O grafite por elas

Mulheres se profissionalizam na arte urbana e são inspiração para que o público feminino se empodere. Mesmo com condições desiguais de trabalho elas se destacam

Daniela Martins e Maianna Sousa

Locais movimentados, pessoas indo trabalhar e estudar, buzinas, congestionamentos. Em meio a tanto estresse, uma pessoa se destaca. Ela parece estar calma. Observa o muro atentamente, segura um spray e, aos poucos, solta a criatividade. Aquela parede que era praticamente invisível começa a ganhar forma e cor, por meio da pintura. Os passantes começam a observar, as buzinas diminuem e os passos se tornam a cada vez mais lentos. A todo momento a parede fica mais colorida e chamativa. E o que ela está fazendo ali? Mostrando ao mundo sua arte no grafite.

O grafite é uma das formas de expressão da street art. As pinturas realizadas nos muros e em outros espaços da cidade são uma intervenção do artista, independente de autorização legal dos órgãos do patrimônio público. “Não existe essa relação da arte ser legalizada. A consciência e o olhar vêm de quem faz”, opina o jornalista e também grafiteiro Gilmar Satão, que há 24 anos colore os muros de Brasília com o grafite.

A street art traz muita adrenalina e também muitos riscos. Esta é uma das razões pela qual a arte urbana tem sido dominada por homens, mas agora as mulheres do grafite começam a chamar a atenção pelo trabalho. A grafiteira Fabrícia Furtado, conhecida como Brixx, conta que as mulheres ainda enfrentam obstáculos no mundo do grafite. Para ela, a arte urbana pode colocar a mulher em uma situação vulnerável. “Se a pessoa estiver sozinha pode ser abordada, como já aconteceu várias vezes comigo, e isso deixa a gente com medo, porque nunca se sabe o que pode acontecer”, alerta.

A artista plástica Michelle Cunha conta que tem vários relatos de preconceito contra mulheres grafiteiras. “É possível até escrever um livro”, brinca. Um desses acontecimentos foi em um evento organizado por homens. “Foi um festival onde não havia quase nenhuma representatividade feminina. Eram mais de vinte artistas e uma única mulher. Então, é como se não existisse mulheres pintando”, comenta. Fabrícia concorda com isso: “O machismo é uma coisa que está aí para quem quiser ver, e o grafite é um meio predominantemente masculino. Então, para uma grafiteira se manter durante anos, é necessário muito trabalho’’, explica.

Mas para a socióloga Vívian Silva, uma das causas dessa situação é a disparidade geral de oportunidades que homens e mulheres encontram na sociedade, e isso acontece desde a infância. “É preciso identificar as relações de desigualdades de sexo e seus reflexos no mercado de trabalho e da arte. Os homens grafiteiros não representam um inimigo comum para as grafiteiras. As relações desiguais entre eles podem refletir uma maior participação dos meninos em projetos sociais e culturais que envolvem o grafite”, esclarece.

Elas no grafite

A despeito das dificuldades, as mulheres sempre buscam promover eventos para se encontrar e discutir a cena do grafite na cidade. Em abril deste ano, aconteceu em Valparaíso de Goiás o 1º Encontro de Grafiteiras do Distrito Federal (DF) e Entorno, batizado de Elas por Elas. A estudante de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB) Raquel Braz, que assina as obras como Bralo, relembra: “Quando comecei com o Ramon — Andrade, grafiteiro de Luziânia — não havia mais ninguém.  A gente teve que ter iniciativa. Usamos uma praça que era do pessoal do skate’’, comenta. Daí em diante, foram muitos movimentos, frequentemente voltados para a sensibilização do público feminino. “Resolvemos nos unir para incentivar mais mulheres a grafitar, mas nós estamos presentes em todos os eventos’’, conta a estudante.

O interesse em unir mulheres também é central nas escolhas de Brixx, proprietária de uma galeria na 502 Sul do Plano Piloto. “A minha ideia é oferecer um espaço para as mulheres. A galeria é gerida por mim, tem as DJ´s que eu convido para tocar nas aberturas, e eu também quero colocar artistas para mostrar que as mulheres são capazes de fazer coisas maravilhosas”, comemora a artista.

