Jonas Banhos e os livros viajantes

Sem pedir nada em troca, ele criou uma biblioteca itinerante que percorre todos os cantos do Brasil. A iniciativa permite que o amor pela leitura chegue até crianças quilombolas, ribeirinhas e indígenas

 Hariane Bittencourt

Jonas é um sujeito diferente. É daqueles que têm coragem de sair da zona de conforto. Parece ter superpoderes. É desses que inspiram, emocionam e contagiam até mesmo aos corações mais duros, com gestos que fazem renascer a esperança na humanidade. Aos 44 anos, o amapaense foi além do modelo social vigente. Com atitudes concretas, prova que quanto mais dá, mais recebe. Capitaneando um projeto que leva leitura para crianças ribeirinhas, indígenas e quilombolas, ele transforma o amor pela literatura em um sonho a ser realizado: o de que, um dia, todos os pequenos tenham acesso ao encantado universo dos livros.

Filho de Jonas e Maria Caetana, ele é o terceiro de quatro irmãos. Nasceu na cidade, mas sempre manteve os dois pés às margens do Rio Amazonas. Passou a infância ligado à vida das comunidades rurais do extremo norte do país. Tudo era muito simples, sem luxo algum. “Cresci navegando por essas águas, me aproveitando da pureza que é estar numa zona rural”, recorda. Quando menino, a diversão de Jonas era tomar banho de rio, comer fruta do pé das árvores e varrer o quintal da avó com uma vassoura de palha – da qual se lembra, em detalhes, até hoje.

Entre os presentes que ganhou da vida estão o amor dos familiares e a maior herança: o gosto pela leitura. “Como éramos pobres, a nossa riqueza era estudar. Meus pais sempre nos colocavam no meio dos livros”, diz. E quando o assunto é literatura, uma doce lembrança povoa a mente de Jonas. Ainda criança, ele via a felicidade chegar quando o pai o presenteava com gibis. Ali, de maneira inconsciente, nascia uma fulminante paixão pela leitura.

Daí em diante, não parou mais. A cada quinze dias, ele se deliciava com um clássico diferente e se encantava com a possibilidade de viajar para lugares inimagináveis sem o menor esforço físico. “A graça da leitura é que ela nos permite criar a própria história. As paisagens e a forma dos meus personagens são só meus”, destaca. Mas, junto com o fascínio pela literatura, Jonas trazia consigo uma inquietude de tirar a paz. Nunca suportou calado a realidade social posta. A pobreza extrema, a fome, a falta de oportunidades. Para ele, fechar os olhos diante dessas situações nunca foi uma possibilidade.

“Vivemos num mundo de exclusões, preconceitos, discriminação e desamor. Eu sempre achei que reclamar era muito pouco, queria agir”, afirma. E foi num desses momentos de insatisfação, em 2006, que Jonas decidiu transformar todo desejo em ação. Com a vida financeira equilibrada, mas com o coração angustiado, embarcou numa viagem que se tornaria decisiva. Comprou as passagens, arrumou a mochila e partiu para Machu Picchu, no Peru. Em 23 dias de aprendizado e enriquecimento espiritual, ele voltou certo de que daria início a um projeto que o faria retornar às origens.

Desde então, foram dois anos matutando sem parar. Ele reduziu gastos e diminuiu o padrão de vida. Juntou forças, dinheiro e coragem. Tirou uma licença do serviço público e se jogou de corpo e alma na recém-nascida Barca das Letras. “Comecei a ajudar esses povos que são invisíveis socialmente. Voltei para a minha terra e fui visitando comunidades tradicionais da Amazônia”, explica. A Reserva Extrativista do Rio Cajari, no Amapá, foi a primeira felizarda. Muito humilde e isolado, o local recebeu a Jonas de braços abertos.

Com a chegada dos livros, as crianças, tímidas e inocentes, distribuíam os mais sinceros sorrisos. Uma a uma se aproximavam, como quem conhece o que nem sequer existia. Cada exemplar doado foi arrecadado em Brasília e, depois, entregue à população ribeirinha. E o tempo passou veloz. O projeto se expandiu e foi premiado, inclusive, pelo Ministério da Cultura. Em 2011, Jonas regressou à capital do país seguro de que, nas comunidades visitadas, as coisas estariam sob controle. “Em cada local a gente cria um vínculo e deixa pessoas que continuam o trabalho de incentivo à leitura”, conta.

Hoje, a certeza de que a escolha por servir ao próximo foi a mais acertada é a garantia de um sono tranquilo para este amapaense. Em oito anos de dedicação, mais de 70 mil livros já foram doados e, pelo menos, 50 municípios foram atingidos por esta onda do bem. Comunidades dos quatro cantos do país já receberam, sempre de bom grado, intervenções da Barca das Letras. E sabe qual o melhor disso tudo? O brilho no olhar de cada um dos pequenos atendidos. “As mães contam que quando os filhos ouvem no rádio que nós vamos chegar, mal dormem. Essas crianças sabem que a gente traz o alimento para a alma, o mundo dos livros”, emociona-se.

Um dia, a leitura mudou a vida de Jonas. Agora, ele enxerga a mudança na vida desses meninos e meninas. É bem provável que, sem o projeto, grande parte deles jamais tivesse essa oportunidade. “Eu verei nascer, nessas comunidades, os futuros Chico Mendes que não serão enganados pelos destruidores da floresta. Mas também nascerão poetas, palhaços e cidadãos, que é o principal”, vislumbra. Titio palhaço ribeirinho, como é carinhosamente chamado pelos pupilos, mal sabe o bem que faz. O impacto desse trabalho vai fazer com que, desde já, floresça uma nova e encantadora geração de leitores.

Serviço

E então, se sentiu inspirado? A sede da Barca das Letras está em Brasília. Quer ajudar? Doe livros infantis, material escolar e, é claro, brinquedos! O projeto também aceita doações em dinheiro para se manter vivo.

Telefone: (61) 8355-7232

E-mail: barcadasletras@gmail.com

Endereço: CLN 113, Bloco A, Sala 95 (subsolo)