre do esforço, é passível de adquirir consciência de sua condição.

O filósofo britânico Bertrand Russell, em sua obra “Elogio ao ócio”, dedicou-se a buscar abordagens sobre o ócio associando-o com a subsistência de uma sociedade já marcada pelo desenvolvimento tecnológico. Atualmente, a questão vem sendo abordada por pensadores contemporâneos como Domenico de Masi, reverberando em textos e ensaios, esta necessidade universal que, hoje, faz-se ainda mais imprescindível.