Michelle Cunha é outra grafiteira que vem organizando oficinas buscando a participação exclusivamente feminina. “A ideia é compartilhar com outras mulheres o que aprendi na rua e criar um movimento em que elas possam se sentir empoderadas”, diz. Ela explica que essa estratégia de aproximação entre as mulheres faz com que se sintam mais seguras. “Esse estado de empoderamento vem tanto com o domínio de uma técnica, como também do ato de se colocar na rua e ter coragem de estar na rua, o que dá muita força e firmeza”, esclarece.

Para o grafiteiro Koithi Hamada, essa união é uma forma das mulheres verem o outro lado do grafite: “Às vezes as mulheres não adentram o movimento por achar que é muito masculino. Mas no momento em que elas conseguem levantar a banca delas, a autoestima, já podem ter mais confiança para fazer as suas próprias ações”.

Liberdade nas paredes

Os desenhos deixados nas paredes também podem ser uma forma de expressão na luta pela aceitação da arte feminina. Mas isso não significa uma alienação em relação aos dilemas da sociedade. Muitas grafiteiras costumam utilizar esse espaço para deixar mensagens que façam as pessoas refletirem sobre o mundo e seus dilemas.

Esse é o caso da estudante Lívia Guimarães, que utiliza as paredes e muros da cidade para expor inquietações sobre a realidade. “Eu gosto de desenhar mulheres, trabalhar com frases de empoderamento e palavras de ordem”, relata. Mas não é só Lívia que utiliza o grafite como uma ação política. A estudante Carolina de Lima segue com o mesmo intuito. Ela utiliza o espaço para mostrar temas relevantes para a sociedade. “Eu faço bonecas delicadas, mas que trazem frases sobre o feminismo ou contra a homofobia”, explica.

Ambas são iniciantes, mas já buscam levar suas inquietações para os muros. Recentemente, Lívia homenageou a estudante Louise que foi morta pelo ex-namorado na Universidade de Brasília (UnB). Ela desenhou um coração e colocou o nome da jovem com a palavra presente. Já Carolina de Lima começou a fazer grafite para desenhar bonecas que fazem críticas a diversos temas, como o racismo.

Barreiras históricas

Mesmo com os obstáculos, elas vêm se superando e encontrando no grafite um canal de libertação expressiva e produtiva. Mas é importante ressaltar que essa condição de dificuldade para as mulheres nos circuitos das artes plásticas não é exclusiva das grafiteiras. No Brasil, os registros mostram que as mulheres não eram aceitas em diversas escolas de arte no século 19.

Na época, o ensino era baseado no desenho de modelo vivo, exercício em que uma figura humana é representada a partir da observação de um modelo nu. A prática permitia ao artista desenvolver a técnica para adentrar no mundo da pintura com temas civis, vistos como masculinos. Às mulheres restava a pintura de natureza morta, considerada até hoje com menor valor artístico. “As mulheres eram impedidas de participar das aulas de modelo vivo por isso ser considerado contrário à sua honra, enquanto este curso era essencial para que os homens produzissem as formas mais consagradas de arte’’, explica Patrícia Reinheimer, professora de Antropologia Social na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

Mas a arte não apenas reflete e transmite ideias de uma sociedade e de um período, como os contesta. As mulheres continuam a discutir e propor novas regras, externando sua visão de mundo através da arte. “Isso se torna notável principalmente a partir do modernismo, quando o cânone deixa de ser a cópia da realidade externa e os cursos de modelos vivos deixam de ser uma condição de participação em formas mais consagradas de arte, como a histórica, por exemplo’’, comenta Patrícia. Ela enfatiza que as mulheres do grafite brasileiro têm tudo para manter essa marca: “No Brasil há mais mulheres entre os grandes nomes das artes plásticas que em outros países”.

Capturar
E aí! Você conhece as gírias do graffiti?

