Eles voltaram: lindos, crespos e cheios de volumes

Mulheres e homens deixam o alisamento de lado para assumir os fios naturais. Romper com preconceitos e manter a autoestima são fatores que valorizam os cabelos

Tatiane Alice

Estica, puxa, abaixa o volume — essa é a rotina de muitas pessoas que alisam o cabelo. No final dos anos 90, a chapinha se tornou muito popular e, depois dela, diversos processos de alisamento começaram a invadir os salões. Produtos à base de guanidina e formol fizeram, literalmente, a cabeça de muita gente. Na mídia, propagandas ofereciam desde alternativas para abaixar o volume até as que alisavam definitivamente. Mas, nos últimos anos, muitas pessoas têm escolhido assumir os cabelos como são.

Quando alguém decide parar de alisar o cabelo e a raiz começa a crescer, os fios ficam com duas texturas diferentes. Esse momento é chamado de transição capilar, um termo muito usado na internet e por cabeleireiros. Existe também o grande corte, que é quando corta-se toda a parte alisada. O retorno dos cabelos cacheados e crespos é um movimento que está cada vez maior: um dos grupos que aborda o tema no Facebook tem cerca de 120 mil membros.

Gabriela Costa, 25 anos, alisou os cabelos pela primeira vez aos sete anos. Ia ao salão a cada quatro meses para fazer relaxamento na raiz e, às vezes, fazia escova. Mas ela afirma que nunca se sentiu confortável com o processo. “Demorava horas, o produto coçava e eu era só uma criança”, lembra. Ela tomou a decisão de manter os cabelos cacheados quando terminou o ensino médio. “Desde pequena eu queria usar o meu cabelo natural, só demorei por causa da sociedade e do preconceito que existe em torno do cabelo crespo”, ressalta.

Durante a transição capilar, ela usou permanente afro, mas os fios começaram a quebrar e, depois de um tempo, resolveu fazer o grande corte. Mas afirma que foi uma difícil decisão, porque não queria perder o comprimento do cabelo. “Dá muito trabalho manter o cabelo nessa fase. Foi mais fácil cortar e jogar fora todo aquele passado que não me pertencia mais”, relata.

Cada pessoa tem uma motivação diferente quando decide assumir o cabelo. No caso de Débora Luz, 26 anos, foi um episódio de injúria racial que sofreu na faculdade: “Decidi assumir minhas raízes, a identidade do meu povo”. Para ela, o cabelo representa personalidade e parar de alisá-lo foi o momento em que descobriu que ser ela mesma é a forma mais autêntica de ser bela. “Foi um processo de descobrimento de quem sou, incluindo meu cabelo, estatura e cor de pele”, afirma.

A jovem começou a alisar os cabelos com 11 anos. Aos 22, quando decidiu parar, criou um canal no Youtube para falar sobre o assunto: “As meninas da faculdade me perguntavam a história do meu cabelo, como eu cuidava dele e os penteados que usava”. No canal, que já tem quase 38 mil inscritos, ela também posta vídeos sobre maquiagem e cuidados de beleza.

Deixar os cabelos naturais é um movimento que também envolve homens. Paulo Rocha, 25 anos, usava o cabelo raspado durante a adolescência, mas, hoje em dia, exibe o cabelo crespo, um lindo blackpower. “Muita gente fica curiosa, pedem para tocar e percebem que é macio e bem cuidado. Isso é importante para desmitificar a ideia de que cabelo crespo é maltratado”, enfatiza. Muito interessado em moda e cultura negra, ele gosta de variar o visual, e às vezes, também usa trança raiz.

Um ato político

Em 2014, a Associação Brasileira de Estudos Negros (ABPN) publicou um artigo intitulado Vício cacheado: estéticas afro diaspóricas, das autoras Ivanilde Guedes e Aline Silva. Segundo o texto, voltar a usar o cabelo cacheado ou crespo é um ato político. Para as autoras, assumir o cabelo não é só estética — é uma questão de resistência, porque transmite ancestralidade, e luta, pois vai contra o preconceito.

