Mãe em primeiro lugar

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Elas estudaram, se aventuraram na carreira profissional e abandonaram tudo para viver o que acreditam ser o maior desafio da vida: a maternidade

Lorena Carolino

Ser independente, estudar idiomas, cursar administração, especializar-se em um mestrado e aventurar-se no doutorado. Estes desejos sempre estiveram latentes nos sonhos de Angélica Velasques, 36 anos. Como profissional, construiu uma carreira de sucesso e trabalhou muito, até que teve uma grata surpresa: a gravidez. Angélica afirma que descobriu a felicidade plena em cuidar do filho e, então, abriu mão de tudo para perseguir esse objetivo. O marido apoiou a decisão e a ajudou em todas as etapas. “A colaboração dele foi de extrema importância. Ele me incentivou, me apoiou e esteve comigo em todas as decisões. Isso foi mágico”, revela.

Conciliar as funções de mãe, amiga, mulher e profissional não é simples. Ao longo dos anos, as mulheres lutaram para alcançar destaque no mercado profissional. E conseguiram. As muitas batalhas travadas e vencidas vieram acompanhadas de grandes responsabilidades e inúmeras cobranças sociais. Na correria do dia a dia, Victória Toledo, 29 anos, tem um compromisso marcado com Alice, quatro anos. Para ela, a dedicação é diária e em tempo integral. Victória abriu mão da carreira para se dedicar à filha com tempo, atenção, estímulo e muito amor. “Quando descobri que estava grávida, coloquei em uma balança a rotina pesada que eu levava e a minha nova fase de vida e vi que não valia a pena sacrificar o tempo com a minha filha por nenhum trabalho desse mundo. Não me arrependi e faria tudo novamente”, garante.

Eriane Castro, 23 anos, passou por situação parecida quando descobriu que estava grávida, aos 20. Ela trabalhava como consultora de seguros e, algumas vezes, precisava atender os clientes até tarde da noite. Isso foi fundamental para esta escolha. “Ainda na gestação eu tomei a decisão de que sairia do meu emprego e que passaria a primeira infância ao lado da minha filha. Queria moldar a personalidade e os valores dela”, conta.

Eriane considera que a primeira infância — período que vai desde a concepção do bebê até os seis anos de idade — é um momento de extrema importância na formação da criança. É quando o vínculo se estreita, quando os pequenos começam a descobrir os sentimentos. “Ter os pais nessa primeira fase da vida, ensinando a lidar com os sentimentos e valores, é muito importante e saudável. Minha filha tem personalidade forte, mas é uma criança calma e muito compreensiva. Sei que isso é fruto do meu trabalho com ela nos primeiros meses”, avalia.

Maria Emília, 38 anos, não abriu mão da carreira no primeiro momento e tentava suprir com presentes a falta que fazia para o filho. “Eu sentia o peso da culpa de não ser tão participativa na vida dele, me sentia cansada por causa do trabalho e, muitas vezes, tentei suprir esse vácuo com brinquedos”, recorda.  Apesar disso, em 2012, ela decidiu abrir mão da carreira profissional para cuidar exclusivamente do filho. Em 2014, teve outro filho e o cenário era outro. “Eu o criei com aleitamento materno exclusivo. Ele não tinha a interferência de outros líquidos, exceto xaropes e vitaminas.  Foram poucas as vezes em que precisei ir ao médico com ele”, atesta.

Segundo a psicóloga Lia Clerot, a presença dos pais na vida dos filhos é essencial, pois é a partir da convivência que o amadurecimento emocional, psicológico e cognitivo virá. Mas como nem todos os pais conseguem disponibilizar todo o tempo do dia para essa tarefa, é importante observar a qualidade do momento reservado à criança. “Períodos de interação familiar são fundamentais para o amadurecimento. É importante reservar tempo para refeições em família, brincadeiras e atividades que reforcem esses laços. Não adianta os pais se sentarem à mesa para comer juntos, se estiverem no celular o tempo todo, por exemplo”, alerta.

Alternativas

A advogada Michelle Marcondes, 35 anos, não deixou de trabalhar totalmente após o nascimento dos filhos. Hoje, realiza as atividades em casa e no período da noite, horário em que as crianças estão dormindo. “Antes de ser mãe, eu já atuava como advogada, ministrava aulas de direito e tinha uma carga bem maior de clientes. Quando tive meu primeiro filho, precisei tomar a decisão de trabalhar em casa e diminuir o número de clientes para ter mais tempo”, explica.

Depois de um tempo, ela engravidou do segundo filho. Desta vez, uma menina. Os planos da advogada incluíam a volta à rotina normal quando as crianças estivessem maiores. Mas ela teve que se readaptar: “A Maria Eduarda nasceu com um atraso motor e precisava de muito tempo, estímulo, terapias e programas que incentivassem o desenvolvimento. Eu precisei acompanhar passo a passo. Com o tempo, percebi que essas atividades também fariam bem para o meu outro filho e, hoje, os dois fazem atividades como futebol, aulas de música, hipismo e natação”.

Apesar das muitas críticas que recebeu, Michelle afirma que não se arrepende da decisão e percebe um bom progresso na vida dos filhos. “Muita gente critica minha rotina, mas eu não ligo, pois vejo um ganho enorme na vida deles. Eles não fazem birra e não pedem a atenção dos pais, porque estamos sempre presentes. Esse é um diferencial”, conclui.

A psicóloga Lia Clerot esclarece, ainda, que as escolhas na maternidade costumam vir acompanhadas de críticas da sociedade e que isso não quer dizer que uma decisão é mais correta do que a outra. “O que observo é que se a mulher opta por trabalhar fora é criticada por não dar tanta atenção. Se decide se dedicar à criação dos filhos é julgada por ter um pensamento retrógrado. As escolhas carregam bônus e ônus, sendo igualmente desafiadoras”, pondera.

Cuidar dos filhos é uma atividade que exige esforço e dedicação, mas traz alegria e contentamento. Ser mãe em tempo integral traz inúmeras satisfações para a mulher, como estar presente quando o bebê fala a primeira palavra, segurar na mão da criança e ver os primeiros passos e acompanhar a primeira ida à escola. Essas mulheres passam por cima do preconceito social e seguem rumo à maior conquista de suas vidas: cuidar dos filhos em tempo integral. Elas reafirmam para a sociedade que a profissão escolhida foi ser mãe em todos os momentos.

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