 

GRAFITEIROS FAMOSOS NO BRASIL:

OSGEMEOS: Nascidos em São Paulo, os irmãos encontraram na arte o talento, a diversão e uma maneira de se comunicar. Gustavo e Otávio Pandolfo  nasceram em 1974 e de lá para cá conquistaram o público, por meio de seus desenhos.

Eles priorizam a cor amarela em seus trabalhos que para os irmãos simboliza a energia, e utilizam técnicas ricas em detalhes. A trajetória é marcada por exposições individuais e coletivas em diferentes países. Seus desenhos podem ser encontrados em Nova Iorque, Miami e Atenas.


ZEZÃO: Grafite em paredes? Não, somente. Esse artista tem seu diferencial que começa na escolha do local para grafitar. Quando era iniciante fazia grafite em paredes que é o comum de se ver, mas o grafiteiro não parou por aí, e locais abandonados, bueiros, esgotos e estações de tratamento são lugares escolhidos por Zezão para expor sua manifestação artística.

O que é abandonado e esquecido ganha vida com os desenhos feitos pelo artista. Através da arte, regiões desprezadas ganham vida e cor.


NINA PANDOLFO:  A artista plástica nasceu em São Paulo e é uma das primeiras a fazer arte de rua que também é conhecida como street art. Seus desenhos são marcados pela feminilidade e pelas cores.

Nina busca levar a arte de rua para dentro das galerias. Umas das características fortes nos personagens da artista é as meninas que tem olhos grandes e os insetos que ela traz para mostrar a beleza contida na natureza. Seus desenhos podem ter vários significados.

Nina é conhecida internacionalmente, e já apresentou trabalhos na Grécia e na Alemanha, além de ter participado de projetos com outros grafiteiros famosos do Brasil, como OSGEMEOS.


MAG MAGRELA:  Seus trabalhos são feitos em locais espaços, e atingem grandes proporções, com isso chama a atenção de quem passa por esses locais. A artista busca colocar seus sentimentos no que desenha. O olhar é um fator que marca seus personagens, e é onde reflete a tristeza e a alegria. Normalmente suas pinturas retratam o lado mais triste do seu humano.

A mistura de cor e realidade que coloca em seu trabalho é muito grande, tanto que sua pintura se parece com um retrato.

ANARKIA BOLADONA: A grafiteira expressa em seus trabalhos a revolta que sente com as mulheres que são agredidas. Em alguns desenhos ainda acrescenta uma informação muito importante que é o número para denúncia.

Com o tempo o graffiti evoluiu e ganhou novos estilos, essa mudança continua até os dias de hoje. Conheça alguns deles:

freestyle em oakland eua credito commom license wikipedia
Free Style O Free Style, como o próprio nome em inglês indica, é um estilo livre de arte, que inclui todas as criações do grafite, misturando desenhos, letras , assinaturas.Todos os grafites incluídos nesse estilo costumam ser trabalhados com todos os tipos de materiais, mesmo que não sejam tintas spray e látex, criando efeitos diversos.
graffiti 3d commom license wiki
3D Style Este estilo é caracterizado por efeitos em 3D ( 3º Dimensão ), conhecido no meio dos artistas como Graffiti Virtual esta técnica exige bastante conhecimento com luz, sombra, plano de fundo e profundidade. Um estilo bastante conceituado por suas formas e cores.
throw up feito por revok credito comom license wikipedia
Throw Up O throw up é uma pixação evoluída, segundo os grafiteiros. A maior parte das produções de grafite são no estilo throw up ou conhecidos como BOMB´s por serem mais fáceis, econômicos e geralmente feitos em lugares não autorizados. São usadas poucas cores, mas bastante contraste entre si. Normalmente não se pinta o fundo e muitas vezes as letras desenhadas tem formato arredondado, como se tivesse vida própria.
Wildstyle São Francisco feito por CHEZ
Wild Style Este é um estilo de Graffiti mais elaborado com letras trançadas de contornos fortes e bem coloridos, chamam bastante a atenção pela dificuldade em se ler, principalmente por pessoas que desconhecem esta arte. Um estilo cada vez mais adotados pelos artistas nacionais e internacionais.