E é o que aconteceu com Gisele Dias, 22 anos.Ela afirma que muitas pessoas alisam o cabelo para se adaptar à sociedade e que usar seu cabelo crespo é uma resistência pela sua negritude. “O problema não está no meu cabelo, e sim no preconceito das pessoas. Quando ele começou a crescer e vi que é bonito, isso me empoderou”, conta.

Gisele acredita que muita coisa já mudou: “Antigamente, se você ia para uma entrevista de emprego com um cabelo crespo volumoso, achavam que ele estava bagunçado. Hoje em dia, vou para entrevistas com o meu cabelo natural e passo, tenho emprego”.

Paulo Rocha nunca teve problema para encontrar trabalho e nem passou por uma situação em que precisasse cortar o cabelo para ir a uma entrevista. “Nesse ponto, não me atrapalha, principalmente na minha área, sou publicitário. Meu cabelo passa uma boa impressão, de que sou uma pessoa criativa, que não estou preso a padrões e disposto a inovar”, comenta.

Mas o jovem afirma que sofre preconceito por causa do seu cabelo e da sua cor. “Eu sou um homem negro de 1,90m que usa um super blackpower, então sempre vai ter uma senhora colocando a bolsa para perto do corpo e um segurança que vai me acompanhar mais de perto. São situações que acontecem até hoje, infelizmente”, ressalta.

A antropóloga, Denise Costa,  é doutoranda em Antropologia Social e faz uma ressalva quanto ao sucesso profissional de Gisele e Paulo: “Em algumas profissões o cabelo crespo pode ser visto como algo positivo, bonito, mas em muitas outras ele ainda é rejeitado”.Ela afirma que o preconceito capilar ainda está muito presente na sociedade, mesmo com a onda positiva de homens e mulheres começando a usar o cabelo crespo como ícone político.

Autoestima

Para Gisele, assumir o cabelo crespo mudou completamente a confiança que ela tinha em si mesma. “Quando você começa a aceitar aquilo que lutava contra, percebe que você é bonita por inteiro. Adoro o volume do meu cabelo”. Para ela, os fios crespos exigem cuidado, mas o trabalho que tinha quando alisava era bem maior. “Eu gosto de cuidar dele, não tem nada melhor do que a liberdade de usar meu cabelo natural”, revela..

A autoestima de Paulo também mudou completamente depois que deixou seu cabelo crescer. “Eu era muito mais suscetível a críticas do que hoje. Sou mais feliz e realizado, tranquilo comigo mesmo. Quando olho no espelho gosto muito do que eu vejo”, afirma. Para ele, é importante fugir do padrão que homem negro tem que ser careca, como se o cabelo fosse feio ou maltratado.

Para a antropóloga Denise é muito importante o processo de assumir uma estética que foi ensinada a ser desprezada. Ela cita Bell Hooks, uma escritora norte-americana que possui diversos livros e artigos sobre questões de raça, classe e gênero. “Cada pessoa possui uma experiência com seu corpo e cabelo, mas não deixa de ser notório, no processo de transição capilar, aquilo que Hooks chama de amor interior, que é o amor pelo seu corpo, pela sua estética”, enfatiza.

Mas é necessário ressaltar que muitas pessoas gostam de alisar o cabelo e se sentem bem fazendo isso. É o caso da Valéria Duarte, 23 anos, que passa chapinha no cabelo desde os 15 anos e não pretende parar: “Já usei o cabelo cacheado algumas vezes, mas não gosto”. Além disso, ela já pintou as madeixas de vermelho e fez luzes. “Adoro mudar meu visual, e como meu alisamento não é definitivo, posso parar um dia. Mas, por enquanto, não pretendo fazer isso. Gosto de mim assim”, conclui.

Veja abaixo o vídeo com a opinião de Gabriela Costa, de 25 anos, sobre o assunto:

Foto: Jordânia Correia